Eventualmente morta no sofá


Por Vitória Gonçalves

 

Há quem diga que o sofá era seu autocuidado, que chegar em casa, sentar e desfazer sua armadura emocional era comum. Atualmente ele se tornou sinônimo de descontentamento, o que era apenas para o final do dia, se transformou no dia inteiro. E como funciona quando o seu refúgio se torna o seu momento de profunda reflexão? Muitos afirmam que a mente vazia é a oficina do diabo.

 Atualmente, esse looping do sofá para a cama se tornou frustrante. Você se sente vivo? Quando eu digo vivo – é importante lembrar – eu naturalmente quero dizer o “antigo vivo”, o vivo pré-corona, o vivo 2019, que não tem absolutamente nada a ver com o “vivo de atualmente”, digamos quando não importa mais sentir e sim, estar.

 Antes da pandemia do novo coronavírus, o sofá significava o que ele significava. Agora, não. Agora, o sofá, assim como cada um de nós, têm dentro de si outra camada, outro conteúdo, outra densidade. Portanto, a rotina está sendo ressignificativa, e todos nós, sem exceção, estamos sendo obrigados a nos adaptar.

 Às vezes, acordo disposta e produtiva, e, em outras, dispersa e errante. E tenho de confessar, o sofá faz parte das duas fases. Eu, aqui da minha quarentena privilegiada de Alegrete, não tenho como conhecer seu estado de espírito, como também não conheço seu estado civil e muito menos seu estado de saúde. No entanto, há uma coisa a seu respeito que eu talvez saiba, e é sobre isso que me arrisco aqui: você está em casa, e possivelmente, no seu sofá.

 Apesar desse assento repleto de almofadas, às vezes ser enjoativo, ele pode ser considerado um companheiro. Você consegue chorar no seu sofá, consegue sorrir nele, consegue namorar, e até mesmo sonhar. Mas você não consegue viver. Assim, cabe falarmos que o contrário da vida não é a morte, o contrário da vida é o desencanto. E se você se encontrar eventualmente morto no seu sofá, eu compreendo, esses dias são frequentes. Porque você parou, o mundo parou, e parar não significa mais lazer, significa desencantamento.

 Essa conclusão sugere, que mesmo enfrentando esses meses dramáticos e apocalípticos, se sentir assim é inevitável, mas continuar assim é opcional.

Por Vitória Gonçalves é acadêmica do curso de Jornalismo na UFN e repórter-aprendiz na Agência Central Sul de Notícias.

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