Santa Maria, RS (ver mais >>)

Santa Maria, RS, Brazil

Opinião

O país que ainda espera por Neymar

Uma reflexão sobre a relação entre Neymar e o futebol brasileiro após sua convocação para a Copa de 2026. Entre esperança, desgaste e memória coletiva, o camisa 10 segue sendo um personagem impossível de ignorar.

O futebol ainda estranha mulheres no comando

A chegada de Marie-Louise Eta ao comando do Union Berlin marcou um momento histórico no futebol europeu e reacendeu debates sobre desigualdade de gênero em um esporte ainda dominado por homens.

Inter: amor que não cai

De 1909 pra cá, foi o amor que nos fez acompanhar cada jogo. Foi com a força do eterno Fernandão, o amor de D’Alessandro, a fidelidade de Abel Braga e, claro, o apoio da torcida.

O futebol não é só para eles

Ser homem no futebol é fácil. Eles são maioria nas arquibancadas, nos bastidores, na imprensa e, principalmente, nas posições de poder. Mas o esporte não é exclusivo para eles.

O consumo consciente é realmente possível no capitalismo?

Nos últimos anos, virou tendência falar sobre consumo consciente. Na mídia, nas redes sociais, nas propagandas de marcas e até mesmo nas etiquetas dos produtos, ser “sustentável” virou moda. Comprar menos, evitar desperdícios, dar preferência a

Quando a FIFA anunciou que a Copa do Mundo de 2026 seria disputada em Estados Unidos, México e Canadá, a escolha foi apresentada como um símbolo de integração. A primeira edição com 48 seleções prometia ampliar a diversidade do torneio e aproximar ainda mais diferentes culturas por meio do futebol. Em discursos oficiais, o presidente da entidade, Gianni Infantino, reforçou repetidamente a ideia de que todos seriam bem-vindos. A Copa seria uma celebração global.

Abertura da Copa do Mundo 2026, no estádio Asteka, no México. Créditos: Rodrigo OROPEZA/AFP

No entanto, poucos dias após o início da competição, a realidade parece desafiar essa narrativa.

As manchetes que marcaram a abertura do Mundial não foram apenas sobre gols, estádios lotados ou favoritos ao título. Antes mesmo de a bola rolar, a Copa passou a ser associada a revistas em aeroportos, problemas migratórios, vistos negados, delegações submetidas a procedimentos rigorosos de segurança e profissionais impedidos de entrar no país-sede. Mais do que episódios isolados, esses acontecimentos revelam uma questão maior: até que ponto a FIFA consegue sustentar seu discurso de neutralidade e inclusão quando o torneio está inserido em um contexto político marcado por conflitos, desigualdades e disputas internacionais?

A situação mais emblemática envolve o árbitro somali Omar Abdulkadir Artan. Escolhido pela FIFA para integrar o quadro de arbitragem da Copa, Artan faria história ao se tornar o primeiro árbitro da Somália a participar de um Mundial. Apesar de possuir visto válido e credenciamento oficial, foi impedido de entrar nos Estados Unidos ao desembarcar em Miami. O árbitro relatou ter passado horas sob interrogatório antes de ser deportado. Dias depois, a UEFA anunciou sua escalação para a Supercopa da Europa, um dos principais eventos do calendário continental.

O árbitro somali Omar Abdulkadir Artan, que havia sido escalado para apitar partidas na Copa do Mundo da FIFA de 2026, mas foi impedido de entrar nos Estados Unidos, foi recebido ao chegar ao Aeroporto Internacional Aden Abdulle Osman, em Mogadíscio, Somália, em 10 de junho de 2026. Foto: REUTERS/Feisal Omar

O episódio levanta uma pergunta difícil de ignorar, se Artan era qualificado o suficiente para ser selecionado pela FIFA e, posteriormente pela UEFA, por que não pode entrar no país que sediava a Copa do Mundo? A resposta oficial permanece vaga, mas o caso tornou-se símbolo de um problema mais amplo. A nacionalidade do árbitro pareceu pesar mais do que sua trajetória profissional.

O mesmo sentimento apareceu em outros episódios. A seleção de Senegal foi submetida a uma revista detalhada ainda na pista do aeroporto ao chegar aos Estados Unidos. A delegação do Uzbequistão passou por procedimentos de segurança envolvendo cães farejadores e inspeções rigorosas. Integrantes da seleção iraniana enfrentaram dificuldades relacionadas à emissão de vistos, obrigando a equipe a alterar parte de sua preparação. A jornalista Karine Alves, da Globo, relatou ter sido submetida a uma abordagem constrangedora durante sua entrada no país.

Separadamente, cada situação pode ser explicada como consequência de protocolos migratórios ou medidas de segurança. Juntas, entretanto, elas formam um padrão difícil de ignorar. Os casos mais repercutidos envolvem justamente representantes de países africanos, asiáticos ou nações que mantêm relações políticas tensas com os Estados Unidos.

É nesse ponto que a discussão ultrapassa o esporte.

O historiador Eric Hobsbawm afirmava que poucas atividades conseguem representar tão bem as identidades nacionais quanto o esporte. A Copa do Mundo, em especial, sempre foi mais do que uma competição de futebol. Ela funciona como uma vitrine política, econômica e cultural dos países envolvidos. Os governos sabem disso. A FIFA sabe disso. Os torcedores sabem disso.

Por essa razão, a ideia de que o futebol está completamente separado da política nunca passou de uma ideia conveniente.

