Leituras indicadas para o vestibular da Unifra: “Eles Não Usam Black-Tie”


Por Gabriele Bordin

 

“Eles Não Usam Black-Tie” é um dos livros selecionados para o Vestibular da Unifra 2017 e merece a atenção dos candidatos. É uma peça de Gianfrancesco Guarnieri que trata das greves dos trabalhadores industriais dos morros dos anos 1950. A trama tem como personagem principal Tião, um jovem ambicioso e individualista que trabalha na fábrica ao lado do pai Otávio, um dos líderes sindicalistas.

A narrativa é em forma da peça de teatro e tem linguagem informal. É mais uma das características da obra que marcam as características do morro, além de tornar a leitura mais leve e divertida.

A proposta social

Traz uma tradicional família de classe baixa que enfrenta as circunstâncias da vida como podem e, apesar de tudo, unidos e amorosos. A figura da família pobre, sofredora, mas que leva a vida aproveitando as pequenas felicidades está sempre presente. Essas características se mostram fortemente na personalidade de cada um dos personagens.

A questão da luta de classes mostra em Otávio e Bráulio a intimidade familiar e o cotidiano de trabalhadores que vivem esta realidade, as dificuldades de famílias inteiras que vivem com um capital muito baixo.

O conflito principal

Quando descobrem a gravidez de Maria, o casal logo faz a festa de noivado, a qual é retratada na história. No início, escondem de todos, e as revelações acontecem ao longo da trama. O conflito central reside em meio às dúvidas de Tião em relação ao futuro. Quando surge a proposta de greve do sindicato, o rapaz tem medo de não conseguir o futuro desejado à família. Atormentado pelo medo, começam as indecisões sobre qual posição tomar afinal.

As personagens

Romana, a mãe de família, talvez tenha as características mais marcantes enquanto personagem da obra. Trabalha em casa, além de dona do lar, como lavadeira. Firme com os filhos para das os “puxões de orelha” necessários e pronta a apaziguar discussões entre o marido e os filhos. Uma mãe claramente dedicada, que não mede palavras quando precisa dizer algo e que sabe conversar para convencer qualquer um à suas ideias. Prevê o futuro nas cartas e se preocupa com o marido na luta de classes. É a primeira a acordar pela manhã para preparar o café para a família.

Maria, noiva de Tião, é uma menina apaixonada, trabalhadora e humilde, que quando se vê grávida encontra segurança no noivo para ser pai de seu filho. Com coragem, apoia a luta de classes, e faz questão que o noivo lute pelo futuro dos dois e do filho e trabalha também em uma fábrica de tecidos. Maria vive com a mãe muito doente e o irmão João, simpático com todos e sempre compreensivo, namora Dalva.

Tião é um menino sonhador que gostaria de viver na cidade e “ser alguém na vida”. Quando morou com os tios, abastados, na cidade e servia de “pajem” para os primos, acostumou-se com a vida da burguesia e passou a não gostar mais do morro. Com medo de desagradar aos patrões, e querendo elevar seu cargo na fábrica, começa a pensar na possibilidade de furar a greve ao lado do amigo Jesuíno.

Otávio é um autêntico pai de família, firme nas palavras e apaixonado pelos filhos e esposa. Luta diariamente trabalhando na fábrica para garantir o sustento da família e faz parte da comissão do sindicato de trabalhadores, ao lado do amigo Bráulio, para batalhar por uma vida mais digna.

Chiquinho, o filho mais novo da família, namora Terezinha. Os dois são apaixonados e levam broncas dos pais do menino a todo instante.

O professor Felipe Freitag dá dicas sobre a obra “Eles Não Usam Black-Tie”. Foto: Jéssica Marian Labfem

Dicas de professor

É a única obra do gênero dramático pedida neste ano.

É constituída por diálogos e rubricas (os “dois pontos” antes das falas).

Ambientação: Leopoldina. Tempo cronológico (não é o tempo das personagens): quatro dias.

Linguagem informal: contexto sócio-cultural da época e ligação ao neo-realismo. Trata de temas sociais, greves eram presentes e o tema principal é a greve do operariado no Rio de Janeiro.

Questões existencialistas do pai Otávio e do filho Sebastião: Otávio faz parte das greves e Sebastião não tem esse posicionamento de coletividade.

Características da prova de literatura do vestibular Unifra:

Focar mais no enredo da obra do que em questões que tragam, de alguma maneira, um conteúdo reflexivo crítico de análise. Onde se ambienta (morro do RJ), que tipo de espaço existe (quatro dias) e ações dos personagens (o que acontece durante a obra).

Ações dos personagens: Ato I: Quadro I: Noite de chuva, toda a família no barraco. Otávio chega em casa avisando a possibilidade de uma greve. Quadro 2: Tião chega em casa falando que vai ser ator de cinema, signo de statos. Pai se posiciona a favor da greve e filho, contra. Ato II: Quadro I: Domingo de manhã. Filho culpa o pai por viver no morro. Quadro II: Domingo à noite. Tião afirma que quer morar na cidade e largar a vida do morro. Tião acaba não aderindo a greve porque tem um objetivo muito claro, se ele apoiar a greve não receberá o salário de seu trabalho. Segunda-feira de manhã: Bráulio, amigo de Otávio, aparece e conta à família que Tião furou a greve e que Otávio foi preso. Ato III Segunda à noite: Tião diz que vai abandonar a cidade para evitar retalhação dos colegas de trabalho, Otávio sai da prisão mas se mostra feliz em relação à greve, Tião perde a esposa por não ter aderido à greve. E o fechamento da peça: Chiquinho fala que Juvêncio (andarilho do morro) está tocando na rádio, mas a canção está com o nome de outro autor e então, a cena clássica de Romana catando feijão enquanto chora.

Temática geral: Luta pela sobrevivência X a luta pela ideologia.

O professor Felipe Freitag é graduado em Letras Português, mestre em Estudos Linguísticos e atua como professor de Literatura em Santa Maria.

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