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Por motivo de segurança, usamos pseudônimos nas matérias Foto: Vitória Gonçalves

“Tenho minha faca nos pés e meu facão lá atrás. Não tem como andar com arma de fogo, apesar de saber manusear e ter anos de prática, acho mais arriscado”, desabafa Ricardo*. Nunca parar no exato endereço sinalizado, sempre uma ou duas casas antes e não trabalhar de madrugada. Essas são só algumas precauções que o motorista de aplicativo toma na sua rotina nas ruas de Santa Maria.”

Possivelmente essa seja a realidade dos cerca de 900 mil motoristas de aplicativo no Brasil segundo pesquisa de 2021, da Universidade Federal do Paraná (UFPR), o que equivale a 8 Maracanãs lotados. Do outro lado da moeda, existem aqueles que fazem parte de redes de proteção, grupos de pessoas que se unem com objetivo de manter a segurança.  Um exemplo disso é o grupo Família Madruga, criada em março de 2020 por Nelson*. E ele mesmo explica como foi fundação dessa rede de proteção:

Entrevista realizada com motorista de aplicativo (Madruga):

Mesmo sendo minoria no ramo, Caren* afirma que nunca teve problema algum. “Não tem preconceito, é incrível. 99, Uber e Madruga eu só dirijo para o público feminino, optei de um tempo pra cá, não por ter acontecido alguma coisa, só por um conforto maior. Nunca senti diferença”. Apesar dessa tranquilidade, ela conta que raramente acontecem alguns incômodos, mas sempre a ajuda da Família Madruga aparece. “Já houve casos de pegar passageiros em final de festa e não querer pagar, quer prevalecer, esse tipo de coisa, aí entra a ajuda dos meninos”, ressalta.

 

Entre esses 164 motoristas, todos são selecionados a dedo pelos administradores do grupo. As regras são impostas a todos antes de aceitarem participar de uma Família e ser monitorado a todo momento que estiver trabalhando.

 

Com o lema JUNTOS, SOMOS MAIS FORTES e com regras disciplinares rígidas é que o Madruga se sustenta e consegue manter a fidelidade tanto dos usuários quanto dos motoristas. No início haverá um período de teste de 15 dias, onde você utilizará o #FAMÍLIAMADRUGA no carro. Após esse período, se você cumprir as regras, receberá o adesivo oficial. O fato de não obedecer às regras ou dependendo da gravidade do evento, o membro será chamado para conversa e recebe uma advertência, na terceira chamada é retirado do grupo.

Ainda se destaca o zelo dos gestores em manter a qualidade do relacionamento com o cliente e buscar atender corridas com rotas incomuns. Dessa forma exigem que participem de eventos sociais e confraternizações do grupo, usar o Zello (software de comunicação com linguagem de rádio) apenas para comunicar corridas suspeitas e não avisar sobre BLITZ no ZELLO e nem no grupo.

Ainda há regras sobre publicações dentro do grupo que proíbem sobre quaisquer posicionamentos: pornografia, política, futebol, defender plataformas, religião, preconceitos (homofobia, etc.), usar a imagem do grupo em vão, criar grupos paralelos (Zello, WhatsApp, etc, com a finalidade de monitoramento, rastreamento, etc) ou qualquer outro fim, que possa ser caracterizado como um subgrupo dentro do Família Madruga e não discutir no grupo.

Se acostumar com o monitoramento não é uma tarefa fácil, Caren* é responsável pela contratação e demissão do grupo, como sempre esteve presentes em empresas, se sente à vontade desempenhando essa função. “O meu material carrego dentro do carro, tenho minha agenda, minhas anotações, tenho meus adesivos, quando eu vejo algum carro desbotando o adesivo, já tiro a foto e entro em contato para arrumar. Tenho todo suporte dentro do meu carro e entre uma corrida e outra vou me organizando na agenda”, assim a motorista conecta o seu passado com o presente. 

O dia a dia

Imagem: Freepik

“Já Ricardo* desempenha apenas uma função, a de motorista. E por levar a risca sua rotina, está acima de 90% de seus companheiros de trabalho, segundo relatório enviado pelo próprio aplicativo da 99. “Só tenho três segredos: levantar cedo, tomar banho e ir trabalhar”. 

Como os outros do ramo, ele também tem uma meta para cumprir no seu dia a dia e segue o pensamento de aceitar todas as corridas.

““No 99, quando começa a cancelar corridas, parece que eles começam a te deixar meio de lado. O motorista nunca perde, é um real que tu não tem”, afirma.

A famosa ‘meta’ é o que norteia a maioria dos trabalhadores desse ramo. Nelson* explica que foi por isso que mudou completamente sua vida. Em 2003, era dono de uma construtora na cidade de Canoas, cobrava R$750,00 o m², porém com a instabilidade econômica do Brasil, o valor foi caindo até R$450,00 em 2015. Para fins de parâmetros econômicos, a inflação do país saltou de 6,41% em 2014 para 10,67% em 2015. Foi assim que, em 2017, com esse desbalance fiscal, que resolveu migrar para a área de transporte de passageiros com uso de aplicativo de mobilidade que, na época, estava em crescimento exponencial. Ironizado por um amigo que no momento estava lucrando, ele foi incentivado a se aventurar nessa nova jornada. “Vou me reinventar. No primeiro dia tirei R$380″, afirma. A partir daí, desse primeiro ganho, viu a possibilidade de ganhar mais do que no seu antigo trabalho e está até hoje no ramo. Atualmente, a meta de Nelson é de R$350,00 por dia: “Eu corro até atingir minha meta, se for 23h, 00h. Se eu atingir às 2h, vou para casa, durmo e 6h estou de pé de novo”, explica. Além de metas diárias, o motorista também lida com uma meta mensal de R$4.500, “É o que considero saudável para mim”.

O valor de R$ 350,00 diário parece ser a meta buscada entre a maioria. Com Ricardo* também é assim. Ele explica que o motorista que trabalha com vontade, atinge a meta sempre e que quando o movimento está bom sempre é válido continuar trabalhando. Assim é que Ricardo* lucra de R$6.000 até R$7.000 no mês. “Quando eu vou receber o que ganho trabalhando no 99, trabalhando num serviço fixo, não tem. Já trabalhei na Prosegur, transporte de valor e não ganhava a mesma coisa, é bem mais estressante, fora o risco que a gente corre”, destaca.

Nem tudo são flores

Era por volta das 05h30 da manhã enquanto José* dirigia seu Onix prata, em mais um dia de trabalho. Sua profissão? Ele era motorista de aplicativo. José descia a Avenida Presidente Vargas para levar um passageiro aqui, subia a Borges de Medeiros para levar outro passageiro ali, um fim de noite e começo de manhã calmo e pouco movimentado. Até que surge mais uma corrida no monitor do seu celular. O aplicativo da 99 indicava que aquela corrida era de risco, então José*, prontamente pegou o celular, e colocou para gravar aquele trajeto. O celular estava apoiado no suporte para GPS e estava apontado para dentro do carro, dando a visão de toda a parte interna do veículo. O motorista, então, se dirige para o local indicado com uma certa insegurança, porém segue normalmente, ele já tinha feito esse tipo de corrida outras vezes e era um homem experiente. Ele chega no local indicado, e aguarda o passageiro chegar. Após alguns minutos de espera, tendo somente sua rádio para lhe fazer companhia, o passageiro entra e eles seguem para o lugar indicado. O passageiro se chama Alexandre*, de 27 anos, que na ocasião em específico, se encontrava um pouco alterado. Eles então seguem para o endereço, e o homem vai guiando o motorista pelo caminho. Ele fala de maneira alta e com muitas gírias na sua linguagem. Eles então pararam na casa de um amigo desse homem. O jovem coloca a parte do corpo para fora da janela do carro e começa a gritar o nome do amigo. Um tempo depois ele entra no carro, e os três seguem viagem para mais um destino.

Na viagem o homem conversa com seu amigo e ao mesmo tempo com José*. Ele está falando sobre sua história, até que menciona um fato que deixa José* com uma insegurança maior ainda. Ele tinha saído há duas semanas da prisão. Seu crime? Quatro homicídios. O rapaz começa a falar da sua vida na cadeia e como se arrependia de ter vivido tudo isso. Ele tinha passado três anos atrás das grades e havia perdido toda sua família. Ele confessa que o seu primeiro homicídio foi por um homem ter o chamado de “filha da puta”. Por mais que ele demonstrasse arrependimento pelos anos que passou na prisão, sentia um certo orgulho ao comentar sobre as mortes. José*, sentia que o arrependimento do rapaz não era por ter cometido os crimes, mas sim por ter sido pego. O carro para e o homem sai permanecendo somente o seu amigo. José aproveita a brecha para perguntar se eram verdadeiras aquelas informações. O amigo confirma , mas indica que o homem é tranquilo. Ele então cansado de esperar Alexandre, sai do carro e vai buscar ao encontro do amigo. 

José* fica alguns bons minutos esperando os dois com o motor do seu carro ainda ligado. Então subitamente Alexandre entra no carro extremamente revoltado. Aparentemente, ele havia sido enganado em um esquema que o fez perder dinheiro. O homem grita e demonstra sua completa insatisfação desferindo insultos e ataques verbais a quem quer que os ouça. Ele então faz uma ligação extremamente agressiva para um ex-companheiro de negócios. Na ligação, ele cobra uma dívida o insultando e ameaçando de morte. Alexandre, diz que o ex-companheiro precisa pagar a dívida e se não o fizer, ele vai na casa matar o próprio, sua mãe e filhos. Alexandre*, revoltado, diz a todo tempo que não tem nada a perder e que se precisar voltar para prisão. José* se sente completamente inseguro e aflito, pois nunca tinha passado por uma situação dessas. José* segue dirigindo calado, pois não quer causar nenhum movimento brusco que possa fazer o homem se revoltar contra ele próprio. Nesse momento, José* só pensa em voltar em segurança para sua mulher e filhos. A noite está fria mas o Motorista está suando e totalmente alerta, sabe que um leve descuido pode custar sua vida. Alexandre*, no auge da sua raiva grita o no telefone e diz: “O QUE? O QUE TU FALOU?”. Ele desliga o telefone completamente transtornado e obriga José* a encostar o carro. José* está confuso e não sabe como reagir. Alexandre*, começa a gritar e insistir cada vez mais para que o motorista encoste o carro. Ele então o ameaça dizendo que vai o matar caso não pare. Ele está muito seguro disso e não tem nada a perder. “PARA O CARRO, PORRA! OU EU VOU TE MATAR”. Ele então encostou a pistola no ombro de José e ele para imediatamente. Ele obriga o motorista a descer do carro o xingando e ameaçando. José* antes de descer do carro, pega o celular que estava gravando toda a corrida. Mas Alexandre*, arranca de sua mão e entra no carro, que agora é seu veículo de para cumprir sua missão.