A própria história da Copa confirma essa percepção. O Mundial de 1978 foi disputado sob a ditadura militar argentina. A edição de 2018 ocorreu na Rússia em meio a críticas internacionais ao governo de Vladimir Putin. A Copa de 2022 foi marcada pelos debates sobre direitos humanos no Catar. Em todas essas ocasiões, a FIFA insistiu em defender a neutralidade do esporte. No entanto, os acontecimentos recentes mostram que essa neutralidade tem limites bastante definidos.

A comparação com a Rússia ajuda a entender essa contradição.

Após a invasão da Ucrânia, FIFA e UEFA suspenderam rapidamente seleções e clubes russos das competições internacionais. A decisão foi apresentada como uma resposta necessária diante de um conflito militar de grandes proporções. Independentemente da avaliação sobre a medida, ela demonstrou que as entidades esportivas estão dispostas a tomar decisões políticas quando consideram apropriado.

O problema surge quando observamos que esse princípio não parece ser aplicado de maneira uniforme.

Enquanto a Rússia permanece afastada do futebol internacional, os Estados Unidos seguem ocupando o centro do maior evento esportivo do planeta, mesmo estando envolvidos em operações militares recentes e em conflitos diplomáticos que afetam diretamente algumas das seleções participantes do torneio. O caso do Irã é o exemplo mais evidente. A equipe chegou à Copa enfrentando dificuldades burocráticas justamente em um momento de agravamento das tensões entre os dois países.

A questão não é defender que os Estados Unidos sejam excluídos da competição ou propor uma equivalência entre situações históricas diferentes. O ponto central é outro, se a FIFA afirma que determinados comportamentos justificam sanções esportivas, quais são exatamente os critérios utilizados? E por que eles parecem variar de acordo com o peso político e econômico dos envolvidos?

Essas perguntas tornam-se ainda mais relevantes quando observamos a relação cada vez mais próxima entre a FIFA e o governo norte-americano. Nos últimos meses, Gianni Infantino intensificou sua presença em eventos oficiais relacionados à Copa ao lado de autoridades dos Estados Unidos. Em dezembro de 2025, Donald Trump recebeu o primeiro FIFA Peace Prize, criado pela entidade para reconhecer iniciativas ligadas à promoção da paz.

Donald Trump recebe de Gianni Infantino o Prêmio da Paz da Fifa. Créditos: REUTERS/Mandel Ngan

O episódio chamou atenção porque ocorreu justamente em um período marcado por guerras, crises diplomáticas e questionamentos sobre a atuação internacional dos próprios Estados Unidos. Mais uma vez, a FIFA demonstrou que sua relação com a política é menos distante do que costuma admitir.

Talvez seja justamente essa a principal lição dos primeiros dias da Copa de 2026.

Eduardo Galeano escreveu, em Futebol ao Sol e à Sombra, que o futebol é capaz de revelar as grandezas e as misérias do mundo que o cerca. A frase ajuda a compreender o que estamos vendo. A Copa não criou as desigualdades, as fronteiras seletivas ou as tensões geopolíticas que marcam o cenário internacional. Mas ela as tornou visíveis.

Enquanto a FIFA promove um discurso de integração global, a experiência de diferentes participantes mostra que nem todos atravessam as mesmas portas. Alguns chegam recebidos por torcedores e festas populares. Outros enfrentam interrogatórios, dificuldades burocráticas e suspeitas antes mesmo de entrar em campo.

A Copa do Mundo continua sendo um dos maiores encontros culturais do planeta. Mas os acontecimentos das últimas semanas demonstram que esse encontro não ocorre em condições iguais para todos. E talvez seja justamente aí que esteja o maior desafio da FIFA.

Mais do que organizar jogos, estádios e transmissões, a entidade precisa responder a uma pergunta que os episódios recentes tornaram inevitável, até que ponto é possível defender uma Copa para todos quando as barreiras que separam os participantes continuam sendo tão diferentes?

Porque, no fim das contas, o problema não está apenas nas fronteiras dos Estados Unidos.

Está nos limites da própria neutralidade que a FIFA insiste em defender.

Foto: XPB Images

No último Grande Prêmio da Fórmula 1, dia 14 de junho, a velocidade e adrenalina tomaram conta da pista de Barcelona-Catalunha, marcando o final de semana com ultrapassagens, disputa entre companheiros de equipe, safety car virtual, e é claro, Lewis Hamilton brilhando no topo novamente. 

O circuito é famoso por ser utilizado para realizar os testes dos carros e motores, justamente por sua estrutura linear comparada a outras pistas. Por isso, os carros mais estáveis do grid costumam ter maior vantagem, fazendo com que esse circuito seja marcado por corridas mais cansativas e com pouca adrenalina. Mas dessa vez não foi assim.  

George Russel, piloto da Mercedes, largou em primeiro lugar, na esperança de manter a posição, seguido por Lewis Hamilton (Ferrari) e Kimi Antonelli (Mercedes). No entanto, durante a corrida, os pits stop, as ultrapassagens e o safety car virtual (acionado por Alonso ter saído da pista) alteraram esta ordem. Hamilton assumiu a liderança, deixando as duas Mercedes para trás.  

Ambos os pilotos, Russel e Antonelli, disputavam incessantemente entre si, lutando pela segunda posição. Faltando apenas duas voltas para encerrar a corrida, Antonelli teve problemas com o carro e precisou abandonar a competição. O pódio ficou constituído por: 

1º – Lewis Hamilton (Ferrari) 

2º – George Russel (Mercedes) 

3º – Lando Norris (McLaren- atual campeão mundial) 

Foto: XPB Images

Quanto ao nosso brasileiro presente no grid, Gabriel Bortoleto, correndo pela Audi, largou em 12º lugar e chegou em 11º, mesmo com pequenos problemas técnicos não precisou abandonar a corrida, e quase conseguiu pontuar.   

