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Meio Ambiente

O impacto do El Niño no Outono de 2026

O Outono teve início no último dia 20 de março e os primeiros dias da nova estação foram marcados pela transição de um clima ameno para o El Niño

JIMA debate mudanças climáticas e espiritualidade na UFN

A XVI Jornada Integrada do Meio Ambiente (JIMA) da Universidade Franciscana, ocorreu nos dias 4 e 5 de junho e o tema deste ano foi: “Mudanças climáticas: soluções, perspectivas e a casa comum”.

O consumo consciente é realmente possível no capitalismo?

Nos últimos anos, virou tendência falar sobre consumo consciente. Na mídia, nas redes sociais, nas propagandas de marcas e até mesmo nas etiquetas dos produtos, ser “sustentável” virou moda. Comprar menos, evitar desperdícios, dar preferência a

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A primavera de 2026 começa oficialmente nesta terça-feira, dia 22 de setembro, às 21h05, pelo horário de Brasília, e segue até 21 de dezembro, quando tem início o verão. A estação marca a transição entre o inverno e o verão e é caracterizada, no Rio Grande do Sul, por mudanças graduais nas temperaturas, aumento da luminosidade e maior ocorrência de tempestades.

Neste ano, o comportamento do clima deve exigir atenção dos gaúchos. Previsões de órgãos meteorológicos indicam chuvas acima da média para a Região Sul, enquanto o fenômeno El Niño se intensifica.

Gráfico probabilístico do El Ninõ para a primavera 2026. Fonte: CPC/NOAA – INPE, INMET, Funceme e Censipam.

Segundo o Painel El Niño 2026-2027, divulgado por órgãos meteorológicos e de monitoramento brasileiros, há uma alta probabilidade de ocorrência de um El Niño de forte intensidade durante a primavera. As projeções indicam que o fenômeno deve persistir pelo menos até o início de 2027.

O Cemaden destaca a necessidade de monitoramento diante da possibilidade de eventos como chuvas intensas, inundações e enxurradas em áreas vulneráveis.

No Rio Grande do Sul, o histórico recente de eventos extremos torna o acompanhamento das previsões especialmente importante. A ocorrência de chuva intensa em curto período pode provocar alagamentos, elevação rápida do nível de rios e transtornos em áreas urbanas e rurais.

Temperaturas podem ficar acima da média

A tendência para o segundo semestre de 2026 é de temperaturas acima da média em boa parte do país. Porém, a chegada da primavera, entretanto, não elimina a possibilidade de entradas de massas de ar frio. Esses sistemas ainda podem provocar quedas bruscas de temperatura, principalmente nas primeiras semanas da estação.

Dessa forma, o clima deve continuar apresentando grande variação. Dias quentes podem ser sucedidos por períodos de temperaturas mais baixas.

Alterações na natureza

A chegada da primavera também provoca transformações na natureza. Com o aumento gradual da luminosidade, da temperatura e da umidade, diferentes espécies de plantas entram em período de maior atividade, aumentando a floração.

Flores emolduram o Lago Negro, em Gramado, durante o período de floração na primavera. Foto: Getty Images

As alterações na natureza também interfere no comportamento de animais. Abelhas, borboletas e outros polinizadores apresentam maior atividade durante períodos de floração, contribuindo para a reprodução das plantas.

As transformações também podem ser percebidas na duração dos dias. Após o equinócio de primavera, os dias passam gradualmente a ficar mais longos e as noites mais curtas no Hemisfério Sul, até a chegada do verão.

Mudanças na rotina

A mudança de estação também é percebida diretamente pela população. A elevação gradual das temperaturas e o aumento da luminosidade influenciam atividades ao ar livre, escolha de roupas e hábitos cotidianos.

Para a jovem Maria Eduarda Pires, estudante, a primavera é uma das épocas preferidas do ano justamente por representar a aproximação do verão. “Eu gosto da primavera, gosto desse clima pré-verão. Com toda certeza, a mudança do clima afeta diretamente o humor. Como eu prefiro o calor, me sinto muito melhor nessa época do ano”, relata. Apesar de gostar das temperaturas mais elevadas, Eduarda aponta um aspecto negativo da estação: o aumento da presença de pólen, que pode incomodar pessoas que sofrem com rinite e outras alergias respiratórias.

A percepção não é isolada. A Fiocruz destaca que rinite, crises de asma e conjuntivite alérgica estão entre os problemas mais frequentes durante a primavera, período em que fatores ambientais como o polén podem favorecer o surgimento ou a piora de sintomas em pessoas alérgicas.

Impactos no campo

A primavera marca uma etapa importante para a agricultura gaúcha. O período representa a transição entre algumas culturas de inverno e o início do preparo e da implantação das lavouras de verão.

Plantio de trigo em lavoura do Rio Grande do Sul. Foto: José Schafer/Emater/RS-Ascar Santa Rosa

O cenário de chuva acima da média pode dificultar o trabalho no campo. De acordo com o INMET, o excesso de chuva na Região Sul pode provocar encharcamento do solo, dificultar o plantio e os tratos culturais, aumentar a incidência de doenças fúngicas e interferir na qualidade e na colheita.

Por isso, os períodos de menor precipitação devem ser aproveitados pelos produtores para realizar as atividades agrícolas dentro das janelas recomendadas para cada cultura.

Assim, a primavera de 2026 chega ao Rio Grande do Sul marcada por mudanças no clima, na natureza e na rotina da população. Entre períodos de calor, possíveis massas de ar frio e chuvas intensas, o monitoramento das condições meteorológicas será importante para reduzir riscos de alagamentos e transtornos. Enquanto a natureza ganha vida e as alergias podem se intensificar, o campo também exige planejamento diante da possibilidade de excesso de chuva. Até a chegada do verão, a estação deve ser marcada por transformação e atenção dos gaúchos.