 José* se encontra totalmente devastado, seu carro e todos seus pertences foram subitamente tirados de de suas mãos, mas o que Alexandre* não sabia é que José*, no último momento antes de sair do carro em ato de pura coragem, conseguiu retirar a chave da ignição e levar consigo. O carro de José, possui um sistema chamado keyless, onde o carro só funciona com a chave próxima ao veículo. Então Alexandre*, foge com o carro, mas não vai muito longe. No carro, ele fica sem entender e completamente transtornado, sai do veículo e começa a vasculhar os pertences de José*.

 Após escutarem que seu companheiro estava passando por perigo extremo, a rede de proteção da família Madruga foi ativada. A corrida já estava sendo monitorada e os administradores do grupo estavam escutando tudo que o que estava sendo falado na corrida. Imediatamente, com o sinal de alteração do passageiro, o grupo encaminhou veículos para prestar suporte a José. O primeiro que chegou no local foi Rodrigo*, que avistou Alexandre* procurando qualquer coisa que pudesse levar consigo. Então então grita “esse carro é do meu colega!” e instintivamente parte para cima do homem. Ele consegue derrubar Alexandre* e tentar imobilizá-lo, porém, o homem consegue fugir deixando tudo para trás, inclusive o seu próprio celular. Após isso, Rodrigo* foi procurar José* e o encontrou a duas quadras de distância onde estava escondido. José* estava claramente abatido e sem reação. Foi para casa, tomou um banho demorado e ficou pensando em tudo o que tinha passado. José* levou algumas semanas para superar o que tinha vivido e voltar a normalidade, mas quando se passa por um trauma desses, o medo nunca é totalmente superado.

Mesmo com a convivência com o risco e o perigo diariamente, para a maioria dos motoristas de aplicativo de Santa Maria, o maior problema não são os assaltos e o medo de não voltar para casa, mas sim o trânsito. Ricardo* diz que o maior risco não é trabalhar de madrugada e os passageiros: “Eu já dirigi daqui até Fortaleza e voltei, deu 15.700km, passando por várias cidades. O trânsito de Santa Maria é o pior”.

Caren* segue o mesmo pensamento e destaca que, por conta disso, é necessário sempre cuidar do mental, ter controle de si e ainda saber a hora de parar. “O nosso trânsito é bem complicado. É bem cansativo realmente, mas quando tu vê que não tá legal, que tu tá muito estressado, é bom ir pra casa dar uma descansada”, complementa.

 

Trabalhar diariamente como motorista de aplicativo pode gerar alguns riscos, como vimos  no caso de José*. O motorista está exposto e sempre está sujeito a sofrer algum tipo de violência. Porém em alguns casos esse fato sofrer exceções, Nelson* explica que depois de um certo tempo os Madrugas passaram a ganhar um certo respeito nos bairros perigosos da cidade: “Às vezes pedem corrida na Cipriano, por exemplo, e os motoristas não vão. Nós vamos. Porquê às vezes é uma mãe de família que está querendo sair com seu filho ou uma pessoa doente que está querendo ir para o hospital. Então os traficantes enxergaram isso como um “serviço prestado à comunidade”. Então toda vez que veem o adesivo da empresa eles pensam “Madruga não”, explica.

 

A rede de proteção pode ser um prato cheio para motoristas que querem transgredir as leis, visto que estarão assegurados por um monitoramento em tempo real, dando total segurança para cometer seus crimes. Porém, Nelson* explica que estão sempre monitorando qualquer atitude ou rota suspeita. “Não aceitamos qualquer tipo de envolvimento com drogas. Já denunciamos dois motoristas que foram presos por envolvimento com drogas “, explica. Esse monitoramento se dá através de analisar as rotas do motorista e verificar se existe algum tipo de padrão. Havendo a suspeita de algum tipo de atividade ilícita isso é investigado a fundo e passado para a polícia. Nelson* explica “nós temos uma relação excelente com a polícia. Se identificarmos qualquer atitude suspeita de um motorista nosso, nós entregamos a placa do carro”, conclui. 

 

 

 

 

Mais um ponto que tem feito parte da rotina dos motoristas de aplicativo ultimamente, é a discussão sobre direitos trabalhistas. Em setembro de 2021, o senador Acir Gurgacz (PDT-RO) apresentou um projeto de lei que classifica os motoristas de aplicativo como trabalho intermitente, ou seja, a prestação de serviço de forma esporádica e que deve ser regulado pela Consolidação das Leis do Trabalho (CLT). Porém, é necessário saber o que os próprios motoristas de aplicativo pensam sobre isso.

Caren* explica que a situação tem que ser bem analisada: “Pelo menos pra mim do jeito que está, está bom, porque dentro disso tem que ver imposto. 99 e tal são corridas de valores bem baixos, então para alcançar um valor X tem que fazer muitas corridas no dia, aí se tu for pagar um valor X alto, não vale a pena”. A motorista conta que utiliza o MEI (Microempreendedor Individual), o que fornece um salário mínimo. “Praticamente não é nada, mas dá pra comer. Todo mundo corre atrás de salário, as pessoas trabalham de 12 a 15h para fazer seu salário”, desabafa.

 

Para Ricardo* ainda existem mais dúvidas que certezas com essa questão: “Como vai ser feito uma análise em cima desse salário? Como vai ser feito esse trabalho pra ver quanto  será o salário? Porque o cara vai trabalhar 5h e eu vou trabalhar 12h e vai ganhar a mesma coisa que eu. Eu acho complicado.”

Reportagem produzida na disciplina de Jornalismo Investigativo, no 2ºsemestre de 2022,  sob orientação da professora Glaíse Bohrer Palma.

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Vivência e resistência de pessoas trans em Santa Maria

Relatos de mulheres e homens trans a partir de suas narrativas.

Marquita segurando a bandeira trans, símbolo que representa a comunidade transgênero. Foto: Heloisa Helena.

“Eu digo que a gente foi uma geração muito resistente porque viemos de um estigma de preconceito muito grande em cima da nossa população, por causa de uma doença. Nós sobrevivemos a tudo aquilo e estamos aqui”

Era outono do ano de 1967 quando veio ao mundo um menino, julgado por seu sexo biológico. Aos 17 anos começou o processo de se reconhecer como uma pessoa trans, termo que era pouco utilizado naquela época, pois usavam a palavra travesti como definição. Assim surge Marquita Quevedo, no ano de 1985, em plena pandemia de HIV/AIDS no Brasil, em um ambiente cheio de preconceito contra a população LGBTQIA+ e desinformação sobre a doença.

Ela relata a discriminação que sofreu nos anos 1980 por conta da epidemia, era agredida, xingada e expulsa de bares. “Era muito real na nossa cidade, em pleno Calçadão tinha uns espaços que quando a gente passava ouvia gritos ‘olha a AIDS’, ‘vocês estão matando a população’.” Porém, esse não foi o primeiro preconceito em sua trajetória.

Somente há quatro anos o Ministério dos Direitos Humanos retirou a transexualidade da lista de doenças ou distúrbios mentais. Em agosto de 2018, a Organização Mundial da Saúde publicou a 11ª edição do CID (Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde), que deixou de incluir o chamado “transtorno de identidade sexual” ou “transtorno de identidade de gênero”. Desde 1952 a população trans era considerada portadora de distúrbios mentais, reforçando o estereótipo de que eram doentes.

Aos 15 anos, Cilene deu o grito de liberdade. Se reconheceu como mulher, feminina e delicada. Na infância foi apelidada de “sorriso”, o sorriso largo estava quase sempre presente em sua trajetória. Mas, aos 11 anos, seu sorriso desmanchou ao ser abusada na escola. Após ser descoberta, através de uma carta contendo uma declaração de amor para um colega de sala de aula em um colégio apenas de meninos, Cilene foi encaminhada ao psicólogo.

“Na sala dele eu tirava toda a minha roupa e ele tocava nas minhas partes íntimas. Na segunda sessão foi piorando, embora eu sentia dor, na época eu imaginava que fazia parte do tratamento. Na terceira sessão, eu parei de ir e acredito que ele iria concluir o ato.”

E nessa travessia perigosa que é a vida, Cilene começou sua caminhada em busca de ser quem realmente desejava. “Eu tenho muitos motivos para ser uma pessoa revoltada e agressiva, porque só a gente sabe o que carregamos nessa vivência toda”.

Cilene menciona uma das suas principais marcas de resistência:

Cilene Rossi trabalha como assessora parlamentar no Legislativo de Santa Maria gerando representatividade para o público trans em espaços políticos. Foto: Vitória Gonçalves.
Cilene Rossi trabalha como assessora parlamentar no Legislativo de Santa Maria gerando representatividade para o público trans em espaços políticos. Foto: Vitória Gonçalves.

É sobre o caminho difícil que Cilene fala. É sobre um caminho de perdas e abandonos. De pedras e espinhos. De preconceito e discriminação. De luta e resistência. Mesmo diante de todos os desafios, Cilene não se recolheu em si mesma. E procurando compreender o que havia nela que tanto incomodava os outros, foi construindo para si a história de sua vida.