Enquanto isso, Lewis Hamilton garantiu sua 106ª vitória na Fórmula 1, após 2 anos sem vencer. O piloto também conquistou sua 7ª vitória no circuito de Barcelona, batendo o recorde de Michael Schumacher, pois ambos estavam empatados com 6 triunfos.  

Após períodos críticos com o desempenho de sua Ferrari, Lewis nunca havia ficado em primeiro lugar no pódio pela escuderia. Agora, tanto a Ferrari quanto Hamilton estão de volta ao pódio e aos holofotes do esporte, reerguendo a equipe e fazendo história.  

Infelizmente, durante esta corrida, Charles Leclerc, companheiro de equipe do 7 vezes campeão mundial, abandonou o carro nas voltas finais do GP, por um problema técnico na direção e não conseguiu pontuar.  

Mesmo assim, a equipe demonstrou estar forte este ano, se fazendo presente no pódio em 5 das 6 corridas de 2026. Presenciamos mais uma vez Hamilton brilhando, dessa vez com uniforme vermelho e emoção nos olhos. Será que Lewis entra com tudo na disputa por seu oitavo título mundial esse ano? 

Fotos: Foto: XPB Images

Durante quatro minutos, parecia que tudo finalmente tinha dado certo.

Neymar chorava no gramado após o gol contra a Croácia. O Brasil estava classificado. A semifinal estava perto. E, por alguns instantes, parecia que aquela seria a imagem definitiva da relação entre Neymar e a Seleção: o craque decisivo, carregando o país mais uma vez.

Mas o futebol é imprevisível, tudo muda rápido demais.

Quatro minutos depois, a Croácia empatou. Vieram os pênaltis. Vieram as lágrimas de novo. E junto delas apareceu uma sensação estranha de fim. Como se aquela eliminação também encerrasse um ciclo entre Neymar e o Brasil.

Neymar e Antony lamentam eliminação do Brasil diante da Croácia
Imagem: Jewel SAMAD / AFP

Só que despedidas nunca foram simples quando se trata dele.

A convocação para a Copa de 2026 não ocorre porque Neymar ainda seja o jogador mais rápido, mais físico ou mais decisivo do mundo. Ela acontece porque o futebol brasileiro ainda olha pra ele como alguém capaz de fazer o impossível acontecer por alguns segundos. E talvez isso diga mais sobre o povo brasileiro do que sobre o próprio Neymar.

Porque, no fundo, o torcedor brasileiro ainda procura aquele menino de cabelo diferente que jogava sorrindo. Aquele que fazia parecer fácil. Aquele que carregava a sensação de que qualquer jogo podia virar espetáculo a qualquer momento.

Em 2010, ele era futuro. Em 2014, virou símbolo de um país inteiro que sonhava com o hexa dentro de casa até a joelhada que interrompeu tudo. Em 2018, jogou cercado pela obrigação de provar que ainda era o melhor. Em 2022, parecia cansado. O Brasil parecia cansado dele também.

Mas mesmo assim, quando o nome apareceu na convocação para 2026, o país parou pra olhar.

Porque Neymar nunca foi só futebol. Neymar virou memória de geração. Virou discussão de almoço em família, virou esperança exagerada, virou frustração nacional, virou obsessão coletiva. Todo mundo tem uma opinião sobre ele. E talvez seja exatamente isso que faz dele tão impossível de ignorar.

Só que agora é diferente.

O corpo já não responde igual. As lesões deixaram marcas. O sorriso parece menos leve. Pela primeira vez, Neymar não chega como unanimidade absoluta. Não chega como o herói inevitável. Chega quase como alguém tentando sobreviver ao próprio personagem.

E talvez seja justamente isso que torne tudo mais humano.

O menino virou veterano diante dos olhos de um país inteiro. O jogador que antes parecia representar o futuro agora carrega o peso do passado nas costas. Ainda assim, existe algo quase irracional no fato de que o Brasil continua esperando alguma coisa dele.

Talvez porque o futebol brasileiro também tenha dificuldade em seguir em frente.

Talvez porque seja difícil aceitar que o tempo passou.

Ou talvez porque, no fundo, a gente ainda queira acreditar que existe um último capítulo reservado pra ele.

Um último drible.
Um último gol.
Um último milagre.

Porque algumas relações no futebol não acabam quando deveriam.

E talvez o Brasil ainda não tenha aprendido a se despedir de Neymar.

Carlo Ancelotti convoca Neymar Jr. para a Copa de 2026. Imagens: Reuters

Por que as mulheres estão cada vez mais obcecadas por homens que existem apenas no papel?

Personagens quebram a expectativa do padrão de comportamento masculino. Imagem: Divulgação/Prime Video
Personagens quebram a expectativa do padrão de comportamento masculino.
Imagem: Divulgação/Prime Video

Quem acompanha a cultura pop e acessou as redes sociais nos últimos tempos certamente foi atropelado pelo fenômeno Off Campus. A série, uma adaptação dos livros da autora canadense Elle Kennedy, estreou recentemente no streaming Prime Video e o sucesso foi estrondoso. A história aborda o relacionamento e a vida de Hannah Wells (Ella Bright), uma jovem estudante de música que carrega um grande trauma, e Garrett Graham (Belmont Cameli), o popular capitão do time de hóquei da faculdade Briar. Clichê? Óbvio!

De mundos completamente diferentes, os protagonistas se aproximam a partir de um acordo: Hannah ajuda Garrett a estudar e ele tenta ajudá-la a conquistar Justin Kohl (Joshua Heuston), um músico por quem ela está interessada. Com o desenrolar da história, os dois inevitavelmente se envolvem, o que leva Hannah a mergulhar na vida de Garrett, um universo repleto de esportes, fraternidades e muita testosterona. E é aí que começa a nossa discussão.