Imagem: Pixabay

Você já ouviu falar em ecoansiedade? O termo surgiu nos estudos científicos no começo dos anos 2010 e, segundo a Associação Americana de Psicologia (APA), se refere ao medo crônico da destruição ambiental. Com o aumento dos desastres climáticos extremos no estado do Rio Grande do Sul, novas discussões estão ocorrendo sobre o impacto na saúde mental. 

A preocupação com crises climáticas não está isolada, a exemplo disto a ONU (Organização das Nações Unidas) destaca em seu Plano de Desenvolvimento Sustentável: Agenda 2030 um conjunto de 17 objetivos com 169 metas. Essas metas são parte dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) a serem atingidos até o ano de 2030 de forma global. Entre estes objetivos está o ODS número 3, que visa assegurar uma vida saudável e promover o bem-estar para todos, em todas as idades. 

Pesquisas recentes demonstram que em casos de desastres climáticos de longo porte, como enchentes e incêndios florestais, há impactos na saúde mental. Em entrevista ao G1, a psicóloga Jaqueline Assis destaca que se o clima e o território não forem considerados nas discussões sobre território não há como garantir uma qualidade de vida aos moradores. 

Carina Boeck, professora de bioquímica da Universidade Franciscana (UFN), destaca que a ecoansiedade está relacionada a crises climáticas e ecológicas. Segundo a professora, a ecoansiedade é caracterizada por sintomas negativos em razão do clima, do meio ambiente e de pensamentos repetitivos associados ao medo do futuro de forma direta. Conforme as pesquisas indicam, estes fenômenos se tornam mais comuns entre os jovens adultos, caracterizados pelo início da carreira profissional, por exemplo. “As preocupações com as mudanças climáticas devem ser motivo de atenção caso gerem pânico. Os medos são importantes para nós e nos colocam para nos preparar para algo. Mas, há descontroles quando existe o excesso.”, destaca a professora. 

Partes do Infográfico postado pelo G1 em 2025 quando as enchentes no Rio Grande do Sul completaram um ano. Fonte: G1 RS

Em maio de 2024, o Rio Grande do Sul viveu uma das maiores catástrofes naturais da sua história. As enchentes foram causadas por diversos fatores, como chuva abundante, falta de tratamento dos esgotos e falta de área permeável para absorver a água. Para Carina, em casos como este observa-se alguns impactos psicológicos. “Nós conseguimos enxergar que durante o período destas catástrofes as pessoas mais atingidas pelas chuvas foram, naturalmente, as que tiveram mais problemas de saúde mental. Em casos de agricultores que perderam suas plantações e famílias que perderam suas casas, pode haver o transtorno pós-traumático, que vai além da ecoansiedade.” Segundo a professora é necessário entender a individualidade de cada um, seus sentimentos e as experiências de vida. 

De todo modo, cabe a todos ter o autocuidado assim como cuidar do meio ambiente. Atividades práticas podem ser aplicadas no dia a dia, como fazer a separação correta dos resíduos domésticos e consumo de produtos sustentáveis, ajudando a não poluir mais o meio ambiente, e também atenção consigo próprio com atitudes como manter-se hidratado, ter  uma boa alimentação, duração e qualidade adequadas de sono e atividades físicas de formas regulares. 

Reportagem produzida na disciplina de Jornalismo Especializado no 1º semestre de 2026 do curso de Jornalismo, sob supervisão da professora Glaíse Bohrer Palma.

Fenômeno Climático obriga agricultores a replanejarem plantios e diminui safra de inverno  

Imagem: Arquivo Emater-RS Regional Santa Maria/Vanessa de Moraes

Antes mesmo da chegada das primeiras chuvas intensas, o retorno do El Niño já começou a transformar a rotina no solo gaúcho. A previsão de um fenômeno de forte intensidade, com possibilidade de evoluir até o fim do ano, levou produtores rurais a anteciparem o preparo das lavouras, reorganizarem o manejo dos rebanhos e reverem investimentos para reduzir possíveis prejuízos. O cenário evidencia como a agricultura do Rio Grande do Sul passou a responder não apenas aos impactos do clima, mas também às projeções meteorológicas, refletindo a experiência acumulada após os eventos extremos registrados nos últimos anos.

O El Niño se tornou bem conhecido pelos gaúchos depois de 2024, quando sua característica chuva extraordinária causou um dos maiores desastres climáticos da história do estado. Resultado de uma “combinação perfeita de fatores”, conforme explica Murilo Lopes, Meteorologista da PREVOTS (Plataforma de Registros e Rede Voluntária de Observadores de Tempestades Severas), o fenômeno não foi o único responsável pela quantidade avassaladora de chuvas daquele período e cita que, naquela situação, a resposta atmosférica foi muito mais concentrada que o aquecimento do oceano, que caracteriza o El Niño.

O que é o El Niño?

O fenômeno do El Niño é o aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico, próximas à linha do Equador que, devido a geografia do território brasileiro, causa secas na região norte e nordeste, e chuvas nas regiões do sul do Brasil. Murilo explica que perto da Oceania há uma concentração de águas quentes que, em condições normais, não chegam até a América do Sul. Entretanto, devido a algumas interações entre a atmosfera e o oceano, os ventos que mantém essa água de temperatura elevada longe da América são enfraquecidos, o que faz com que ela se disperse até o continente, ocasionando alterações atmosféricas que afetam diversas partes do mundo, incluindo o Brasil.

“Aqui, na América do Sul, isso é bastante importante porque gera um ramo de ar ascendente sobre o oceano. Porque está mais quente, esse ar é mais leve, e sobe. Consequentemente, isso gera movimentos de ar que descem sobre a região amazônica e o nordeste do Brasil”, explica Murilo. Esse ar aquecido cria condições desfavoráveis para a formação de nuvens. Assim, a umidade que não precipita no norte é transportada para o sul do país, criando condições propícias para chuvas.