Viver no país que mais mata travestis e transexuais é um ato de resistência. O Brasil lidera o ranking mundial de mortes por transfobia, de acordo com a ONG Transgender Europe (TGEU). Os dados são alarmantes. Segundo o dossiê anual da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), em 2021, 140 pessoas trans foram assassinadas no país, sem contabilizar os demais atos de violência física e moral. 140 vidas, 140 histórias interrompidas. A idade média das vítimas foi de 29 anos. “Nossa maior vingança será envelhecer. Qualquer travesti que passe dos 35 anos estará se vingando desse CIS-tema” – Keila Simpson Presidenta da Antra.

Cisgênero é o indivíduo que se identifica com o sexo biológico com o qual nasceu.

Gráfico produzido a partir dos dados do dossiê anual da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra) divulgado em 2021. Produzido por Vitória Gonçalves.
Gráfico produzido a partir dos dados do dossiê anual da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra) divulgado em 2021. Produzido por Vitória Gonçalves.

No começo do século 21 surgiram entidades nacionais como a Articulação Nacional de Travestis, Transexuais e Transgêneros (Antra), a Rede Trans e o Instituto Brasileiro de Transmasculinidades, com o propósito de falar sobre questões relacionadas a população tras e gerar visibilidade. Entretanto, descobrir-se neste cenário ainda possui dificuldades.

“Eu sou uma mulher trans, mas é nítido que a maioria nem me considera mulher”. Descobrir-se diferente. Reconhecer-se. Autoproclamar-se. Assumir-se enquanto mulher trans exigiu de Davina Kurkowski todo um processo de negociação, consigo mesma e com o mundo externo. “Pelo fato de eu ser transsexual, a maioria dos homens acham que eu sou alvo de sexo fácil. Já fui assediada várias vezes em Santa Maria, na rua, indo para o cursinho, quando estava trabalhando. Era algo que acontecia quase todos os dias.”

Davina relata como as pessoas reagem de forma preconceituosa ao vê-la na rua:

Sem contar com qualquer respaldo social, mulheres como Davina estão desprotegidas e se tornam extremamente vulneráveis a múltiplas formas de assédio e ataque, sendo radicalmente privadas de direitos. Neste momento, a jovem se depara com a bruta realidade de uma mulher trans na sociedade. O desconforto em utilizar o banheiro feminino do shopping, olhares que transmitem medo, nojo e ódio acompanham Davina no seu cotidiano.

“Escutei vários comentários, uma vez me chamaram de traveco. No começo da transição eu não me sentia confortável para usar vestido e saia em público mas, pela primeira vez, devido ao verão e ao calor, coloquei um vestido. Estava voltando do shopping com duas amigas, eu me sentia ótima e  quando estávamos passando pelo calçadão, aquele homem que está sempre cantando música gospel e gritando com as pessoas começou a gritar olhando pra mim ‘porque vocês adoram o diabo’.”

Quando se fala em homens trans há pouco levantamento aprofundado no país sobre a população masculina, o reconhecimento das identidades de gênero desses sujeitos, a invisibilidade social e política enfrentada por eles, bem como as várias formas de violência que os atingem diariamente.

“Eu posso não ter passado nenhum confronto físico, nem moral, mas é bem humilhante e degradante não ter acesso a um direito básico. É de certa forma violento na vivência”. Cauã de Bairros tem apenas 21 anos, mas já possui uma grande bagagem de experiências e vivências. Aos 17 anos deu adeus ao gênero feminino, rótulo que foi imposto a ele ao nascer, mas que nunca o pertenceu. O direito básico a que o jovem se refere é ser reconhecido pelo nome social na documentação.

 

Cauã atualmente cursa música na UFSM e faz parte da equipe da Casa Verônica Foto Cauã - Arquivo pessoal.
Cauã atualmente cursa música na UFSM e faz parte da equipe da Casa Verônica Foto Cauã - Arquivo pessoal.

No ano de 2019 ele era calouro, no curso de licenciatura em Teatro na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) e ainda não tinha modificado o nome na certidão de nascimento e RG. “Na época ainda não tinha uma política facilitada para o nome social. A maior burocracia era o nome, porque as pessoas olhavam o nome social e achavam que era enfeite. Pra mim isso foi o pior, questão do nome na carteira do Restaurante Universitário (RU), portal do aluno, matrícula e carteira de ônibus”.

O jovem conseguiu fazer a retificação do nome por conta de uma lei  (Provimento n° 73 de 2018) instaurada no ano de 2018, que facilitou o processo ao retirar a obrigatoriedade do requerimento de laudos médicos para alteração. Atualmente, para mudar basta a autodeterminação da pessoa interessada em modificar o nome. “Pensa que desagradável ter que pedir para um médico olhar teu corpo e atestar aquilo, para você poder ter acesso ao nome básico. É só teu nome”. Felizmente Cauã não precisou passar pela consulta médica graças a alteração da lei.

Alguns direitos e o acesso a eles tem evoluído ao longo dos anos, mas o preconceito persiste intrínseco na sociedade como mencionado nos relatos de quem convive diariamente com essa realidade.

O desafio no mercado de trabalho

A realidade das pessoas trans em busca da sua independência financeira

“A falta de oportunidade e de inclusão me fez trabalhar na noite. Eu não vou dizer que todas estão na noite por necessidade, mas 95% sim […] Hoje o público trans tem muitas oportunidades, por conta de quem esteve na linha de frente batalhando pelo público LGBT.” 

A noite muitas vezes não tem regra, não tem leis, não tem descanso. Mas não para Cilene, que optou por ter disciplina nos 15 anos que viveu a rotina do trabalho na prostituição. Conheceu todas as drogas na noite – ou quase todas. Mas se considera abençoada de não ter se viciado em nenhuma delas.

“Esses 15 anos para mim era um trabalho. Do qual, eu tinha horário para chegar na rua e horário para ir embora, e final de semana eu não trabalhava. O corpo precisa descansar e a alma também. Porque você sobrecarrega”

Ao falar sobre as marcas que a compõem, sobre as experiências que vivenciou, sobre a sua vida, a sua história, a sua luta, Cilene relatou as agressões, os assédios e a conquista pelo território. No mundo da prostituição, toda esquina é conquistada, assim como os clientes.

“Muitas vezes a gente apanha mas a gente revida para apanhar com dignidade. Tu não aceitou quieta, tu lutou também. Perdeu, infelizmente perdeu. Mas no mundo da noite, tu só conquista seu espaço assim, apanhando e voltando, apanhando e voltando, uma hora desistem e te permitem ficar”

De acordo com Cilene, o mundo da noite envolve muitos gritos e xingamentos. E o desejo de estar em cima de um salto alto, muitas vezes se torna um pesadelo. Há noites em que não é escolhida e noites em que o corpo implora por descanso. Quando jovem, sempre contribuiu em casa, apesar das tentações de um mundo perverso, seu objetivo sempre foi o mesmo.

“Eu nunca joguei meu dinheiro fora, sempre ajudei meus sobrinhos. Geralmente a mulher trans que trabalha na noite, elas estão vulneráveis ao álcool e a droga, uma coisa leva a outra.”

Depois de vivenciar muitos mundos, conhecer seus próprios abismos e reencontrar-se consigo mesma diversas vezes nesse caminho, uma oportunidade de emprego surgiu na Estação Rodoviária de Santa Maria contribuindo com a sua construção.

“Eu se pudesse aparecer de forma mais feminina, ótimo. Mas não é privilégio de muitas. Cilene Rossi foi toda uma construção. Antigamente as condições eram precárias, algumas já tinham sorte de nascer bonitas, conseguir clientes à noite. Chamávamos na rua de “bater portinhas”. Atualmente, Cilene tem 51 anos e exerce a profissão de assessora parlamentar da vereadora Marina Callegaro (PT). Com seu trabalho, auxiliou 23 mulheres trans a fazerem a troca do nome social. Considera esse passo como um empoderamento para que pessoas como ela se reconheçam como cidadãs e como desejam ser reconhecidas.

Definitivamente, a inclusão de pessoas trans no mercado de trabalho ainda é um desafio. Mas, como conta Marquita, a área da beleza era uma alternativa para pessoas trans trabalharem, pois o local se mostrava parcialmente receptivo a essa população.“Eu digo que a minha profissão era ser cabeleireira.  Até alguns anos atrás era a profissão onde a gente se encontrava e não tinha preconceito, a gente era aceita no meio do salão”, relembra. Atualmente, Marquita trabalha com a produção cultural de eventos em Santa Maria.

Tentar se colocar no mercado de trabalho sendo uma pessoa trans pode resultar em cicatrizes profundas e desgastes emocionais. No final de 2019, logo antes da pandemia do coronavírus, Cauã estava procurando emprego, mas não havia resultados. Nas experiências para conquistar algumas vagas, houve muitos questionamentos desnecessários e nem um pouco profissionais dos colegas da empresa.

“Fiz o teste de uma semana em uma sorveteria. A moça que estava me treinando começou a me perguntar por que eu tinha cabelo comprido, se eu era gay, se eu ‘dava’, coisas bem íntimas que não tem nada a ver com o espaço de trabalho e, por causa do meu cabelo comprido, ela achou que eu era gay e ela tinha essa permissão.”

Davina também se deparou com dificuldades ao buscar por empregos. Antes da transição, ela conseguiu uma oportunidade de estágio, mas quando terminou o ensino médio, o estágio foi cancelado. De acordo com a jovem, após trocar seu nome social e começar a fazer currículo como Davina, as entrevistas de emprego nunca mais surgiram. Até o momento, seu único trabalho depois da transição foi como babá e como modelo.

Essa realidade reflete a dificuldade desse público ao tentar ingressar no mercado de trabalho. Muitas vezes não avançam sequer nos processos seletivos e não são contratados apenas por serem quem são.