Graham divide a casa com três amigos, também jogadores de hóquei. Apesar de carregarem todos os estereótipos possíveis do conhecido “hétero top”, é aí que as semelhanças com a vida real acabam. Mesmo cercados por circunstâncias propícias para agirem de forma abusiva, tóxica, preconceituosa e manipuladora, eles não o fazem. E o motivo é simples: foram escritos e dirigidos por mulheres.

Esse talvez seja o ingrediente principal para o gênero fazer tanto sucesso, especialmente com o público feminino. Encontramos ali personagens masculinos com responsabilidade emocional e afetiva, que não descontam suas frustrações nas parceiras e não perpetuam os comportamentos abusivos que sofreram na infância (como é o caso do próprio protagonista de Off Campus). São homens que levam a sério o consentimento e os limites, e que não têm medo de demonstrar sentimentos. Algo que deveria ser simples na teoria, mas que se tornou escasso ultimamente: homens adultos responsáveis, gentis, funcionais e emocionalmente inteligentes.

Em uma sociedade cada vez mais sufocante para as mulheres, bombardeadas por discursos misóginos, pela infeliz cultura red pill, e onde a solidão é considerada uma epidemia pela Organização Mundial da Saúde, uma realidade onde os homens se mostram frágeis e se permitem sentir parece cada vez mais distante.

Destaco uma das cenas da série em que Hannah, passando por um momento difícil em decorrência de um trauma da adolescência, ignora todas as mensagens e ligações do namorado. Ele também enfrentava um dia complicado, porém, ao encontrá-la, em vez de esbravejar, xingar ou descontar seu descontentamento na garota, Garrett apenas questiona se está tudo bem, e se ELE fez algo errado. Em nenhum momento há comportamentos tóxicos ou controladores. O mínimo? Sim, mas extremamente raro ultimamente. Em um mundo onde 80% das vítimas de feminicídio são assassinadas por parceiros ou ex-parceiros, segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, tendo o ciúme possessivo como principal motivação, as mulheres são ensinadas, desde cedo, a sempre esperar pelo pior.

Outro sucesso recente, a série canadense Heated Rivalry (Rivalidade Ardente), adaptação dos livros de Rachel Reid, também acertou em cheio ao abordar homens com emoções fortes e sem medo de expressá-las. A trama, também ambientada no brutal e hipermasculino mundo do hóquei, traz uma grande diferença: gira em torno de um casal homossexual. Os personagens Shane Hollander (Hudson Williams) e o russo Ilya Rozanov (Connor Storrie) se apaixonam e, apesar de tentarem esconder o relacionamento devido à pressão da carreira e da sociedade, não têm medo de demonstrar o afeto que sentem um pelo outro. Homens sendo carinhosos com outros homens: o mínimo que o público feminino ama ver.

Série canadense explora o romance entre dois jogadores rivais. Imagem: Reprodução

Historicamente, a própria indústria cinematográfica hollywoodiana foi construída sob o conceito do “Male Gaze” (o olhar masculino), produções feitas por homens e para homens. Nelas, as figuras femininas são retratadas como o “sexo frágil”, servindo apenas como um rosto bonito ou objeto sexual, enquanto a figura masculina é sempre o pilar forte, frio e incapaz de demonstrar sentimentos. Em contrapartida, a atualidade consagra o “Female Gaze” (o olhar feminino): homens escritos por mulheres, voltados para o público feminino. São personagens mais sensíveis, humanizados e expressivos, como vemos em produções recentes como Off Campus, Heated Rivalry e The Summer I Turned Pretty.

Diante deste cenário, surge um questionamento comum: “Se os homens reais também são criados por mulheres (mães, tias, avós, professoras), por que eles não se comportam como nos livros?”. Bom, por mais que as mulheres façam um trabalho excepcional na criação desses meninos, eles não são educados em uma microesfera. Em casa, a figura feminina pode ensinar sobre amor, respeito e criar um lugar acolhedor para expor sentimentos, mas ao pisar na rua, no entanto, esse jovem é engolido por uma sociedade patriarcal, pelo machismo estrutural e por movimentos misóginos da internet que validam a agressão, a manipulação e o preconceito. Eventualmente, a engrenagem social engole o que foi ensinado no lar. Nesse viés, é impossível não citar, também, como a demonstração de sentimentos é estritamente associada ao feminino de forma pejorativa. Homem não pode chorar ou falar sobre o que sente porque isso seria “coisa de mulher” — como se o feminino fosse um sinônimo de fraqueza ou algo ruim.

Por conta disso, o escapismo do público feminino para essas produções é frequentemente taxado como bobo, alienado ou mera fantasia infantil. Conteúdos que têm as mulheres como alvo principal são constantemente diminuídos pela crítica e pelo senso comum (Taylor Swift e seu público são a prova viva disso). Mas o fenômeno vai muito além do entretenimento. Essa obsessão literária e cinematográfica é, na verdade, um sintoma social; um grito de que as mulheres não estão satisfeitas com a realidade.

The Eras Tour da cantora norte-americana Taylor Swift se tornou a maior turnê em bilheteria de todos os tempos. Imagem: Reprodução/Casey Flanigan

Aquela antiga história do príncipe encantado no cavalo branco mudou. As mulheres não procuram a perfeição inalcançável, e a masculinidade em si não é rejeitada. A busca real é por um refúgio, a garantia de segurança e afeto sem o medo da violência. O sucesso estrondoso dessas histórias é a prova de que o comportamento padrão masculino da atualidade já não é mais aceitável.