Murilo Lopes mostra no mapa o aquecimento das águas próximas à América do Sul (canto inferior direito do mapa). Imagem: Thine Feistauer/LABFEM

Por que o El Niño desse ano preocupa?

As respostas atmosféricas do El Niño geralmente começam a ser sentidas após 2 meses da confirmação do fenômeno. Para isso acontecer, é preciso que a elevação da temperatura das águas a 0,5ºC acima da média persista por 3 semanas. Em maio deste ano as temperaturas ainda estavam dentro da média histórica e logo no início de junho atingiram 1,5ºC acima da média. O meteorologista explica que essa rápida transição para o El Niño é incomum e deve acelerar os efeitos do fenômeno que geralmente ocorrem apenas no período do fim do inverno e início da primavera. Para comparação, o desastre de 2023/2024 iniciou com enchentes no mês de setembro de 2023, e tiveram seu ponto mais crítico em maio de 2024, entre a primavera e o outono, período de duração tradicional do El Niño.

Tabela referente a classificação do El Niño

CLASSIFICAÇÃO DO EL NIÑO
0,5ºC – 1,0ºCFRACO
1,0ºC – 1,5ºCMODERADO
1,5ºC – 2,0ºCFORTE 
2,0ºC < MUITO FORTE OU SUPER EL NIÑO

Tabela produzida a partir dos dados do meteorologista Murilo Lopes.

O fenômeno já foi confirmado pela NOAA (sigla em inglês para: Administração Nacional Oceânica e Atmosférica) dos Estados Unidos durante a segunda semana de junho e a INMET (Instituto Nacional de Meteorologia) já divulgou que há 63% de chance de Super El Niño durante os meses de Novembro – Dezembro – Janeiro. Esses números significam que em 2026 pode ocorrer um dos El Niños mais intensos da história em relação a parte oceânica do fenômeno, conforme explica Murilo. “Esse alerta é reforçado porque nós estamos indo para um fenômeno que está se desenvolvendo muito rápido, que vai ser muito forte e quando há essas situações, já existe um histórico bem consolidado de impacto no Rio Grande do Sul”, acrescenta o especialista.

Apesar desse alerta, o meteorologista afirma que é difícil prever as consequências exatas do EL Niño. “Os modelos não permitem dizer, por exemplo, a questão da chuva mensal. A gente vai conseguir dizer, talvez, um mês que vai chover mais, mas se isso vai se concentrar num evento de 5 dias, se vai ser uma chuva bem distribuída, ainda tá longe para dizer.” Essa imprevisibilidade pode ser perigosa para o caso de inundações e alagamentos repentinos.

Qual o impacto na agricultura gaúcha?

A estimativa da empresa pública de auxílio à agricultura familiar, Emater-RS (Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural), lançada em junho de 2026,  prevê a diminuição da produção rural da safra do inverno em 22% em relação ao ano passado, uma variação de aproximadamente 1 milhão de toneladas. Isso se dá principalmente pelo trigo, que terá uma diminuição de 36,39% na produção em relação a 2025. 

O gerente regional da EMATER de Santa Maria, Guilherme Godoy, explica que apesar de haver uma diminuição na safra de trigo, há um aumento na safra da canola. “A canola é uma cultura mais tolerante às adversidades climáticas que a gente vem observando nos últimos anos, especialmente em um ano que tende a ser chuvoso”. A colheita do trigo ocorre no final do terceiro trimestre de 2026, coincidindo com o período em que o El Niño começa a se tornar mais evidente. Guilherme ainda esclarece que a operação da colheita do trigo é muito sensível e, por isso, precisa de uma condição climática favorável para que a colheita seja feita com a umidade necessária para um cereal de boa qualidade

O Gráfico mostra a previsão de anomalia de chuva para o trimestre de Agosto, Setembro e Outubro desse ano. As manchas azuis indicam o desvio numérico de chuva em relação a média histórica. 

(Fonte: Portal de Previsão Numérica do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais e do Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos)

A preocupação com as mudanças climáticas não parte só dos órgãos oficiais. Aliel Freitas Corrêa é agrônomo e evidencia que os produtores rurais já consideram a possibilidade de ocorrência do fenômeno El Niño e de outros eventos climáticos extremos no planejamento das lavouras. Segundo ele, a adoção de tecnologias e de estratégias de manejo faz parte da rotina no campo para reduzir os impactos e aumentar a capacidade de resposta diante das adversidades climáticas. Entre as principais práticas estão o uso de plantas de cobertura e a manutenção do solo protegido ao longo de todo o ano. Essas medidas estão de acordo com as indicações da Emater-RS  e  ajudam a reduzir a erosão, preservar a fertilidade e aumentar a resiliência das lavouras. A empresa pública ainda orienta que os produtores tenham uma variedade de culturas, pois o desafio climático atual é intenso para depender de um tipo de atividade rural.

Essa necessidade já tem provocado mudanças no planejamento da safra de inverno na região. Diante desse cenário, alguns produtores passaram a investir em outras culturas, enquanto a maioria optou pelo cultivo de aveia e azevém para cobertura do solo, preparando as áreas para a safra de verão, segundo Aliel.

Os efeitos do clima no dia a dia do produtor rural

Além das mudanças no sistema de produção, os custos das propriedades rurais também aumentaram. Para enfrentar esse cenário, os produtores contam com linhas de crédito voltadas à agricultura sustentável e programas de recuperação produtiva, voltados ao fortalecimento da agricultura familiar, à recuperação de áreas degradadas e à ampliação da capacidade de adaptação das lavouras às mudanças climáticas como a Terra Forte. O programa concede o repasse de R$ 30.000 para produtores de agricultura familiar aplicarem um projeto conduzido por um profissional da Emater para aumentar a resiliência climática da plantação.