As adversidades no dia a dia de pessoas trans

O impacto do preconceito na vida da comunidade T

“O momento que sofri o primeiro preconceito foi dentro da família e aí tive que me tornar forte”

Como acontece com a grande maioria das mulheres e homens trans, Marquita não teve apoio da família. A exclusão familiar ocorreu quando tinha apenas 14 anos, foi expulsa de casa e mudou de cidade para morar com um tio, após dois anos retornou para Santa Maria apenas com a roupa do corpo. Sem lugar para morar e família para acolhê-la, dormiu nas ruas da cidade e foi amparada pelos iguais a ela.

Marquita comenta como era o preconceito na década de 80:

Na trajetória de Davina, seu pai se tornou um dos primeiros desafios preconceituosos que ela enfrentaria. Na busca por tentar encontrar uma explicação para os seus sentimentos, resolveu assumir-se, a princípio, como um homem homossexual para a família, iniciando um processo de negociação entre a sua identidade e a aceitação dos outros. Após Davina e sua mãe saírem de casa na pandemia da covid-19, a jovem começou a refletir e descobriu que haveria uma (des)construção em sua vida. No final de 2020, Davina nasceu e a relação com o pai ficou em pedaços.

Cauã, por sua vez, teve o apoio da mãe desde o começo da transição, tanto emocional quanto financeiro. Por mais que fosse difícil, ela estava sempre presente para apoiá-lo. Porém, por parte do pai houve, no início, uma certa rejeição e dificuldade durante o primeiro ano de transição. Seus avós paternos optaram por cortar relações e nunca mais falaram com o neto. Alguns familiares mais próximos de Cauã se mantiveram em sua vida, pessoas que ele chama de parceria.

“Infelizmente grande parte das mulheres trans encontram o preconceito dentro da família. Muitas são expulsas de casa, pela própria mãe ou pelo pai, geralmente pelo pai. Tem mães que também não aceitam, porque esperavam um homem que casasse e tivesse filhos. Mas também tem muitas mães que abraçaram a causa junto aos filhos, eu acho isso lindo” – Cilene

Cilene costuma dizer que foi abençoada por ter sido acolhida pela família, apesar de ter sido uma construção. Foi criada em um meio onde predominava o amor e o respeito. O pai era militar, no começo foi difícil a aceitação e compreensão, mas com a convivência ele a aceitou, embora não a chamasse de Cilene. “Ele nunca me chamou pelo nome social, e eu não esperaria isso de um homem de 80 anos”. Cilene sempre colocou a família em primeiro lugar e amou-os de forma incondicional. Infelizmente, seus pais já faleceram, mas ela recorda carinhosamente dos dois e segue a vida pregando os ensinamentos de amor e respeito que ambos a ensinaram.

Passabilidade: a influência da aparência na vida de pessoas trans

Cilene fala sobre sua história com muita leveza e humor, assim como compartilha a sua vida de uma forma muito sincera, aberta e acolhedora. Apesar de ser designada ao gênero masculino ao nascer, sempre lutou pela existência da mulher que vivia dentro de si, sem perder o humor, a graça e a alegria.

De acordo com a revista Veja, aproximadamente 70% das mulheres trans se submetem a cirurgia de redesignação sexual e apenas 35% dos homens trans procuram pela cirurgia genital. Segundo a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), as filas de acesso para a redesignação sexual superam os dez anos de espera, atualmente.

Mas apesar do índice ultrapassar a metade da população trans feminina, algumas mulheres optam por não realizá-la e se consideram satisfeitas com seu corpo. Este é o caso da Cilene, embora a aparência feminina, o cabelo longo, os seios fartos, a maquiagem, façam parte da sua personalidade. Cilene nunca cogitou realizar a cirurgia de redesignação sexual.

“Estou satisfeita com meu corpo, não pretendo me mutilar, nunca tive a idéia de cirurgia. Respeito aquelas que não aceitam o órgão, mas eu me aceito perfeitamente”.

Apesar da cirurgia ser considerada uma afirmação de gênero pela revista Veja, a mudança na forma de se vestir, de se comportar ou até mesmo de se montar, passou a ser a principal necessidade de mulheres que se descobriram trans, logo, quanto mais feminina, mais mulher aos olhos da sociedade.

Cilene participou, em 2019, da Parada do Orgulho LGBT Alternativa organizada pelo Coletivo Voe apresentando uma de suas performances - Foto: Vitória Gonçalves.
Cilene participou, em 2019, da Parada do Orgulho LGBT Alternativa organizada pelo Coletivo Voe apresentando uma de suas performances - Foto: Vitória Gonçalves.

No “processo da Marquita”, como ela mesma chama, começou a se montar, passar maquiagem e usar roupas femininas. Em suas próprias palavras, essa construção vem muito da heteronormatividade. “Tem que ter peito, tem que ter cabelo comprido, tem que ter uma passabilidade para poder estar inserida na sociedade e no mercado de trabalho. Independente da aparência estética que se tem, a identidade de gênero é uma coisa e a aparência é outra coisa. Em uma sociedade que julga as pessoas pelo órgão genital, isso tem de ser repensado.”

Atualmente, Marquita é uma ativista da causa LGBTQIA+ e coordenadora do ONG Igualdade - Foto: Vitória Gonçalves.
Atualmente, Marquita é uma ativista da causa LGBTQIA+ e coordenadora do ONG Igualdade - Foto: Vitória Gonçalves.

“É um processo de auto-aceitação, olhar o seu corpo e se aceitar, isso tem uma pressão muito grande. Afeta a autoestima e saúde mental da nossa população. A saúde mental é muito debilitada, por todo esse processo da pressão, da transfobia e lgbtfobia.” – Marquita

Assim como Marquita e Cilene, apesar de terem vivido as experiências em épocas diferentes, Davina também sentiu uma pressão estética ao se assumir como mulher trans. “[…] no começo eu sentia muita pressão estética, de me parecer com uma mulher cis. Sentia essa necessidade de vestir coisas femininas e me esforçar ao máximo para ter essa aparência delicada […]”.

Davina considerava seu corpo fora do padrão e vivenciou um período difícil e delicado, onde foi necessário uma constante luta por reconhecimento e aceitação. A jovem sentia muita disforia pelo próprio corpo, se sentia desconfortável com sua altura, seus ombros largos e suas mãos grossas. O verão era um incômodo, suas veias das mãos ficavam nítidas, mais um motivo para despertar a sua frustração.

Foi complicado, no começo foi bem difícil. Eu sentia mesmo essa pressão, mas não sei se a pressão vinha das pessoas ou eu me pressionava, acredito que eu mesma. Agora eu sei que não precisa, eu aceito meu corpo, sinto falta de alguma coisa as vezes, me incomoda bastante ter pelo no rosto, odeio ter pelo no rosto, é o que mais me incomoda na verdade.”

Davina em um dos seus trabalhos como modelo no desfile do curso de moda da UFN - Foto: Arquivo Pessoal.
Davina em um dos seus trabalhos como modelo no desfile do curso de moda da UFN - Foto: Arquivo Pessoal.

Quando Davina iniciou a transição, ela tinha como prioridade fazer terapia hormonal, mas agora não vê mais necessidade de tomar hormônio, pois gosta bastante do seu corpo. Porém, pretende avaliar na terapia com uma psicóloga e decidir se realmente quer ou não começar o processo de hormonização.

A pressão estética não atinge só as mulheres trans, mas os homens trans também se deparam com essa realidade, e foi uma das questões para Cauã. Em 2019, quando retificou o nome, sua aparência era diferente, tinha os cabelos compridos, ele gostava, mas muitas pessoas não gostavam. Frustrado com os questionamentos sobre seu cabelo, cortou. “Certamente, teve uma pressão pra deixar essa aparência. Os endócrinos diziam para eu fazer academia pra ficar mais musculoso. Mas eu sempre caminhei ou fiz algum tipo de esporte, então aquilo não era questão de saúde, eles estavam falando sobre aparência física. Isso é cobrado, para todas as pessoas trans é cobrado, para mulheres trans com certeza é pior”.

Em 2018, ele começou a fazer o tratamento da hormonização em Porto Alegre, sua cidade natal, no sistema privado, já que em Santa Maria ainda não existiam os ambulatórios pelo SUS que hoje auxiliam a população trans no processo de transição.

“Agora que tenho cabelo curto, barba e voz, eu tenho acesso a um respeito que nunca tive na vida. Nem antes e nem durante a transição. As pessoas parecem que me ouvem mais, é surreal”

Cauã compartilha as vantagens de se parecer com uma pessoa cis:

Entre o amor e a dor

Amar sempre foi algo complexo. Às vezes o amor não correspondido pode definir como uma pessoa vai ser daquele momento em diante. Assim como o amor muda um ser humano, a rejeição muda mais ainda. Cilene relata a sua realidade como mulher trans no mundo de relações afetivas e a dificuldade em encontrar o reconhecimento e aceitação que tanto anseia.

“Às vezes a pessoa tá com vergonha de estar do teu lado por ser quem tu é. O coração é um ponto muito fraco nosso. A gente está sempre procurando um amor, mesmo sabendo que aquele amor não vai ser correspondido e isso te frustra muito.Eu vivi quatro anos com um homem e sofri muito quando ele me deixou. Ele me trocou por uma mulher cis. Ele não estava errado, eu que estava errada de me entregar inteira”

Iniciativas de apoio à comunidade trans em Santa Maria

A importância da assistência à saúde física e mental

Utilizo o Sistema Único de Saúde (SUS), é um direito e acredito que devemos fortalecer o SUS”

Durante a transição, Marquita não teve apoio psicológico. Hoje em dia ela faz tratamento porque foi diagnosticada com Transtorno de Personalidade Borderline. Em Santa Maria, recentemente, dois ambulatórios para o público trans foram instaurados na cidade para dar auxílio a essa população: o Ambulatório Transcender e o Ambulatório Trans do Hospital Casa de Saúde.