No fim das contas, a grande diferença de Garrett Graham, ou de qualquer outro homem literário, é a sua humanidade, o que chega a ser cômico para um personagem fictício. Os “homens escritos por mulheres” fazem sucesso porque não representam uma ameaça à nossa existência. Enquanto vivermos em uma sociedade onde as telas e as páginas dos livros são os únicos lugares onde o consentimento é sexy, a vulnerabilidade é vista como algo bonito e o amor não é sinônimo de medo, o público feminino continuará buscando abrigo na ficção. Em uma realidade que nos mata, infelizmente, as páginas escritas por mulheres tornaram-se o único lugar seguro para amar um homem.

Marie-Louise Eta assumiu interinamente o comando do Union Berlin, da Alemanha, e entrou para a história como a primeira mulher a treinar uma equipe masculina nas cinco principais ligas da Europa. A notícia rapidamente repercutiu na imprensa esportiva internacional e transformou a treinadora alemã em símbolo de uma discussão que vai muito além do futebol: o espaço das mulheres em posições de liderança dentro de um ambiente historicamente dominado por homens.

O anúncio ocorreu após a saída do técnico Steffen Baumgart, em um momento delicado da temporada para o Union Berlin, que lutava contra o rebaixamento na Bundesliga. Apesar da repercussão causada pela escolha do clube, a chegada de Eta ao comando da equipe não foi algo improvisado. Aos 34 anos, ela já possuía uma trajetória consolidada dentro do futebol alemão.

Antes de iniciar a carreira como treinadora, Eta foi jogadora profissional. Atuando pelo Turbine Potsdam, conquistou títulos relevantes do futebol europeu, entre eles a Champions League feminina, campeonatos alemães e a Copa da Alemanha. Depois de encerrar a carreira dentro de campo, passou a trabalhar na formação de atletas e construiu espaço dentro do próprio Union Berlin, onde atuou nas categorias de base e comandou a equipe sub-19 antes de integrar a comissão técnica principal.

Sua ascensão no clube aconteceu gradualmente. Em 2023, ela já havia se tornado a primeira mulher a integrar oficialmente a comissão técnica de um clube da Bundesliga e também a primeira a participar de uma comissão técnica masculina na Champions League. Ainda assim, sua presença no futebol masculino continuava sendo tratada como algo excepcional e, em muitos momentos, alvo de questionamentos que raramente seriam direcionados a treinadores homens.

A repercussão da sua contratação evidenciou justamente isso. Logo após o anúncio do time, comentários sexistas começaram a circular nas redes sociais. Parte das críticas questionava sua capacidade de liderar um elenco masculino, enquanto outras insinuavam que uma mulher não teria autoridade suficiente para comandar jogadores homens. Algumas publicações chegaram a afirmar que seria “humilhante” perder para um time treinado por uma mulher.

Marie-Louise Eta já tinha sido a primeira mulher a atuar como auxiliar técnica na primeira divisão alemã de futebol. Foto: Getty Images

O futebol foi construído historicamente como um espaço associado à masculinidade. Durante décadas, mulheres não apenas foram afastadas das funções de liderança, mas também da prática esportiva em si. No Brasil, por exemplo, o futebol feminino foi proibido oficialmente entre 1941 e 1979. O decreto alegava que determinados esportes eram incompatíveis com o “corpo feminino”, reforçando uma lógica que limitava o papel das mulheres dentro do esporte e da sociedade.

Mesmo após o fim da proibição, o futebol feminino continuou enfrentando abandono estrutural, falta de investimento e pouca visibilidade. Enquanto isso, o futebol masculino consolidava-se como espaço de poder, influência cultural e grandes investimentos financeiros. Nesse cenário, mulheres passaram a enfrentar dificuldades não apenas para jogar, mas também para ocupar funções de comando, gestão e análise esportiva.

Nas últimas décadas, a presença feminina no futebol cresceu em diferentes áreas. Passando a ocupar espaços no jornalismo esportivo, na arbitragem, na narração e nos comentários esportivos. Ainda assim, os cargos técnicos seguem sendo majoritariamente masculinos, principalmente no futebol de elite europeu.

A própria trajetória de mulheres no jornalismo esportivo mostra como esses espaços ainda são constantemente atravessados pelo machismo. Jornalistas, comentaristas e narradoras frequentemente relatam episódios de descredibilização profissional, ataques nas redes sociais e questionamentos sobre conhecimento técnico simplesmente por serem mulheres falando sobre futebol. No comando técnico, essa lógica se torna ainda mais intensa, já que o cargo de treinador historicamente foi associado à liderança masculina e à autoridade dentro do vestiário.

Por isso, a presença de Marie-Louise Eta no banco de reservas do Union Berlin possui um peso simbólico tão grande. Sua chegada ao cargo rompe uma lógica construída ao longo de décadas dentro do futebol europeu. E talvez o principal ponto dessa discussão seja justamente o fato de que sua competência nunca deveria ter sido tratada como surpresa.

O Union Berlin se posicionou publicamente após os ataques sofridos pela treinadora. O diretor esportivo do clube, Horst Heldt, classificou os comentários como “vergonhosos” e afirmou que Eta possui total apoio da diretoria, dos jogadores e da torcida. Segundo ele, a treinadora chegou ao cargo por mérito e preparação profissional, não por uma ação de marketing ou representatividade simbólica.

A própria treinadora também falou sobre o impacto causado por sua trajetória. Em entrevista ao jornal britânico The Guardian, Eta afirmou que costuma receber mensagens de meninas e jovens mulheres que passaram a se sentir representadas ao vê-la ocupando um espaço historicamente masculino. “Quando recebo mensagens de meninas que se sentem encorajadas, isso me deixa muito feliz. Visibilidade é importante”, declarou.