Produtor rural e técnica da Emater-MG
Imagem: Divulgação

Para Aliel, a combinação entre planejamento, acesso à informação, uso de tecnologias e fortalecimento das políticas públicas será fundamental para reduzir os impactos dos eventos extremos, garantir a segurança alimentar e assegurar a sustentabilidade econômica das propriedades rurais nos próximos anos.

Na prática, essa preparação já faz parte da rotina de quem vive no campo. Ao acompanhar as previsões para a ocorrência do El Niño, o agricultor André Silveira, da cidade de São Sepé, afirma que precisou reorganizar as atividades da propriedade para minimizar possíveis prejuízos. Segundo ele, tanto o manejo da pecuária quanto o preparo das áreas de cultivo foram antecipados. O gado está sendo levado para áreas mais altas como forma de prevenir perdas em caso de enchentes, enquanto o planejamento da safra de arroz começou antes do habitual.

De acordo com o produtor, a principal estratégia é deixar toda a terra preparada antes do período de plantio. Como o El Niño costuma provocar excesso de chuvas e encharcamento do solo, a intenção é aproveitar qualquer intervalo de tempo firme para realizar o plantio rapidamente. André explica que, se a preparação fosse feita apenas nesse período, haveria o risco de perder dias importantes de trabalho em razão das chuvas frequentes, comprometendo o desenvolvimento da lavoura.

Apesar de considerar positiva a antecipação dos trabalhos, já que a propriedade estará pronta para iniciar o plantio assim que as condições permitirem, o agricultor ressalta que a mudança também traz desafios. Entre eles está a necessidade de investir mais cedo em insumos, como combustível, em um momento em que os preços dos produtos agrícolas permanecem baixos. Ainda assim, ele afirma que a preparação é indispensável diante das incertezas climáticas, uma vez que tanto o excesso de chuvas quanto um eventual período de estiagem podem causar impactos significativos na produção.

O que esperar para os próximos anos…

O fenômeno do El Niño geralmente ocorre a cada 2 a 7 anos, mas devido ao aquecimento global, há a possibilidade de que esses eventos climáticos sejam cada vez mais frequentes. “De modo geral, como os oceanos estão mais quentes, os ventos que mantém a água aquecida do Oceano Pacífico tendem a enfraquecer como um todo. Isso leva a condições mais favoráveis para o El Niño acontecer”, afirma Murilo Lopes. Ele também explica que mesmo essa tendência é incerta pois, historicamente, nunca houve tanta energia acumulada no oceano, o que torna esse cenário novo. Não se sabe, por exemplo, se essa tendência pode estar associada a maior frequência do fenômeno, ou a fenômenos de maior intensidade ao longo dos anos.

Imagens de satélite mostrando a diferença entre a temperatura média da superfície do mar no Equador, no Oceano Pacífico tropical (representada por vários tons de vermelho e laranja para indicar o calor), durante a primeira semana de junho de 2026, e a linha de base utilizada pelo programa Coral Reef Watch da NOAA.  
Imagem: Reprodução NOAA Satellites

Entretanto, outros fenômenos preocupam a produção rural do estado que vê a necessidade de um planejamento constante de resistência às adversidades climáticas. A La Niña, fenômeno oposto ao El Niño que gera períodos de seca na região, é um exemplo. Segundo Godoy, os períodos de estiagem são ainda mais penosos economicamente para a agricultura do que a chuva intensa. Esse fator comprova que, mais do que nunca, a resiliência aos fenômenos climáticos continuará sendo pauta prioritária na agricultura do Rio Grande do Sul.

Texto em parceria com a acadêmica de Jornalismo: Andressa Rodrigues

Reportagem produzida na disciplina de Jornalismo Especializado, sob orientação da professor Glaíse Palma, no 1º semestre de 2026.

A Universidade Franciscana (UFN) realiza, entre os dias 27 e 29 de abril, a 4ª Mostra da Extensão. O evento tem como objetivo valorizar e dar visibilidade às ações extensionistas desenvolvidas por acadêmicos e professores, reforçando a relação entre universidade e comunidade. A temática deste ano é “Aprendizagem e serviço solidário”.

A Mostra se consolida como um espaço de troca de experiências e compartilhamento de conhecimento, evidenciando o papel da extensão universitária na formação dos estudantes por meio de práticas aplicadas e do contato com a comunidade.

As inscrições para participação seguem abertas até esta sexta-feira, dia 24 de abril, e são gratuitas para toda a comunidade. Os participantes inscritos recebem certificado de 20 horas de Atividades Complementares de Curso (ACC).

A programação conta com uma série de atividades ao longo dos três dias. Entre os destaques, está a exposição fotográfica dos projetos de extensão, que busca retratar, por meio de imagens, as experiências vividas pelos acadêmicos nos diferentes contextos de atuação. Também integra a programação o fórum de estudantes extensionistas, que contará com a participação de cinco egressos da Universidade, promovendo a troca de experiências e trajetórias.

Além disso, o evento inclui rodas temáticas por territórios, o painel “Experiência, aprendizagem e serviço solidário”, com o gerente de extensão universitária e aprendizagem-serviço da PUC/PR, Rodrigo de Andrade, e o consultor da Política de Extensão da UFN, Adriano Hertzog Vieira, e a mostra de vivências do PET-Saúde Equidade.

O curso de Jornalismo também participa da programação. No dia 29 de abril, das 14h às 18h, os acadêmicos apresentam o projeto “Entre Vozes e Olhares”, desenvolvido na disciplina de Comunicação Comunitária, ministrada pela professora Laura Fabrício. A iniciativa foi realizada junto à Escola Municipal de Ensino Fundamental Aracy Barreto, a partir de ações construídas pelos estudantes ao longo de dois semestres, com foco na aproximação entre universidade e comunidade escolar. Além disso, o curso também apresenta o projeto de extensão “Nave de Histórias”, um podcast inicialmente desenvolvido na disciplina de Áudio para Mídias Digitais, sob orientação da professora Neli Mombelli.