“É muito importante esses espaços de saúde que a gente tem hoje, os ambulatórios trans, porque a saúde é fundamental e para nossa população mais ainda. Porque a nossa população não acessa a saúde facilmente, é importante ter acesso a esses locais”

O Ambulatório Trans do Hospital Casa de Saúde, inaugurado em 2022, oferece atendimento médico a pessoas que buscam iniciar ou prosseguir com a transição de gênero. O local especializado conta com atendimento clínico, psicológico, psiquiátrico e endócrino via SUS. O foco do ambulatório é dar atendimento clínico e psicossocial a pessoas que queiram fazer a transição com tratamento hormonal. Além de Santa Maria, o espaço atende também as 33 cidades da Região Central.

O Laboratório Transcender atendeu cerca de 65 pessoas trans em um ano de atendimento - Divulgação Prefeitura de Santa Maria Crédito: Marcelo Oliveira/PMSM.
O Laboratório Transcender atendeu cerca de 65 pessoas trans em um ano de atendimento - Divulgação Prefeitura de Santa Maria Crédito: Marcelo Oliveira/PMSM.

Destinado apenas aos residentes de Santa Maria, o Ambulatório Transcender nasceu em 2020 como um laboratório destinado à população T, mas ampliou os atendimentos a toda a população LGBTQIA+. O laboratório funciona junto à Policlínica de Saúde Mental, localizado na Rua dos Andradas, número 1.397. Os serviços oferecidos são: apoio psicológico, médico clínico e odontológico. Já os pacientes que desejam fazer a hormonização são encaminhados à Casa de Saúde. Em um ano de atendimento do ambulatório, 65 homens e mulheres trans e travestis foram acolhidos. É necessário reforçar que o atendimento é gratuito, via SUS e não é necessário agendar consulta ou ter encaminhamento de um posto de saúde, tudo para facilitar o acesso da população ao atendimento.

O ambulatório realiza uma busca ativa principalmente a pessoas Trans, Travestis e Transgêneros, para oferecer assistência. “A população T já tem historicamente uma dificuldade de acesso às Unidades Básicas de Saúde e, hoje, estamos fazendo um movimento de captação dessa população. No início, nós achamos que seria mais fácil eles aparecerem, mas não foi isso que aconteceu. A solução que encontramos é fazer visita domiciliar, vamos até as Unidades Básicas e conversamos com as agentes de saúde, elas já tem mais ou menos um mapa daquele território e das pessoas que têm interesse. A partir disso, a enfermeira vai até a casa, explica como funciona e oferece os serviços que disponibilizamos”, relata o psicólogo e coordenador do ambulatório Transcender, César Bridi, sobre a necessidade da busca ativa.

Bridi reforça que o atendimento é gratuito, público e acessível para todos e todas - Foto: Vitória Gonçalves.
Bridi reforça que o atendimento é gratuito, público e acessível para todos e todas - Foto: Vitória Gonçalves.

O Transcender também abre espaço para as pessoas que querem falar sobre questões de identidade. Ele tem grupos de afirmação de gênero para adultos – maiores de 18 anos – e grupos para adolescentes, dando oportunidade de se descobrir e se entender. Além do atendimento em grupo, dispõe de atendimento individual e para família, como conta Bridi: “Quando uma pessoa transiciona ou descobre sua orientação sexual, todos que estão no entorno precisam lidar com isso. A gente acolhe, explica, orienta os familiares e, caso necessário, encaminhamos para a psiquiatria da policlínica. Nós pensamos que, quando a pessoa vem pra cá, ela precisa se sentir protegida e acolhida.”

Outro espaço que acolhe vítimas de violência de gênero e tem como foco o público LGBTQIA+ e feminino é a Casa Verônica. O projeto é ligado ao Observatório de Direitos Humanos (ODH) e Pró-Reitoria de Extensão (PRE) da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). O local recebeu o nome Casa Verônica para homenagear e manter viva a luta e ativismo de Verônica Oliveira, conhecida como Mãe Loira. Ativista trans e referência na militância LGBTQIA+ na cidade, Verônica foi violentamente assassinada no ano de 2019 a facadas.

A Casa Verônica pretende promover rodas de conversa, eventos e oficinas, focalizadas na saúde mental e física do público alvo, assim como promover a inclusão de nome social, para fomentar políticas públicas voltadas para essas questões. Cauã, atualmente, faz parte da equipe e expõe a importância de existir um espaço como esse, devido a alta demanda: “É um projeto que poucas universidades têm até agora. Mas não é porque esses projetos são raros e escassos que há pouca demanda, a demanda é grande. As pessoas têm sede e fome de reconhecimento, de diálogo e de troca”.

Logo da Casa Verônica. Ilustração: Noam Wurzel/ Casa Verônica.

Logo da Casa Verônica

Ilustração: Noam Wurzel / Casa Verônica.

Os atendimentos ainda não começaram, pois a Casa Verônica está trabalhando na contratação dos profissionais, processo que envolve trâmites administrativos. Mas a Casa oferece orientações sobre os serviços disponíveis na universidade e na cidade e, conforme o caso, realiza encaminhamentos para a rede.


Reportagem produzida na disciplina de Jornalismo Investigativo, no 2º semestre de 2022, sob orientação da professora Glaíse Palma.

A partir de 1983, quando o futebol praticado por mulheres foi liberado por lei no Brasil, milhares de meninas buscam por oportunidades tendo que lutar todos os dias por um esporte mais igualitário

Emanuely Guterres e Lavignea Witt*

Por haver a chamada distinção de gênero em diversas atividades do cotidiano, as mulheres tiveram — e ainda têm — que enfrentar muitas dificuldades para exercer algumas delas, que são majoritariamente praticadas por homens. Um exemplo é o futebol. Segundo a Federação Internacional de Futebol (FIFA), o primeiro jogo oficial de futebol entre mulheres ocorreu em 23 de março de 1883, em Crouch End, na cidade de Londres, na Inglaterra. Naquela ocasião, os dois times foram classificados como Norte e Sul, representando as duas partes da cidade em que a partida era sediada. Porém, o futebol já era praticado por homens desde o século XVII. 

No Brasil, as mulheres começaram a conquistar seu lugar no futebol entre os anos de 1908 e 1909, quando foram datados os primeiros jogos de futebol com jogadores mistos — homens e mulheres juntos. Conforme noticiado pelo jornal A Gazeta, o primeiro jogo oficial no país entre mulheres ocorreu em 1921. As jogadoras eram dos bairros Tremembé e Cantareira, da cidade de São Paulo. 

Segundo o Jornal da USP, em 1941, as mulheres foram proibidas de jogar futebol ou qualquer outro esporte “incompatível com as condições da sua natureza”. O decreto-lei 3.199 de 14 de abril de 1941, foi criado na Era Vargas e vigente até 1983. Contudo, a proibição por lei não parou as jogadoras brasileiras, que continuaram jogando e resistindo ao Estado. Após mais de quarenta anos, em 1983, o decreto foi derrubado graças as muitas mulheres que defendiam que o esporte podia ser praticado por todos, sem exceção.

 

Equipe do Corinthians de Pelotas, na década de 1950. Foto: Divulgação via Futebol Feminino no Brasil.

Desde então, milhares de jovens mulheres buscam por seu espaço dentro do futebol tendo que enfrentar obstáculos que vão desde a dificuldade de inclusão no esporte até os vários tipos de assédio que enfrentam no dia a dia. Por ser praticado por mulheres, o futebol feminino no Brasil é categorizado por muitos como inferior, pois há muita comparação com o esporte praticado pelos homens. 

A Universa em Campo da Uol selecionou comentários de leitores postados em reportagens sobre o futebol feminino que mostram o machismo com relação às atletas, muitas vezes em questão da sexualização, e a qualidade do esporte praticado por elas. Abaixo, estão alguns dos comentários postados no site: 

“Acho o futebol feminino chato ao extremo. Não tem força física, habilidade e as goleiras aceitam tudo o que é chutado”

“Se tem uma coisa que é certa é que mulher não entende, não joga e não deve opinar em futebol. Não tem nada de machista. Certo é certo.”

“Ninguém gosta de futebol feminino. Mulher comentando futebol, então, é um desastre. Nesse caso sou machista: futebol é pra homem!”

Dificuldades no início de carreira

Após todas as contrariedades que impediam a realização do futebol entre mulheres e as dificuldades durante a busca por uma oportunidade, o esporte foi crescendo entre as jogadoras. Contudo, o cenário não é o ideal e as oportunidades são bem escassas, o que faz com que muitas meninas desistam de seu sonho. É o caso da ex-jogadora profissional Julia Pompeo, de 20 anos. Como a maioria das mulheres que iniciam sua carreira no futebol, Julia começou jogando somente com meninos em uma escolinha de futsal. Ela conta sobre as dificuldades de ser a única menina entre o time e os torneios que participava. “No início foi muito difícil, porque a gente jogava com outros times que também só tinham meninos e eles tinham aquele preconceito… Eu sentia muito isso, por exemplo, os meninos não iam até o final em uma disputa de bola, porque era menina”, relata.

Julia durante seu treino em 2018. Foto: Reprodução Instagram.

Com o passar do tempo, após conhecer outras meninas que também jogavam futebol, soube que poderia entrar em um time. Então, ingressou no time de futebol feminino do Sport Club Internacional, que era comandado por Duda Luizelli. Julia conta que essa oportunidade foi incrível para seu crescimento dentro do futebol, mas, após um ano dentro do time, rompeu o ligamento e teve que se afastar dos treinos. Após a sua recuperação, voltou a jogar mas desistiu do sonho, segundo ela, por falta de oportunidade. 

Em relação ao futebol masculino, as oportunidades de carreira dentro do esporte são bem diferentes, tendo em vista que a maioria dos clubes não investem em equipes femininas usando como justificativa o pouco retorno e visibilidade. 

Pensando em ajudar a mudar essa realidade, a Conmebol, em meio às mudanças que implementou em suas competições em meados de 2016, ordenou que os times que disputarem a Copa Libertadores e a Copa Sul-Americana terão de ter pelo menos uma equipe feminina. Sobre o requisito, o documento fala que “o solicitante (a disputar a competição) deverá ter uma equipe feminina ou associar-se a um clube que possua a mesma. Ademais, deverá ter ao menos uma categoria juvenil feminina, ou associar-se a um clube que possua a mesma”.