Ao falar sobre a repercussão da própria trajetória, Eta também deixou claro que não deseja ser reduzida apenas ao fato de ser mulher dentro do futebol masculino. Em entrevistas, a treinadora reforçou que sua chegada ao comando do Union Berlin é resultado de anos de trabalho, estudo e experiência dentro do esporte. Ainda assim, o impacto simbólico de sua presença no banco de reservas acabou se tornando inevitável. Em um ambiente onde mulheres historicamente foram afastadas de posições de liderança, sua trajetória ultrapassa o aspecto individual e passa a representar também uma mudança, ainda que lenta, dentro da estrutura do futebol.

E talvez seja exatamente esse o ponto mais importante da discussão.

Marie-Louise Eta não surgiu como um fenômeno isolado dentro do futebol masculino. Antes dela, outras mulheres já haviam ocupado cargos semelhantes, ainda que em contextos diferentes. Um dos casos mais conhecidos aconteceu na França, quando Corinne Diacre assumiu o Clermont Foot, da segunda divisão francesa, em 2014. Na época, sua contratação também gerou forte repercussão e dúvidas sobre sua autoridade no futebol masculino. A portuguesa Helena Costa chegou a ser anunciada pelo mesmo clube pouco antes, mas deixou o cargo antes mesmo da estreia por divergências internas.

Corinne Diacre afirma ao The Guardian: “Quando eu estiver aposentada, sentada em frente à lareira na minha velhice, talvez então eu pense no que fiz.” Foto: Ed Alcock/Guardia

Apesar desses precedentes, o caso de Eta possui uma dimensão diferente justamente por acontecer dentro da Bundesliga, uma das ligas mais importantes do futebol mundial. As cinco principais ligas europeias Bundesliga, Premier League, La Liga, Serie A e Ligue 1, concentram os maiores investimentos, audiência e influência do esporte global. Por isso, sua chegada ao comando do Union Berlin ganhou repercussão mundial.

Pouco tempo depois de assumir a equipe, Marie-Louise Eta voltou a fazer história. Na vitória do Union Berlin por 3 a 1 sobre o Mainz, tornou-se a primeira mulher a vencer uma partida comandando uma equipe masculina em uma das cinco grandes ligas da Europa. O resultado ajudou o clube na luta contra o rebaixamento e transformou a treinadora novamente em destaque da imprensa internacional.

A repercussão da vitória de Eta mostrou que sua presença no comando do Union Berlin ainda é vista como algo fora do comum dentro do futebol masculino. E talvez seja justamente esse o ponto central da discussão. Enquanto treinadores homens costumam ser analisados principalmente pelos resultados dentro de campo, mulheres ainda precisam lidar com questionamentos sobre autoridade, competência e pertencimento antes mesmo de iniciarem seus trabalhos.

A trajetória da treinadora alemã evidencia como o futebol continua sendo um espaço atravessado por desigualdades de gênero, mesmo após os avanços conquistados pelas mulheres nas últimas décadas. Ao mesmo tempo, sua chegada ao banco de reservas do Union Berlin também mostra que essas estruturas começam, ainda que lentamente, a ser transformadas.

Mais do que uma vitória e a permanência do Union Berlin na Bundesliga, Marie-Louise Eta representa um momento simbólico dentro do futebol europeu. Não porque seja a única mulher capaz de ocupar esse espaço, mas porque foi uma das primeiras a conseguir atravessar barreiras que, durante muito tempo, impediram mulheres de chegar até ali.

De 1909 pra cá, foi o amor que nos fez acompanhar cada jogo. Foi com a força do eterno Fernandão, o amor de D’Alessandro, a fidelidade de Abel Braga e, claro, o apoio da torcida.

O Colorado escapou do rebaixamento na última rodada do Campeonato Brasileiro de 2025. Foto: Andressa Rodrigues/Arquivo Pessoal

O Inter se perdeu no meio da temporada. Depois de anos duros sem títulos, 2025 trouxe um Gauchão importante para o clube. Depois de tanto tempo sofrendo com derrotas, vice-campeonatos e eliminações frustrantes, conquistar o Estadual trouxe um pequeno alívio, e junto dele, a expectativa de um ano tranquilo e vitorioso.

Mas o futebol é imprevisível. E o ano que poderia ser calmo foi afundando, pouco a pouco. Uma direção bagunçada e cheia de problemas deixou o externo contaminar o interno. Fofocas, brigas, confusões…o vestiário virou uma bagunça. Jogadores entraram e saíram… Mas será que eles sabem o que é ser Inter? Os culpados foram apontados durante todo o ano: Roger Machado? Alessandro Barcellos? Ramón Díaz?

A principal mudança para a reta final do campeonato foi a volta do treinador Abel Braga, ídolo do clube. Ele abriu mão de salário, puxou a responsabilidade e fez um trabalho heroico nas duas últimas rodadas. Torcedor colorado, chegou a hora de respirar aliviado: o Internacional permanece na primeira divisão do futebol brasileiro!

E falando em torcedor, eles fizeram toda a diferença. Mesmo no pior momento, não deixaram de cantar, torcer e acreditar. O Inter chegou na última rodada dependendo da sua vitória e de outros resultados para permanecer na série A. Os resultados vieram, e o Inter fez o seu papel superando o Red Bull Bragantino no Beira-Rio.

Mais de 20 mil pessoas estavam presentes no estádio, apoiando o time durante os 90 minutos. A torcida merecia a permanência na série A. Esse clube é gigante e merece ser respeitado!