Ao longo da quarta-feira, 29 de abril, também ocorre a mostra dos projetos integradores, projetos extensionistas e programas de extensão, ampliando a visibilidade das ações desenvolvidas na instituição.

A programação completa e mais informações sobre o evento podem ser acessadas no site da UFN.

Programação completa

27 de abril (segunda-feira)
• Abertura oficial da 4ª Mostra da Extensão
• Exposição fotográfica dos projetos de extensão
• Fórum dos estudantes extensionistas

28 de abril (terça-feira)
• Rodas temáticas por territórios
• Painel “Experiência, aprendizagem e serviço solidário”
• Mostra de vivências do PET-Saúde Equidade

29 de abril (quarta-feira)
• Mostra de projetos integradores, projetos extensionistas e programas de extensão
• Apresentações de projetos ao longo do dia
• Participação do curso de Jornalismo com o projeto “Entre Vozes e Olhares”, das 14h às 18h

 Foto: Pixabay

O Outono teve início no último dia 20 de março, e os primeiros dias da nova estação foram marcados pela transição de um clima ameno para o El Niño, de acordo com o IRGA (Instituto Rio Grandense de Arroz). Ou seja, isto explica as temperaturas acima da média e chuvas esparsas e irregulares do fim de março e começo de abril. Este fenômeno é causado pelo aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico Equatorial, influenciando o clima em diversas regiões do mundo, alternando padrões de chuva e temperatura. O efeito climático irá se desenvolver ao longo do Outono e sua influência aumentará na segunda metade da estação.

No mês de abril e maio espera-se mais irregularidade, assim a tendência segue sendo de temperaturas acima da média, aumentando a quantidade de chuvas na região Sul. Por conta destes efeitos climáticos há riscos de enchentes em áreas da região. De acordo com a meteorologista Jossana Ceolin, em declaração ao IRGA, nas primeiras semanas de abril uma área de baixa pressão vinda da Argentina se aproximou da região Sul, o que resultou em instabilidade, tempo fechado e temporais.

A semana após a Páscoa começou com chuva e o alerta para temporais isolados segue. A instabilidade dos últimos dias perde a força entre quinta (9) e sexta (10), dando lugar ao retorno do sol. No sábado (11), o tempo firme predomina, mas o céu ainda deve permanecer mais fechado ao longo do dia. Já no domingo (12), uma nova frente fria avança e volta a trazer chuvas ao estado.
Os acumulados nos próximos dias devem variar entre 30mm e 90mm, com temperaturas variando entre 15°C e 30°C ao longo do mês.

Segundo semestre deve ser de chuva

Chuva forte em lavoura de milho | Crédito: shutterstock

Imagem: Shutterstock

A previsão é de que este novo El Niño Costeiro se intensifique durante os próximos meses, podendo ter efeitos fortes no segundo semestre de 2026. Uma das áreas mais impactadas pelas mudanças meteorológicas é a agricultura. No Rio Grande do Sul muitas lavouras de soja foram afetadas pelo clima irregular de janeiro e fevereiro, e para os próximos meses de outono o alerta aos produtores de arroz segue vigente.

O IRGA recomenda que a colheita seja feita assim que as plantações já estejam prontas, para evitar a perda da safra ameaçada pela instabilidade das chuvas. Simultaneamente, meteorologistas aconselham aos donos das plantações para que fiquem atentos as previsões do tempo e condições climáticas de forma contínua, assim poderão ter uma colheita proveitosa.

Neste trimestre haverão poucos períodos secos, por isso a orientação aos produtores é que realizem a preparação do solo logo após finalizar a colheita.

Colaboração: Acadêmica de Jornalismo Maria Eduarda de Castro


Em coletiva realizada na tarde de hoje, após a entrada dos estudantes para a prova do vestibular, a reitora da Universidade Franciscana, professora Iraní Rupolo, destacou a expressiva procura pelo vestibular de inverno, com ênfase nas áreas da saúde e no curso de Medicina. Questionada sobre o papel da inteligência artificial na formação acadêmica, a reitora foi enfática ao defender o uso ético e consciente da tecnologia, ressaltando que “quem deve gerir a inteligência artificial é a inteligência humana”. Professora Irani ainda lembrou que o avanço digital não pode obscurecer as urgências humanas como a dignidade e a empatia e convocou a comunidade acadêmica ‘a ser ponte, e não muro, no mundo em transformação’.

Reitora Iraní Rupolo defendeu o uso ético e consciente da inteligência artificial. Imagem: Enzo Martins/Labfem

A reitora ainda ressaltou a importância de discutirmos na Universidade as questões climáticas e ligadas ao meio ambiente, não só na reflexão sobre o assunto, mas também em ações que impactem o coletivo. Para a reitora, o compromisso ecológico deve estar presente nas pequenas atitudes do cotidiano e também nos diálogos com órgãos públicos, outras instituições acadêmicas e o mercado, buscando construir uma consciência coletiva de responsabilidade ambiental. No embalo dos 70 anos da instituição, a reitora encerrou sua fala dizendo que acolher bem os novos estudantes é mais que protocolo, é missão.


Colaboração: Isadora Rodrigues

Imagem: Assecom

A XVI Jornada Integrada do Meio Ambiente (JIMA) da Universidade Franciscana ocorreu nos dias 4 e 5 de junho e o tema foi: “Mudanças climáticas: soluções, perspectivas e a casa comum”. O evento teve como objetivo incentivar o diálogo e o compartilhamento de práticas sustentáveis entre diferentes setores da sociedade, além de contribuir para as discussões da Conferência Municipal do Meio Ambiente de Santa Maria. A programação incluiu palestras, apresentações, cineclube e debates, com foco também na relação entre espiritualidade e cuidado ambiental, inspirada nas reflexões do Papa Francisco.

