A ascensão do humor em quase todo o Brasil: como tudo começou?


Por Agência CentralSul de Notícias

 

Desde sempre o brasileiro amou o humor. O nordeste é conhecido como o berço do humor e o sudeste como a fonte do sucesso. O Rio Grande do Sul sempre teve alguns nomes dentro da comédia como Jair Kobe, o Guri de Uruguaiana, e André Damasceno, O Magro do Bonfa (Escolinha do Professor Raimundo), mas nunca foi um estado conhecido por ter grandes humoristas. E Santa Maria?

Desde os anos 1990, a comédia só cresceu com programas como Sai de Baixo, Os Trapalhões e Escolinha do Professor Raimundo. Na década de 2000, o humor estagnou no que era oferecido pelas grandes mídias, até que em 2005, entra em atividade o primeiro grupo de stand up comedy, o Comédia em Pé,  que tinha roteiristas do Zorra Total como integrantes, entre eles, o Fábio Porchat.

O stand up é um gênero de comédia norte-americano que teve origem no final do século XIX, e na qual o comediante sobe no palco sem nenhum tipo de caracterização ou acessório. No Brasil, na década de 60, Chico Anysio e Jô Soares faziam algo muito semelhante, geralmente na abertura de seus shows ou programas.

A partir do Comédia em Pé, o novo “jeito” de se fazer humor se disseminou por meio do Youtube, que, por sua vez, revelou diversas sub-celebridades atuais e também, em 2012, o maior canal de esquetes, o Porta dos Fundos. Na sua esteira veio uma nova gama de canais do mesmo estilo, adotando uma outra forma de fazer humor.

Com essa disseminação cômica movimentando Rio de Janeiro, São Paulo e Curitiba com novas opções cômicas, o Rio Grande do Sul ficou como? Enquanto o país se molda a uma nova forma de consumo de humor, o estado se encontrava estagnado, mas não por completo. Em 2008, Lucas Krug e Cris Pereira começam o Primeiro as Damas que tinha como foco a comédia de personagens. O grupo ganhou com um vídeo do personagem interpretado por Cris, Jorge da Borracharia, que tem mais de 800 mil visualizações. Para a época, algo absurdo.

O crescimento nacional do stand up e o Primeiro as Damas em alta, haviam outras pessoas tentando a sorte na capital e uma delas era Índio Behn, 29 anos, participante do Quem Chega Lá do Domingão do Faustão, de 2015 e do Prêmio Multishow, em 2016. Conforme Índio, o começo, em 2011, foi muito complicado, pois havia muitos humoristas recém começando. “Depois do Quem Chega Lá, não mudou muita coisa, porque raramente alguém vai ligar para ti e dizer que te viu lá, pois no programa existem diversos quadros”, conta o comediante.

Entretanto, ele afirma que o fato de ser o único do estado a ter participado do quadro ajudou-o no acesso a rádio e TV. “Claro que esse fato ajudou muito no meu orçamento, quando eu vou fazer um show corporativo, por exemplo”. Índio ressalta que para iniciar uma cena em uma cidade populosa é mais fácil. “Acredito que em cidades mais populosas seja melhor fazer uma cena pelo fluxo de pessoas, mas não vai ser nenhum mar de rosas”.

 Como está a cena no Rio Grande do Sul?

Hoje o estado conta com dois bares exclusivamente de comédia. O Buteco Comedy Bar (Canoas) e o Caverna Comedy Club (Farroupilha). O Buteco Comedy foi inaugurado em 2017, oriundo de um bar que já levava o stand up que antes levava o nome de Buteco S.A. O proprietário Felipe Vacilotto, 38 anos, é amante da comédia e diz que o mais difícil é a formação do público. “Fazer as pessoas entenderem o que fazemos e porque fazemos era a parte mais desafiadora”. Hoje o Comedy leva humoristas do interior do estado e do centro de São Paulo, e tem um público fiel.

Além disso, o Buteco Comedy e o Caverna também fornecem, uma vez por mês, uma noite de comediantes iniciantes, na qual pessoas tentam a sorte por 5 minutos no palco e ali comecem uma carreira no meio da comédia. Carlos Ferraz, 17 anos, é de Julho de Castilhos e desde agosto do ano passado fez participações nessas noites. “Comecei em agosto do ano passado e gostei muito desde a primeira vez que subi no palco”, conta o iniciante. O Rio Grande do Sul conta com mais de 50 comediantes iniciantes saindo de todos os cantos do estado, tendo sua maioria em Porto Alegre.

Mas e Santa Maria, como fica nesse cenário? Para o Índio, a dificuldade de Santa Maria é a mesma de todas as cidades. “Santa Maria precisa de um Bar que acredite no stand up, porque ás vezes dá pouca gente e o cara tem a razão dele. Só que também vai um humorista de Porto Alegre e eles não conhecem. A galera quer ver quem eles assistem no Comedy Central”, afirma Indio.