Ser homem no futebol é fácil. Eles são maioria nas arquibancadas, nos bastidores, na imprensa e, principalmente, nas posições de poder. Mas o esporte não é exclusivo para eles.

A declaração machista de Ramón Díaz em coletiva gera um debate sobre preconceito e desvalorização do futebol feminino no Brasil. Imagem: Reprodução/Globo Esporte

Recentemente, uma fala machista vinda de uma figura de liderança dentro do Sport Club Internacional escancarou uma realidade que muitos insistem em ignorar: o futebol brasileiro ainda é um ambiente profundamente desigual e resistente à presença feminina. E o mais doloroso é ver esse tipo de postura partindo de um clube que trabalha com um time feminino potente.

O problema não é pontual. Ele reflete uma cultura que atravessa décadas e se mostra tanto na forma como jogadoras são tratadas, nas oportunidades oferecidas dentro das redações esportivas ou nas falas em que tentam nos colocar “no nosso lugar”. 

A fala recente de Ramón Díaz não é um caso isolado. Durante sua passagem pelo Vasco da Gama, em 2024, o técnico já havia se envolvido em uma polêmica semelhante ao questionar a presença de uma mulher no comando do VAR, afirmando que “me parece complicado que no VAR quem tenha que decidir seja uma mulher”. 

Agora, no Internacional, ele volta a reproduzir o mesmo tipo de discurso machista ao dizer que “o futebol é para homens, não para meninas”. As duas declarações, separadas por pouco mais de um ano, reforçam que o problema não está apenas nas palavras, mas na mentalidade enraizada em grande parte do meio esportivo, um ambiente que ainda insiste em tratar a presença feminina como exceção.

E não, não se trata de “criar crise”. O próprio clube já se encarrega disso, enquanto luta contra o segundo rebaixamento. O que está em debate é algo muito mais essencial: o direito das mulheres de pertencerem a esse espaço, seja como torcedoras, jornalistas, atletas ou dirigentes.

Quando o técnico de um clube do tamanho do Internacional reproduz discursos machistas, ele não fala só por si, ele reafirma estruturas de poder que afastam e silenciam mulheres há gerações. O Inter, que carrega em sua história o lema de “Clube do Povo”, precisa entender que o povo também é feminino.

O futebol é paixão, é cultura, é identidade. Mas enquanto continuar sendo um território hostil para as mulheres, seguirá sendo também um espelho das desigualdades que ainda marcam a nossa sociedade. E o maior erro é fingir que isso é normal.

A luta das mulheres por espaço no futebol não é recente, mas cada novo episódio de machismo expõe o quanto temos que avançar. Mesmo com o crescimento das competições femininas, da presença de jornalistas mulheres nas coberturas e das torcidas organizadas por elas, existe resistência em reconhecer o papel feminino como essencial ao esporte.

Ramón Díaz não mancha apenas a própria imagem, mas também a do clube que representa. Quando um técnico assume um cargo de liderança, ele se torna uma voz institucional, e suas palavras refletem diretamente nos valores e na reputação da equipe. A fala de Díaz retrocede séculos de exclusão, tempo esse que já proibiu mulheres de jogar, de narrar, de apitar e até de torcer livremente. Mas o futebol como espaço de paixão e representatividade, não pode ser palco para retrocessos.

Foto: Sebo Camobi/ Darlan Lemes

No decorrer dos dias da 52ª Feira do livro de Santa Maria, que ocorreu na Praça Saldanha Marinho, ao observar a movimentação, uma busca recorrente da parcela de leitores era por histórias em quadrinhos, as famosas HQs. São histórias com narrativas que combinam imagens e texto em uma sequência.

Diante de muitas folheadas, ligeiras passadas de olhos ou até mesmo muitas HQs lidas em poucos minutos diante da banca, eram ações comuns antes da decisão de levar a revista ou não. Até mesmo a procura certeira, de já chegar com algo específico em mente, essa foi umas das muitas tardes na feira.

A banca Sebo Camobi esteve presente durante os 16 dias de atividade. Rafael Pohlmann, que trabalha no local, comentou sobre a procura de HQs se manter alta com o passar dos anos. Diferentes faixas etárias caminham pela feira em busca desse universo “comic”, um universo compartilhado por vários personagens fictícios, como histórias da Marvel ou da DC, ou ainda com personagens solos, como por exemplo, o Homem Aranha.

A busca por essas histórias tem uma faixa etária bem abrangente, vai desde adolescentes de mochilas andando em um pequeno grupinho à tarde, que acabam sendo atraídos por HQs mais infanto-juvenis como Turma da Mônica Jovem e mangás expostos na feira, até adultos passeando com a família e seus cachorros, que mesmo segurando uma térmica e a cuia do seu chimarrão, os colocam embaixo do braço e se aproximam da banca. Não há idade certa, são colecionadores, nostálgicos, ou até mesmo curiosos que acabam se deparando com a existência das revistinhas ao garimpar livros pela feira.

  • Matéria produzida na disciplina de Produção da Notícia do curso de Jornalismo, sob orientação da professora Neli Mombelli.

Nos últimos anos, virou tendência falar sobre consumo consciente. Na mídia, nas redes sociais, nas propagandas de marcas e até mesmo nas etiquetas dos produtos, ser “sustentável” virou moda. Comprar menos, evitar desperdícios, dar preferência a produtos ecológicos e reutilizar são considerados pilares dessa prática, que busca respeitar o planeta e o meio ambiente. Mas será que é fácil assim? Um estudo realizado pelo Instituto Akatu, organização não governamental que atua na mobilização da sociedade pelo consumo consciente, apontou, em 2022, que apenas 17% da população brasileira tem hábitos realmente conscientes. Os dados mostram que, apesar do discurso, na prática a mudança ainda é difícil. E aí surge o grande questionamento: será que é possível consumir de forma consciente em um sistema capitalista que tem como base o consumismo? 