Uma das propostas da programação foi o Cine Clube Ecofalantes, com a exibição do documentário “A campanha contra o clima’, uma produção conjunta da Dinamarca, Finlândia, Noruega, Suíça e Bélgica. Logo após a apresentação do vídeo, o coordenador da proposta e professor do curso de Direito, Márcio de Souza Bernardes, abriu um debate sobre as mudanças climáticas no planeta. Bernardes destacou a importância de reconhecer que a vida está sempre em mudança e que precisamos de políticas ambientais que vão além do imediato, adotando práticas sustentáveis para reduzir gases como o metano. Ele também ressaltou a urgência de combater a desinformação e enfrentar os desafios climáticos com conhecimento, ética e responsabilidade.

Além disso, o professor criticou a polarização política e a influência do capitalismo nas estruturas do Estado, que dificultam avanços ambientais. Ele alertou para o uso político do termo “comunismo” como um fantasma para desviar de debates e reforçou a necessidade de promover discussões baseadas em ciência e ética para formar cidadãos mais conscientes e preparados para agir pelo futuro do planeta.

Imagem: Enzo Martins/Labfem

Outro momento importante da programação da JIMA foi uma edição especial do Fé & Café com o tema “A preocupação com o meio ambiente envolve espiritualidade?”. A conversa reuniu a reitora da UFN, Iraní Rupolo, e a professora do Programa de Pós-graduação em Ensino de Ciências e Matemática, Thais Scotti do Canto-Dorow, que destacaram a espiritualidade como parte do cuidado com a vida e com o planeta. O encontro reforçou a importância de unir fé, ciência e ética nas questões ambientais. A atividade foi promovida em parceria com o Instituto Franciscano de Espiritualidades e Humanidades (IFEH), a Arquidiocese de Santa Maria, a Pastoral Universitária e o grupo Jovens em Romaria.

A programação encerrou com um debate sobre o tema: “As contribuições do Papa Francisco para a questão do meio ambiente”. Participaram do momento o Pe. Rogério Alencar Ferraz de Andrade, secretário executivo da CNBB Sul 3, e o professor João Hélio Pes, do curso de Direito da UFN, com mediação do professor Márcio de Souza Bernardes. Durante o debate, se destacou a visão do Papa Francisco sobre a interdependência entre seres humanos e natureza, com a compreensão de que o planeta é um presente de Deus, que exige responsabilidade e cuidado com as gerações presentes e futuras. A comunidade acadêmica foi convidada a refletir sobre mudanças de comportamento, consumo consciente e práticas sustentáveis no dia a dia. Segundo o professor João Hélio cabe à universidade o papel de transformar essas ideias em ações, formando profissionais comprometidos com o cuidado da Casa Comum.


Colaboração de Isadora Rodrigues.










Nos últimos anos, virou tendência falar sobre consumo consciente. Na mídia, nas redes sociais, nas propagandas de marcas e até mesmo nas etiquetas dos produtos, ser “sustentável” virou moda. Comprar menos, evitar desperdícios, dar preferência a produtos ecológicos e reutilizar são considerados pilares dessa prática, que busca respeitar o planeta e o meio ambiente. Mas será que é fácil assim? Um estudo realizado pelo Instituto Akatu, organização não governamental que atua na mobilização da sociedade pelo consumo consciente, apontou, em 2022, que apenas 17% da população brasileira tem hábitos realmente conscientes. Os dados mostram que, apesar do discurso, na prática a mudança ainda é difícil. E aí surge o grande questionamento: será que é possível consumir de forma consciente em um sistema capitalista que tem como base o consumismo? 

A indústria da moda é uma das que mais alimenta o consumismo. Imagem: pixabay

A essência do capitalismo como sistema econômico é o consumo — quanto mais se compra, melhor para a economia. O impacto das redes sociais nesse modo de pensar é enorme: toda semana surgem novas “trends”, estilos e produtos. Para estar “na moda”, é preciso acompanhar tudo isso, o que reforça a lógica de consumo constante. Porém, com o aumento dos discursos sobre sustentabilidade, muitas grandes empresas passaram a adotar uma postura mais “eco-friendly” para atrair consumidores. É nesse contexto que surge o greenwashing — quando marcas tentam parecer sustentáveis, mas sem mudar de fato suas práticas. A poluição em larga escala, o desperdício de recursos e a exploração de mão de obra precária continuam acontecendo, e o consumo consciente acaba sendo transformado apenas em uma estratégia de marketing.

Um exemplo claro disso está na indústria da moda, uma das que mais alimentam o consumismo. A produção de roupas baratas, descartáveis, de baixa qualidade e que seguem tendências passageiras é conhecida como fast fashion. Esse modelo envolve a exploração de mão de obra barata, muitas vezes em condições análogas à escravidão, além do uso excessivo de recursos naturais, como água e energia. Também contribui para a poluição do solo, da água e do ar com o uso de agrotóxicos, corantes e outros produtos químicos. Diante desse cenário, algumas alternativas surgiram para tentar amenizar os danos. O movimento slow fashion, por exemplo, valoriza a qualidade, durabilidade e originalidade das roupas, incentivando o consumo local. O minimalismo propõe a redução do consumo e do acúmulo de roupas, com peças versáteis e atemporais. Já o upcycling transforma roupas usadas ou velhas em novas peças, prolongando sua vida útil.

Diante de tudo isso, fica claro que o consumo consciente, apesar de importante, enfrenta muitos limites dentro de um sistema que nos incentiva diariamente ao consumismo. Não dá para ignorar que pequenas mudanças individuais têm valor, mas elas, sozinhas, não resolvem um problema que é estrutural. Enquanto empresas e governos não assumirem responsabilidades maiores e continuarem priorizando o lucro, o impacto real será sempre limitado. Talvez o maior desafio não seja apenas mudar nossos hábitos, mas questionar o sistema que nos induz a consumir cada vez mais.