Santa Maria sempre foi conhecida como cidade cultura, mas por que ela não faz parte disso?

A cena se desenvolveu no estado nos últimos três anos e, nesse meio tempo, recebeu sete noites de comédia stand up. As primeiras edições foram feitas no The Park, no Shopping Praça Nova, nas quais tiveram humoristas como Índio Behn. As outras três noites foi feita com outra produção no Zeppelin Bar. Matheus Novelli, comediante, de 24 anos atua na comédia desde abril 2017. Ele começou produzindo a noite do Catioro Loco no mesmo ano e, em janeiro de 2018, esteve em Santa Maria.

Para Matheus o público santa-mariense é muito receptivo e tem a faixa etária considerada ideal para a comédia, entre 18 a 35 anos. Porém, ele vê que a cidade precisa de incentivo para que a cena se instaure aqui. “A cidade é grande e tem grande potencial, porque ela é universitária e, sendo assim, as pessoas tendem a ser mais novas e esperam coisas diferentes. Entretanto, não se tem o incentivo necessário”.

Matheus Novelli, no The Park, em 2018. Foto do arquivo pessoal

Já a proprietária, Milany Rios, proprietária do Zeppelin Bar que abriu espaço para um possível esboço da cena da capital em Santa Maria. Segundo ela, a cidade está no início ainda e tem que se desenvolver mais para algo do gênero. “O grande desafio é achar o público que consuma isso e também entender que é uma proposta cultural que está sendo proporcionada”, diz a proprietária.

Mesmo assim, a cena tão desenvolvida da capital se dissemina para fora e um dos lugares é Rio Grande, cidade do comediante Léo Oliveira, 27 anos, que está no gênero desde 2007. “Eu quis começar para poder falar o que eu queria e fazer algo que eu considerava muito diferente e na época era tão único”, conta o humorista.

Além disso, ele também diz que no começo era complicado. “A maior dificuldade, no início, era dizer para as pessoas o que eu fazia. Tinha que falar que era a mesma coisa que o Rafinha Bastos e o Danilo Gentili faziam”, afirma Léo, que também destaca a melhora a partir de 2012 por conta da plateia estar mais ciente do que via.

Hoje, Rio Grande conta com um festival de comédia próprio, o Rio Grande Comedy, que tem apoio e traz os principais comediantes da cena. Na primeira vieram dois humoristas de São Paulo, Santiago Mello e Murilo Moraes, junto com as atrações regionais. O Festival de Rio Grande está na segunda edição e trará como atração principal Cris Pereira que vem com um projeto novo de stand up de cara limpa.

Rio Grande Comedy, com Léo Oliveira, Gio Lisboa, Cris Pereira e Thiago Oliveira: O que falta afinal para o público ir a eventos de comédia?

Para a estudante de Relações Públicas, da UFSM, Eduarda Marcuzzo, de 27 anos,  o humor é uma alternativa para sair da rotina, mas destaca a falta interesse do público local. “Santa Maria é a cidade da cultura ‘paraguaia’, porque ninguém valoriza quando tem algo de qualquer  de entretenimento”. A estudante também conta que esteve  na maioria das noites de stand up. “Eu fui muito no Zeppelin e gostava. Acho que tem que se dar o valor para quem faz aqui e não só agregar àqueles que já são conhecidos, ou são daqui e fazem sucesso lá. Tem que valorizar quem é desconhecido aqui também”, enfatiza Eduarda.

Já para a estudante Laisa Santana, 23 anos, estudante de Filosofia, na UFSM, também se deve destacar os novos talentos. “Eu iria a um show de comediantes desconhecidos. Mas, essas coisas precisam de apoio e divulgação necessária para atrair as pessoas que já gostam”. Ela também ressalta que, na visão dela, para engrenar o humor e impor uma cultura precisa de um lugar que também acredite. “Acredito que, além do espaço, uma frequência de eventos de humor é o primeiro passo para que ocorra a familiaridade e ele comece a ter seu espaço”, conta Laisa.

Santa Maria tem 277 mil habitantes o fluxo de pessoas é muito grande, pouco menos que Canoas (323mil) e mais que Rio Grande (198 mil). Em Santa Maria há público potencial, mas não há frequência. Em Rio Grande, que é uma cidade portuária tem uma população menor que Santa Maria tem um festival que está se encaminhando para a segunda edição. Mesmo que os tempos de hoje sejam considerados difíceis para se fazer humor, por que em Canoas, Farroupilha e Rio Grande existe uma cena e em Santa Maria não?

 

Texto elaborado por João Martins, para a disciplina de Jornalismo Especializado, do Curso de Jornalismo da Universidade Franciscana, durante o primeiro semestre de 2019. Orientação: professora Carla Torres.

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