Além disso, os clubes deverão oferecer apoio técnico e toda a estrutura necessária para as equipes femininas, para que possam treinar e participar de torneios. Segundo Julia Pompeo, essa foi uma decisão muito importante pois mudou os rumos do futebol feminino no Brasil e em toda a América Latina, proporcionando uma maior visibilidade ao futebol feminino. 

Investimentos no futebol feminino nos últimos anos

Durante a Copa do Mundo de 2019, realizada na França, onde mobilizou milhares de brasileiros para assistir à seleção feminina, a Fifa revelou que irá realizar um investimento de US$ 1 bilhão na categoria e, mesmo com a pandemia do coronavírus, irá manter o mesmo valor. Segundo o site Rainhas do Drible, a ideia de Gianni Infantino, presidente da Fifa, não é somente realizar o investimento, mas também dobrar o valor da premiação e aumentar as equipes de 24 para 32, para o próximo Mundial em 2023. Contudo, segundo a Forbes, o investimento não é o suficiente para alavancar a categoria feminina de futebol: “Progresso e melhorias vão requerer mais do que só investimentos. A modalidade feminina precisa planejar o futuro em nível nacional e internacional ou correr o risco de virar uma modalidade olímpica”.

Além da falta de oportunidades, a questão dos investimentos também é um fardo que o futebol feminino carrega. Uma situação inusitada que aconteceu em outubro de 2020 chamou a atenção das mídias para esse problema. Pela segunda rodada do Campeonato Paulista de futebol, em 21 de outubro de 2020, na Arena Barueri, o time do São Paulo goleou o Taboão da Serra por 29 a 0.

São Paulo goleia Taboão da Serra por 29 a 0. Foto: Reprodução.

Apesar de o placar chamar muita atenção, um depoimento dado pela capitã do time do Taboão da Serra serviu para mostrar a dura realidade que os times femininos enfrentam no dia a dia quanto a estrutura dos clubes. Segundo Nini, o time do interior de SP possui pouco investimento e não possui nenhum apoio do clube. 

“Em pouca coisa o clube nos ajuda. É mais a vontade da comissão técnica mesmo. Ninguém tem salário, ninguém tem condução. A gente não tem roupa de treino, não tem apoio nenhum do clube. A gente simplesmente usa o nome do clube para participar do Campeonato Paulista porque acredita que é uma oportunidade para as meninas mais novas”, relatou a capitã à FPF TV. 

Com os olhares voltados para o futebol feminino durante a Copa do Mundo, muitos temas surgiram. Um levantamento realizado pelo EXTRA no ano de 2019, mostra que os 20 clubes participantes da série A (até então) investiam no máximo 1% de seus orçamentos no futebol feminino. O Santos liderava a tabela sendo o time que mais investiu. O Flamengo investe cerca de R$ 1 milhão, o que equivalia na época ao salário de um mês do Gabigol. Diante dessa situação, com o baixo incentivo e investimento a prática futebolística se torna quase impossível para as jogadoras. Levando assim, a esperança de o futebol se tornar um esporte igualitário em questão de investimentos e oportunidades. 

Questão salarial das jogadoras no Brasil

Além da falta de investimentos em equipamentos, lugares para treinos e preparação física, uniformes, entre outros, o futebol feminino também é financeiramente afetado na questão da disparidade salarial.  

Segundo o site de notícias da UOL, os contratos de jogadoras de futebol que atuam no Brasil possuem a duração de um ano. Isso quando existe realmente um contrato de trabalho, pois a grande maioria trabalha informalmente. Assim como é raro encontrar clubes que ofereçam carteira assinada às jogadoras. O Corinthians, por exemplo, começou a assinar os contratos de suas jogadoras a partir de 2019. 

A negociação, diferentemente dos times masculinos, não é feita a partir da compra de passes das jogadoras. Os contratos de trabalho são firmados entre clube e atleta de forma direta, sem necessidade de compra de transferência. Com a grande visibilidade proporcionada pela Copa do Mundo de 2019, os negócios mudaram consideravelmente, tanto em questão de contratos como de salário, mas a realidade ainda é difícil. 

Ainda segundo a UOL, as jogadoras que atuam na primeira divisão do Brasileiro, ganham em média até dois salários mínimos por mês. Ainda que muitos clubes tenham investido um pouco mais no futebol praticado por mulheres, o salário não passa dos R$3 mil. Valores insignificantes perto da folha salarial do futebol masculino. No São Paulo, por exemplo, o total de investimentos em 2019 chegou a menos de dois salários do jogador Daniel Alves, que equivale a R$1,5 milhão. 

Além disso, com a pandemia e o futebol paralisado em março, foi o suficiente para alastrar uma enorme crise financeira nos clubes, que afetou todas as categorias de jogadoras. Alguns clubes fizeram até redução dos salários dos jogadores profissionais para tentar amenizar a situação, assim como de jogadoras, mas muitas foram dispensadas durante esse período de crise mais acentuada. 

Em abril de 2020, a Confederação Nacional de Futebol (CBF) destinou cerca de R$150 mil para equipes da série A1 e R$50 mil para equipes da série A2, para tentar ajudar na folha salarial das jogadoras. Contudo, dos 52 clubes beneficiados, seis — Audax, Juventus, Autoesporte-PB, Santos Dumont-SE, Atlético-GO, Sport e Vitória — demoraram para repassar os valores para as jogadoras, que eram de R$ 500 a R$ 1000, o que resultou em piora do cenário para as jogadoras. Com a volta dos campeonatos na metade do ano, a situação foi sendo normalizada aos poucos. 

Em setembro de 2020, após anunciar as novas dirigentes para as coordenações de competições femininas, o presidente da CBF Rogério Caboclo, anunciou também que a entidade definiu a igualdade entre os valores das premiações entre as seleções masculinas e femininas. A equidade já havia sido adotada na convocação da equipe feminina para o Torneio Nacional da França. Em coletiva, o presidente afirmou que não há mais diferença de gênero em relação à remuneração na CBF. 

O assédio dentro dos campos 

Um dos problemas dentro do futebol feminino brasileiro é a questão do assédio. Além de sofrerem pelo assédio moral, ao serem questionadas sobre a sua qualidade dentro dos campos, as jogadoras também enfrentam o assédio sexual durante a prática futebolística. 

A ex-jogadora Julia Pompeo afirma que nunca sofreu assédio sexual físico, mas algumas situações já a incomodaram dentro de campo. “Sempre foi algo psicológico. Se eu colocava uma legging pra jogar bola, sempre tinha os olhares dos meninos. Algumas vezes já fomos treinar entre 11h e 12h da manhã, um horário com temperatura mais quente, e jogávamos sem a camiseta, somente de top. Os meninos que estavam esperando para usar a quadra no próximo horário ficavam debochando ou gritando palavras de assédio”, relata. 

Sobre os comentários pejorativos, a jogadora profissional Elena Mueller, afirma que as mulheres que jogam futebol inevitavelmente precisam ouvir falas machistas, desnecessárias, tentando minimizá-las e fazendo comparações, muitas vezes por falta de conhecimento da própria pessoa em relação ao futebol. 

Elena reitera que essas situações acontecem e cabe às próprias jogadoras enfrentarem de cabeça erguida. “Bater no peito, falar eu jogo futebol sim, eu sou mulher e jogo futebol. A mulher tem tanta capacidade como o homem para jogar futebol. O que eu sempre digo em relação a preconceito, é que a gente não se cale. Que se alguém fizer uma brincadeira que não for legal, que digamos que isso não deve existir. Na maioria das vezes os homens não sabem as dificuldades que a gente passa no futebol feminino, então o principal ponto é não se calar”, declara a jogadora. 

A inconveniência não vem somente dentro de campo. Podemos citar como exemplo, uma situação recente que aconteceu em dezembro de 2020. Durante o chamado programa “Dupla em debate” da Rádio Grenal, o comentarista Roberto Moure, sugeriu que as atletas do Internacional deveriam usar “fio dental” para jogarem. 

Durante o programa, o comentarista disse que as jogadoras que teriam as ‘pernas mais bonitas’ deveriam usar shorts mais curtos para jogar. “Uma sugestão para essas meninas, principalmente do Internacional, que querem usar o calçãozinho ali parecendo o Diego Barbosa. Peçam para confeccionar calções mais curtos, que fica horrível o que vocês estão fazendo. Ah! Mas as pernas são mais bonitas que as dos homens, não tenho dúvidas”.

Os comentários constrangem o apresentador, Flávio Dal Pizzol, que pede desculpas à sua companheira Heloíse Bordin, que era convidada do programa durante o ocorrido. Após o comentário sexista, Moure pediu retratação e disse não haver qualquer intenção de ferir ou ofender as jogadoras, pedindo desculpas pelo seu comentário. A Rádio Grenal também se manifestou, através de uma mensagem, sobre a situação:

“A rádio Grenal completará nove anos de existência em maio de 2021 e, desde a sua estreia, dirigida por uma mulher, que foi uma das primeiras comunicadoras a cobrir futebol no Brasil, a nossa diretora Marjana Vargas, a rádio Grenal foi a primeira emissora de rádio a contar com uma mulher atuando nas jornadas esportivas como repórter de campo. A rádio Grenal detém o título de primeira rádio FM a transmitir uma partida de futebol com equipe exclusivamente formada por mulheres, o que aconteceu na final do Gaúchão feminino do ano passado. A rádio Grenal é apaixonada pelo futebol e apaixonada pelo respeito e pela igualdade de direitos e oportunidades que devem unir a humanidade”, destacou a nota. 

Além das jogadoras e das jornalistas esportivas, as profissionais que atuam de outras maneiras dentro de campo também sofrem com as adversidades. A árbitra assistente Luiza Reis, conta que não sofreu com situações de assédio mas que foi muito ofendida em uma ocasião quando errou um lance em um jogo. “Eu comecei a ser muito criticada nas minhas redes sociais pessoais, não por ter errado o lance, mas por ser mulher e ter errado o lance. Então isso foi uma situação em que fiquei bem chateada. Hoje já faz um tempo, já consigo lidar melhor com isso”, relata Luiza. A árbitra ainda destaca que muitas pessoas que frequentam os estádios acabam insultando os árbitros, o que é uma atitude errada. 