Artigo produzido na disciplina de Narrativa Jornalística no 1º semestre de 2025. Supervisão professora Glaíse Bohrer Palma.

Esse é o terceiro período de calor extremo deste verão no território gaúcho. Imagem: Freepik

A nova onda de calor que assola o estado o Rio Grande do Sul está no seu ápice. É o que indica o Climatempo e o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), que também mostram temperaturas próximas aos 40ºC em algumas regiões.

Geograficamente, seguindo na contramão das demais localidades do país, os estados da Região Sul do Brasil são caracterizados por possuírem uma grande amplitude térmica, ou seja, temperaturas que variam muito na transição de uma estação climática para outra. Por óbvio, no Rio Grande do Sul não é diferente. Dessa forma, ao mesmo tempo em que o estado é conhecido pelos seus invernos intensos e rigorosos, no verão, as temperaturas tendem a subir de maneira excessiva.

Conforme relatório divulgado pela MetSul Meteorologia no último final de semana, a atual onda será a mais duradoura e deve persistir até o mês de março. Essa será terceira onda de calor já registrada no estado nesse ano. A primeira havia acontecido entre os dias 17 e 23 de janeiro, enquanto a segunda incidiu entre os dias 2 e 12 de fevereiro.

A Fronteira Oeste do Rio Grande do Sul é uma das regiões gaúchas que mais sentem o impacto do forte calor no verão. No início do mês, a cidade de Quaraí, situada na fronteira com o Uruguai, registrou a temperatura de 43,8ºC, a maior temperatura já vista no estado em 115 anos. Algumas outras cidades da região como Alegrete, Uruguaiana, Rosário do Sul e Santana do Livramento também tiveram temperaturas altas durante o mês.

População busca se hidratar em meio ao calor escaldante que se faz presente no estado.
Imagem: Paulo Ortiz/Nobres Notável Rede de Telecomunicações Ltda (NNTV)

Segundo a Organização Meterológica Mundial (OMM), uma onda de calor é formada quando as temperaturas máximas diárias extrapolam em 5ºC ou mais a média mensal durante pelo menos cinco dias em sequência. A onda de calor terá influência na proeminência das temperaturas em todas as regiões do estado pelo menos até a próxima quinta-feira, dia 27 de fevereiro, com grandes chances de temperaturas chegando em números recordes em alguns municípios.

O professor de meteorologia Daniel Caetano, da Universidade Federal de Santa Maria, afirma que as ondas de calor consistem em um bloqueio atmosférico que acaba inibindo o avanço dos chamados sistemas frontais, que é quando a massa de ar frio se une à massa de ar quente e ocasiona as chuvas. Com isso, tem-se um quadro de chuvas espaçadas e irregularidades no estado.

Diante desse cenário, é de suma importância que as pessoas se atentem aos cuidados básicos em relação à saúde e bem-estar. O Ministério da saúde propõe algumas diretrizes para épocas de calor acentuado como aumentar a ingestão de água ou de sucos de frutas naturais, sem adição de açúcar, mesmo sem ter sede, além de evitar bebidas alcoólicas que possuam elevado teor de açúcar e fazer refeições leves, pouco condimentadas e em intervalos de tempo mais curtos durante o dia.

Fumaça densa sob Brasília no Distrito Federal Foto: Joédson Alves/Agência Brasil

Em um dos anos mais críticos para incêndios no Brasil, Santa Maria enfrentou as consequências de uma onda de queimadas recordes que já devastou uma área maior que o Japão e afetou a qualidade do ar, saúde pública e o bem-estar dos moradores.

2024 foium ano alarmante para o Brasil no que diz respeito a incêndios florestais. Com mais de 208 mil focos registrados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) até outubro, os incêndios ultrapassaram os números totais de 2023, afetando a Amazônia e o Pantanal. Segundo o Serviço de Monitoramento Atmosférico Copernicus, os incêndios liberaram 180 megatoneladas de carbono na atmosfera apenas entre janeiro e setembro. Esta onda de queimadas não se restringiu às regiões Norte e Centro-Oeste do país, pois sua fumaça densa foi transportada por correntes de ar até o Sul, atingindo cidades como Santa Maria, onde seus efeitos se tornaram evidentes.

Fumaça nos céus de Santa Maria

Céu ensolarado em Santa Maria após as fumaças. Foto: Cauã Fontoura/Labfem

Entre agosto e setembro, o estado chegou a ser classificado como “insalubre” pela agência IQAir. Para muitos moradores de Santa Maria, os efeitos das queimadas foram sentidos na própria respiração. A estudante de odontologia Maria Fernanda, 21 anos, relata o impacto direto em sua rotina. “Nos dias de fumaça intensa, evitei abrir as janelas do apartamento. Minha respiração ficou prejudicada, e, com rinite, foi ainda mais difícil. Tivemos semanas complicadas em que a fumaça encobriu o sol e tornou o ar quase insuportável,” conta. Ela reflete que os impactos atuais são reflexo da destruição causada pelo homem ao meio ambiente. “Precisamos agir com práticas mais sustentáveis; nossa intervenção na natureza precisa ser de cuidado, não de destruição,” completa.

Efeitos na Saúde Pública

Uso de máscara devido ao aumento das fumaças em Brasília. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

A situação em Santa Maria também se reflete nas estatísticas de saúde. De acordo com a secretária adjunta de Saúde, Ana Paula Seerig, setembro registrou um aumento significativo de atendimentos relacionados a problemas respiratórios, especialmente entre crianças. “Observamos uma procura maior por atendimento para sintomas como falta de ar, tosse e irritação nos olhos, embora não possamos associar diretamente as queixas à fumaça devido às mudanças climáticas sazonais,” explica. Ela destaca que, durante os dias mais críticos, a população foi orientada a evitar atividades ao ar livre, manter janelas fechadas e redobrar cuidados com hidratação e sintomas respiratórios, especialmente para crianças, idosos e pessoas com doenças respiratórias preexistentes.