A indústria da moda é uma das que mais alimenta o consumismo. Imagem: pixabay

A essência do capitalismo como sistema econômico é o consumo — quanto mais se compra, melhor para a economia. O impacto das redes sociais nesse modo de pensar é enorme: toda semana surgem novas “trends”, estilos e produtos. Para estar “na moda”, é preciso acompanhar tudo isso, o que reforça a lógica de consumo constante. Porém, com o aumento dos discursos sobre sustentabilidade, muitas grandes empresas passaram a adotar uma postura mais “eco-friendly” para atrair consumidores. É nesse contexto que surge o greenwashing — quando marcas tentam parecer sustentáveis, mas sem mudar de fato suas práticas. A poluição em larga escala, o desperdício de recursos e a exploração de mão de obra precária continuam acontecendo, e o consumo consciente acaba sendo transformado apenas em uma estratégia de marketing.

Um exemplo claro disso está na indústria da moda, uma das que mais alimentam o consumismo. A produção de roupas baratas, descartáveis, de baixa qualidade e que seguem tendências passageiras é conhecida como fast fashion. Esse modelo envolve a exploração de mão de obra barata, muitas vezes em condições análogas à escravidão, além do uso excessivo de recursos naturais, como água e energia. Também contribui para a poluição do solo, da água e do ar com o uso de agrotóxicos, corantes e outros produtos químicos. Diante desse cenário, algumas alternativas surgiram para tentar amenizar os danos. O movimento slow fashion, por exemplo, valoriza a qualidade, durabilidade e originalidade das roupas, incentivando o consumo local. O minimalismo propõe a redução do consumo e do acúmulo de roupas, com peças versáteis e atemporais. Já o upcycling transforma roupas usadas ou velhas em novas peças, prolongando sua vida útil.

Diante de tudo isso, fica claro que o consumo consciente, apesar de importante, enfrenta muitos limites dentro de um sistema que nos incentiva diariamente ao consumismo. Não dá para ignorar que pequenas mudanças individuais têm valor, mas elas, sozinhas, não resolvem um problema que é estrutural. Enquanto empresas e governos não assumirem responsabilidades maiores e continuarem priorizando o lucro, o impacto real será sempre limitado. Talvez o maior desafio não seja apenas mudar nossos hábitos, mas questionar o sistema que nos induz a consumir cada vez mais.

Artigo produzido na disciplina de Narrativa Jornalística no 1º semestre de 2025. Supervisão professora Glaíse Bohrer Palma.

Imagem: freepik

 Com o avanço das redes sociais e o consumo acelerado de vídeos curtos, fica a dúvida: ainda cultivamos o hábito da leitura? Cada vez mais distraídos por estímulos rápidos, parece que a leitura tem perdido espaço no cotidiano das pessoas, especialmente entre os mais jovens. A sensação é de que os livros foram deixados de lado, substituídos por telas que exigem pouca concentração e oferecem recompensas imediatas. Essa mudança de comportamento não acontece por acaso ela reflete transformações culturais, tecnológicas e sociais que impactam diretamente a forma como nos relacionamos com o conhecimento. Mas o que perdemos quando deixamos de ler?

 A substituição da leitura por conteúdos imediatistas pode gerar impactos significativos. A capacidade de concentração tende a diminuir, dificultando até mesmo tarefas simples do dia a dia, como ler um texto até o fim ou interpretar uma informação com profundidade. Além disso, a leitura é uma das principais ferramentas de desenvolvimento do pensamento crítico, da empatia e da criatividade. Quando deixamos de exercitar esses aspectos, corremos o risco de nos tornar menos reflexivos e mais influenciáveis.

A 6ª edição da “Retratos da Leitura no Brasil” em 2024 aponta que 53% dos entrevistados não leram nem mesmo parte de uma obra nos três meses anteriores à pesquisa. O número de não leitores verificado em 2024 representa um aumento de cinco pontos percentuais em relação ao de 2019, que era a edição mais recente da pesquisa. Os dados do ano passado são os que apresentam o maior número de “não-leitores” na série histórica do levantamento, que começou em 2007. 

 Além dos fatores culturais e tecnológicos, é impossível ignorar a influência das desigualdades socioeconômicas na formação do hábito da leitura. Em muitos lares brasileiros, faltam livros, bibliotecas acessíveis e até mesmo tempo livre para ler, já que grande parte da população precisa lidar com jornadas de trabalho longas e condições de vida precárias. A leitura, nesse contexto, acaba sendo vista como um luxo ou algo distante da realidade. A falta de políticas públicas que incentivem a leitura e democratizam o acesso ao livro, contribui para que a leitura permaneça restrita a uma parcela privilegiada da sociedade.

 A perda do hábito da leitura no Brasil não é apenas consequência das novas tecnologias ou da preferência por conteúdos rápidos, ela também reflete uma realidade marcada por desigualdades sociais, falhas no sistema educacional e ausência de políticas públicas voltadas para o incentivo à leitura. Quando deixamos de ler, perdemos não só o contato com histórias, mas também com a capacidade de pensar criticamente, refletir sobre o mundo e desenvolver empatia. Reverter esse cenário exige um esforço coletivo: da escola, da família, do governo e também de cada indivíduo. Em tempos de excesso de informação e escassez de atenção, ler pode ser um ato de resistência  e de reconexão com nós mesmos.

Artigo produzido na disciplina de Narrativa Jornalística no 1º semestre de 2025. Supervisão professora Glaíse Bohrer Palma.