Com essa e tantas outras situações de assédio que acontecem no dia a dia das mulheres que jogam futebol — que muitas vezes não são divulgadas pela mídia — muitas meninas publicaram manifestações na internet em apoio às vítimas. 

Do campo para as arquibancadas 

A batalha das mulheres pelo espaço no futebol não é vista somente no campo. Assim como em qualquer competição, a presença do torcedor serve como incentivo aos atletas, porém quando se trata da presença da mulher nas arquibancadas isso se torna mais uma  luta pelo seu direito de ocupar espaços considerados masculinos. 

Diante dessa movimentação na própria torcida do futebol feminino vem ganhando cada vez mais apoio de torcedoras que já trazem a tradição de acompanhar os times masculinos de seus clubes. Revelando que é o momento de acabar de vez com qualquer discriminação de gênero quando o assunto é futebol.

Um vídeo que chocou as redes sociais em 2018, foi considerado o primordial para a criação de novos movimentos e coletivos de torcedoras que exigiam respeito às mulheres no mundo do esporte. A gravação mostra uma torcedora com a camisa do Palmeiras sendo agredida e expulsa de um vagão no metrô por vários torcedores do Corinthians. 

Apesar de o placar chamar muita atenção, um depoimento dado pela capitã do time do Taboão da Serra, serviu para mostrar a dura realidade que os times femininos enfrentam no dia a dia quanto a estrutura dos clubes. Segundo Nini, o time do interior de SP possui pouco investimento e não possui nenhum apoio do clube. 

“Em pouca coisa o clube nos ajuda. É mais a vontade da comissão técnica mesmo. Ninguém tem salário, ninguém tem condução. A gente não tem roupa de treino, não tem apoio nenhum do clube. A gente simplesmente usa o nome do clube para participar do Campeonato Paulista porque acredita que é uma oportunidade para as meninas mais novas”, relatou a capitã à FPF TV. 

Com os olhares voltados para o futebol feminino durante a Copa do Mundo, muitos temas surgiram. Um levantamento realizado pelo EXTRA no ano de 2019, mostra que os 20 clubes participantes da série A (até então) investiam no máximo 1% de seus orçamentos no futebol feminino. O Santos liderava a tabela sendo o time que mais investiu. O Flamengo investe cerca de R$ 1 milhão, o que equivalia na época ao salário de um mês do Gabigol. Diante dessa situação, com o baixo incentivo e investimento a prática futebolística se torna quase impossível para as jogadoras. Levando assim, a esperança de o futebol se tornar um esporte igualitário em questão de investimentos e oportunidades. 

Questão salarial das jogadoras no Brasil

Além da falta de investimentos em equipamentos, lugares para treinos e preparação física, uniformes, entre outros, o futebol feminino também é financeiramente afetado na questão da disparidade salarial.  

Segundo o site de notícias da UOL, os contratos de jogadoras de futebol que atuam no Brasil possuem a duração de um ano. Isso quando existe realmente um contrato de trabalho, pois a grande maioria trabalha informalmente. Assim como é raro encontrar clubes que ofereçam carteira assinada às jogadoras. O Corinthians, por exemplo, começou a assinar os contratos de suas jogadoras a partir de 2019. 

A negociação, diferentemente dos times masculinos, não é através da compra de passes das jogadoras. Os contratos de trabalho são firmados entre clube e atleta de forma direta, sem necessidade de compra de transferência. Com a grande visibilidade proporcionada pela Copa do Mundo de 2019, os negócios mudaram consideravelmente, tanto em questão de contratos como de salário, mas a realidade ainda é difícil. 

Ainda segundo a UOL, as jogadoras que atuam na primeira divisão do Brasileiro, ganham em média até dois salários mínimos por mês. Ainda que muitos clubes tenham investido um pouco mais no futebol praticado por mulheres, o salário não passa dos R$3 mil. Valores insignificantes perto da folha salarial do futebol masculino. No São Paulo, por exemplo, o total de investimentos em 2019 chegou a menos de dois salários do jogador Daniel Alves, que equivale a R$1,5 milhão. 

Além disso, com a pandemia e o futebol paralisado em março, foi o suficiente para alastrar uma enorme crise financeira nos clubes, que afetou todas as categorias de jogadoras. Alguns clubes fizeram até redução dos salários dos jogadores profissionais para tentar amenizar a situação, assim como de jogadoras, mas muitas foram dispensadas durante esse período de crise mais acentuada. 

Em abril de 2020, a Confederação Nacional de Futebol (CBF) destinou cerca de R$150 mil para equipes da série A1 e R$50 mil para equipes da série A2, para tentar ajudar na folha salarial das jogadoras. Contudo, dos 52 clubes beneficiados, seis — Audax, Juventus, Autoesporte-PB, Santos Dumont-SE, Atlético-GO, Sport e Vitória — demoraram para repassar os valores para as jogadoras, que eram de R$500 à R$1000 reais, piorando ainda mais o cenário para as jogadoras. Com a volta dos campeonatos na metade do ano, a situação foi sendo normalizada aos poucos. 

Em setembro de 2020, após anunciar as novas dirigentes para as coordenações de competições femininas, o presidente da CBF Rogério Caboclo, anunciou também que a entidade definiu a igualdade entre os valores das premiações entre as seleções masculinas e femininas. A equidade já havia sido adotada na convocação da equipe feminina para o Torneio Nacional da França. Em coletiva, o presidente afirmou que não há mais diferença de gênero em relação à remuneração na CBF. 

O assédio dentro dos campos 

Um dos maiores problemas dentro do futebol feminino brasileiro é a questão do assédio. Além de sofrerem pelo assédio moral, ao serem questionadas sobre a sua qualidade dentro dos campos, as jogadoras também enfrentam o assédio sexual durante a prática futebolística. 

A ex-jogadora Julia Pompeo afirma que nunca sofreu assédio sexual físico, mas algumas situações já a incomodaram dentro de campo. “Sempre foi algo psicológico. Se eu colocava uma legging pra jogar bola, sempre tinha os olhares dos meninos. Algumas vezes já fomos treinar entre 11h e 12h da manhã, um horário com temperatura mais quente, e jogávamos sem a camiseta, somente de top. Os meninos que estavam esperando para usar a quadra no próximo horário ficavam debochando ou gritando palavras de assédio”, relata. 

Sobre os comentários pejorativos, a jogadora profissional Elena Mueller, afirma que as mulheres que jogam futebol inevitavelmente precisam ouvir falas machistas, desnecessárias, tentando minimizá-las e fazendo comparações, muitas vezes por falta de conhecimento da própria pessoa em relação ao futebol. 

Elena reitera que essas situações acontecem e cabe às próprias jogadoras enfrentarem de cabeça erguida. “Bater no peito, falar eu jogo futebol sim, eu sou mulher e jogo futebol. A mulher tem tanta capacidade como o homem para jogar futebol. O que eu sempre digo em relação a preconceito, é que a gente não se cale. Que se alguém fizer uma brincadeira que não for legal, que digamos que isso não deve existir. Na maioria das vezes os homens não sabem as dificuldades que a gente passa no futebol feminino, então o principal ponto é não se calar”, declara a jogadora. 

A inconveniência não vem somente dentro de campo. Podemos citar como exemplo, uma situação recente que aconteceu em dezembro de 2020. Durante o chamado programa “Dupla em debate” da Rádio Grenal, o comentarista Roberto Moure, sugeriu que as atletas do Internacional deveriam usar “fio dental” para jogarem. 

Durante o programa, o comentarista disse que as jogadoras que teriam as ‘pernas mais bonitas’ deveriam usar shorts mais curtos para jogar. “Uma sugestão para essas meninas, principalmente do Internacional, que querem usar o calçãozinho ali parecendo o Diego Barbosa. Peçam para confeccionar calções mais curtos, que fica horrível o que vocês estão fazendo. Ah! Mas as pernas são mais bonitas que as dos homens, não tenho dúvidas”.

Os comentários constrangem o apresentador, Flávio Dal Pizzol, que pede desculpas à sua companheira Heloíse Bordin, que era convidada do programa durante o ocorrido . Após o comentário sexista, Moure pediu retratação e disse não haver qualquer intenção de ferir ou ofender as jogadoras, pedindo desculpas pelo seu comentário. A Rádio Grenal também se manifestou, através de uma mensagem, sobre a situação:

“A rádio Grenal completará nove anos de existência em maio de 2021 e, desde a sua estreia, dirigida por uma mulher, que foi uma das primeiras comunicadoras a cobrir futebol no Brasil, a nossa diretora Marjana Vargas, a rádio Grenal foi a primeira emissora de rádio a contar com uma mulher atuando nas jornadas esportivas como repórter de campo. A rádio Grenal detém o título de primeira rádio FM a transmitir uma partida de futebol com equipe exclusivamente formada por mulheres, o que aconteceu na final do Gaúchão feminino do ano passado. A rádio Grenal é apaixonada pelo futebol e apaixonada pelo respeito e pela igualdade de direitos e oportunidades que devem unir a humanidade”, destacou a nota. 

Além das jogadoras e das jornalistas esportivas, as profissionais que atuam de outras maneiras dentro de campo também sofrem com as adversidades. A árbitra assistente Luiza Reis, conta que não sofreu com situações de assédio mas que foi muito ofendida em uma ocasião quando errou um lance em um jogo. “Eu comecei a ser muito criticada nas minhas redes sociais pessoais, não por ter errado o lance, mas por ser mulher e ter errado o lance. Então isso foi uma situação em que fiquei bem chateada. Hoje já faz um tempo, já consigo lidar melhor com isso”, relata Luiza. A árbitra ainda destaca que muitas pessoas que frequentam os estádios acabam insultando os árbitros, o que é uma atitude errada. 