O meteorologista Gustavo Verardo, da BaroClima Meteorologia, explica que as correntes de vento conhecidas como Jato de Baixos Níveis foram responsáveis por transportar a fumaça das queimadas até o Sul do Brasil. “Esses ventos fortes de Norte a Sul trazem consigo grandes quantidades de fumaça. Quanto maior a área devastada, maior a concentração de partículas no ar,” ressalta. Verardo comenta que a presença de fuligem e outros materiais particulados na atmosfera agrava a qualidade do ar e gera uma “cobertura” que bloqueia a radiação solar direta, mantendo o céu escurecido em diversas cidades da região.

“Esse fogo é criminoso”, diz Lula sobre incêndios pelo país

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) disse que as queimadas que atingiram o Brasil são resultado de ações criminosas. “Esse fogo é criminoso. É gente que está tentando colocar fogo para destruir esse país”, afirmou, ao citar que em um mesmo dia foram registrados incêndios em 45 cidades do estado de São Paulo. Lula também apontou que 85% das propriedades afetadas no Pantanal são particulares. O que, segundo ele, reforça a necessidade de uma resposta mais rigorosa às queimadas ilegais. As declarações foram dadas durante visita a municípios do Amazonas que sofrem com os efeitos da estiagem. Na ocasião, representantes do governo federal assinaram o edital para obras de dragagens de manutenção nos rios Amazonas e Solimões.

O Governo disponibilizou R$514 milhões em crédito extra para combate às queimadas na Amazônia, o BNDES ( Banco Nacional do Desenvolvimento) reforçou as medidas de contenção com mais de R$400 milhões. O montante foi utilizado para apoio aos Corpos de Bombeiros dos estados da Amazônia Legal para compra de equipamentos, materiais e viaturas. 

Algumas medidas tomadas pelo Governo Federal foram punições mais rigorosas (o governo revisará os valores das multas para infrações ambientais e introduziu novas modalidades de sanções). Penas mais duras para incêndio ambiental ( o ministro Rui Costa afirmou que o governo estuda equiparar a pena para incêndios florestais à de incêndios em áreas urbanas). Novo fundo para biomas e proteção às populações indígenas. 

Além de Lula,  a ministra do Meio Ambiente e Mudanças Climáticas, Marina Silva, o ministro das Relações Institucionais, Alexandre Padilha, e o chefe da Polícia Federal (PF), Andrei Rodrigues, também destacaram a possibilidade de ação criminosa para explicar as queimadas em todo Brasil.  “Tem uma situação atípica. Você começa a ter, em uma semana, praticamente em dois dias, vários municípios queimando ao mesmo tempo, e isso não faz parte da nossa curva de experiência na nossa trajetória de tantos anos de abordagem do fogo. No caso do Pantanal, a gente estava tendo ali a abertura de dez frentes de incêndios por semana. No caso da Amazônia, nós identificamos o mesmo fenômeno. E em São Paulo não é natural, em hipótese alguma, que em poucos dias você tenha tantas frentes de incêndio envolvendo concomitantemente vários municípios”, declarou Marina Silva em uma reunião com o presidente Lula, na sede do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama).

Orientações de Saúde e Prevenção

Para mitigar os efeitos da poluição decorrente das queimadas, o Conselho Federal de Química (CFQ) e especialistas em saúde recomendam medidas de proteção, como o uso de máscaras PFF2, especialmente eficazes para filtrar partículas finas e tóxicas. O CFQ também aconselha a instalação de purificadores de ar em ambientes fechados e a manutenção dos filtros do ar-condicionado. “Em áreas próximas às queimadas, a fumaça aumenta drasticamente a concentração de poluentes, o que impacta diretamente a saúde respiratória”, alerta o conselho no podcast “ QuinCast”, enviado à reportagem.
A professora de Enfermagem Liliane Alves Pereira reforça a importância dos cuidados com a saúde durante os períodos de alta poluição: “Evitar exposição ao ar livre, beber bastante água e manter ambientes fechados são atitudes cruciais para minimizar o impacto das queimadas na saúde.” Ela ainda alerta sobre o risco de asfixia e de agravamento de doenças respiratórias em indivíduos que já apresentam condições crônicas, como asma ou bronquite.

Confira dicas no infográfico


Fonte: Secretaria de saúde e Conselho Federal de Química (CFQ)
Produção própria

Dados do MapBiomas indicam que 70% da área queimada em 2024 era de vegetação nativa. Apenas em agosto, quase metade das queimadas do ano foi registrada, atingindo especialmente o cerrado e áreas de pastagens. Os incêndios, além de liberarem carbono na atmosfera, ameaçam ecossistemas inteiros e afetam a biodiversidade. Como muitos em Santa Maria podem observar, as queimadas deixaram de ser um problema apenas das regiões afetadas e se tornaram uma questão de saúde e de conscientização coletiva.

Loidemar Luiz Bressan, professor de Filosofia na Universidade Franciscana (UFN), analisa as queimadas como uma responsabilidade coletiva e uma crise ética sobre como tratamos o meio ambiente. “O antropocentrismo e o desejo de domínio sobre a natureza têm provocado um desequilíbrio com consequências graves. Este impacto é sentido por todos os brasileiros e afeta todas as formas de vida, não apenas no presente, mas também nas gerações futuras,” comenta. O professor sugere que cada pessoa pode e deve contribuir para reverter este cenário, adotando um estilo de vida mais sustentável e incentivando outros a fazer o mesmo.

Veja a seguir o debate sobre o impacto das queimadas na saúde no brasileiro.

Reportagem produzida por Laura Pedroso, Rian Lacerda, Luiza Fantinel e Karina Fontes na disciplina de Narrativa Multimídia, no 2º semestre de 2024, sob orientação da professora Glaíse Bohrer Palma.