Com essa e tantas outras situações de assédio que acontecem no dia a dia das mulheres que jogam futebol — que muitas vezes não são divulgadas pela mídia — muitas meninas publicaram manifestações na internet em apoio às vítimas. 

Do campo para as arquibancadas 

A batalha das mulheres pelo espaço no futebol não é vista somente no campo. Assim como em qualquer competição, a presença do torcedor serve como incentivo aos atletas, porém quando se trata da presença da mulher nas arquibancadas isso se torna mais uma  luta pelo seu direito de ocupar espaços considerados masculinos. 

Diante dessa movimentação na própria torcida do futebol feminino vem ganhando cada vez mais apoio de torcedoras que já trazem a tradição de acompanhar os times masculinos de seus clubes. Revelando que é o momento de acabar de vez com qualquer discriminação de gênero quando o assunto é futebol. 

Um vídeo que chocou as redes sociais em 2018, foi considerado o primordial para a criação de novos movimentos e coletivos de torcedoras que exigiam respeito às mulheres no mundo do esporte. A gravação mostra uma torcedora com a camisa do Palmeiras sendo agredida e expulsa de um vagão no metrô por vários torcedores do Corinthians. 

Torcedoras buscam apoio em coletivos para frequentar os estádios com tranquilidade. Fotomontagem: Lance!

Na época os clubes divulgaram uma nota condenando as agressões, mas para algumas torcedoras palmeirenses era necessário mais posicionamento. Foi assim, que uma das administradoras se reuniu com outras palmeirenses e criaram o movimento VerDonnas. Em 2019, esse movimento já era composto por nove administradoras e mais quatro grupos com uma média de 250 mulheres cada. 

Logo em seguida, o Movimento Alvinegras foi criado por corinthianas para apoiar e organizar mulheres que queiram acompanhar o seu time pelos estádios. E no mesmo embalo as santistas do Bancada das Sereias, também em busca de respeito, criaram o movimento após se questionarem sobre as dificuldades enfrentadas por elas mesmas no estádio.

De uma manifestação nas redes sociais, nasceu também o movimento São PraElas, das são-paulinas. As torcedoras desenvolveram a hashtag #saopaulinasuniformizadas no Twitter, com o intuito de protestar contra o fato da Underarmour, fornecedora dos uniformes de jogo do time que não fabricava nenhuma peça feminina. 

Embora a presença das mulheres nos estádios ainda seja vista como uma vivência passiva, de acompanhantes, este quadro vem mudando. As rivalidades ficam apenas em campo, a vontade de poder frequentar os jogos, gritar e torcer é maior entre elas. Toda a organização derivada das tradicionais torcidas do futebol masculino também refletem na torcida do futebol feminino.

Ativismo digital também realizado pelas jornalistas 

Jornalistas da Gaúcha ZH compartilhando a campanha #DeixaElaTrabalhar. Foto: Reprodução

A repórter Bruna Dealtry, durante uma cobertura ao vivo de uma partida de futebol em 2019, pelo canal Esporte Interativo, foi interrompida por um torcedor que a beijou à força, em frente a câmera. O caso ocorreu no Rio de Janeiro, na partida entre o Vasco e o Universidad do Chile, pela Libertadores da América. Em choque e constrangida, a jornalista apenas diz “não foi legal” e segue a transmissão.

Por coincidência, naquela mesma semana em Porto Alegre tinha também ocorrido um caso parecido. Um torcedor do Inter insultou e agrediu fisicamente a jornalista Renata Medeiros, da Rádio Gaúcha, durante a cobertura de Inter e Grêmio.  

Esses dois casos ilustram o que muitas mulheres, tanto da área do esporte ou de outros ambientes de trabalho, recebem pelo simples fato de serem mulheres. Foi diante disso, que criaram uma nova campanha com o objetivo de jogar luz sobre este problema e clamar pelo respeito às profissionais.

Foi o movimento #DeixaElaTrabalhar, com um grupo de 50 jornalistas mulheres de todo o país que desenvolveram um vídeo com relatos desses assédios sofridos. As jornalistas relataram comentários violentos e ameaças de estupro de torcedores no estádios e nas redes sociais. 

Confira o vídeo da campanha:

 

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O principal intuito da campanha era chamar a atenção para as agressões que as profissionais sofrem não somente nos estádios, mas também nas redações, em suas redes pessoais, na rua ou em onde for. A campanha apesar de criada por jornalistas não se limitava somente a esta editoria, o movimento abraçava todas as esferas, sendo uma maneira de incentivar o relato sofrido e a busca pelos espaços.

Após a campanha, diversos clubes se posicionaram sobre o caso, o Atlético-MG entrou em campo para o clássico contra o Cruzeiro com faixas chamando a atenção para a violência contra a mulher. A responsável pela lei que criminaliza a violência doméstica e familiar, Maria da Pena M. Fernandes, esteve no gramado do Independência e foi homenageada pelo clube, além de torcedoras apresentarem variados cartazes com dizeres “Meu lugar é aqui”, nas arquibancadas. O Corinthians jogou contra o Mirassol com a marca #RespeitaAsMinas estampadas no uniforme e entrou junto ao campo com as atletas do time feminino. 

O assédio entre as jornalistas já acontecia antes mesmo da união entre elas para denunciar os abusos e assédios. Em 2016, depois que uma repórter do portal G1 ser assediada no meio de uma entrevista coletiva pelo cantor Biel, um grupo de jornalistas mulheres criaram a campanha #JornalistasContraOAssédio. Na época o cantor chamou a repórter de “gostosinha” e disse que “quebraria no meio” se eles tivessem relações sexuais. Hoje a campanha se transformou em um coletivo que denuncia as diversas formas de assédio. 

Casos deste teor acontecem nos grandes estádios e também nos pequenos. A jornalista esportiva do Diário de Santa Maria, Janaína Wille, integrou o Radar Esportivo da Rádio Universidade onde realizava programas de rádio sobre esporte e transmissões do futebol americano e da divisão de acesso. 

Janaína relata que trabalhar nessa área é comum ouvir comentários direcionados tanto as atletas quanto as profissionais. A jornalista diz nunca ter sofrido nenhum assédio, porém passou por casos desconfortáveis como quando por conta de sua simpatia ao entrevistar e conversar com a torcida, muitas vezes era mal interpretada, pelo simples fato de ser uma mulher. “Muitas vezes aconteceu de sair um gol e o torcedor querer me abraçar, me tocar, sem nenhuma permissão, até aquele “chega pra lá””, comenta a jornalista. 

Esse tipo de comportamento não ocorre somente pelos torcedores, a comunicadora conta ter passado uma experiência desconfortável com um determinado dirigente, onde em entrevista o homem foi extremamente grosseiro e assim que, entrevistado por outra jornalista, teve um comportamento diferente. Uma atitude completamente machista, deixando claro que a outra jornalista o agradava mais.

A jornalista enfatiza que se sente privilegiada em trabalhar com jovens de mente aberta e que possuem respeito pelas profissionais, que embora nunca tenha passado por casos graves enquanto trabalhava, acredita que o primeiro passo é dado pela mídia, reconhecendo esses casos de assédio, ofensa e abuso. “É importantíssimo escancarar esses casos para as pessoas verem que não pode ser impune esses tipos de agressões”, diz Janaina. 

Embora Santa Maria seja uma cidade do interior, onde o futebol não possui tanto engajamento como nas cidades capitais, assédios como esse não são impunes como parecem. Bem como relatou Janaina, o primeiro passo para combater é por nas redes, noticiar nos jornais, deixar a sociedade ciente. Nenhuma mulher mais irá deixar de ir aos jogos ou muito menos, uma jornalista deixará de cumprir sua profissão por conta de homem que não sabe se comportar.

Marta: o maior símbolo do futebol brasileiro feminino

Na imagem, Marta em um amistoso pela Seleção Brasileira Feminina. Foto: Lucas Figueiredo/CBF.

Tanto Marta como Pelé são jogadores de grande magnitude e possuem uma importância histórica muito grande para o futebol brasileiro. Contudo, Marta já ultrapassou Pelé em algumas categorias de premiações. 

Segundo a ESPN, enquanto Pelé ganhou três Copas do Mundo para o Brasil e foi eleito o maior da história, Marta, apesar de possuir títulos nacionais de menos peso, ainda sim supera o ‘Rei’ em prêmios individuais. Marta já ultrapassou Pelé como melhor artilheiro da história da seleção brasileira, chegando a 100 gols, enquanto Pelé tem 95. A jogadora também superou Pelé em número de gols em Copas. Ela com 15 gols e ele com 12.

Até então foram seis prêmios de melhor do mundo da Fifa, 17 gols em Copas do Mundo, sendo a maior artilheira da história dos Mundiais entre homens e mulheres. Foram 107 gols pela seleção brasileira, o que também faz dela a maior artilheira que já vestiu a camisa amarela. A então conhecida como “Rainha do Futebol”, ultrapassou barreiras para chegar até onde chegou e se tornar tão influente no futebol feminino. 

Em 2020, a camisa 10 da seleção, Marta, tentou sua quinta Olimpíada em busca do tão sonhado ouro inédito. A jogadora se aproximou do título em 2004 e 2008, quando o Brasil perdeu para os Estados Unidos na final. 

Durante as décadas de proibição e falta de investimentos, o futebol feminino sofreu muito para conquistar espaço, mas foi nos pés de Marta que as portas começaram a se abrir. O país não tinha sequer um Campeonato Brasileiro para as mulheres competirem, porém aquele que se tornaria no futuro um ícone dos gramados, encantava o mundo com seus dribles e gols em campo. Hoje, os maiores especialistas já afirmam que ela é a maior de todos os tempos. 

A visibilidade que não existia antes, fez com que Marta se tornasse uma grande referência para tantas outras mulheres que também sonham com um futuro promissor nos campos de futebol. Depois de ganhar o prêmio da Fifa pela sexta vez em 2019, Marta ganhou homenagem na sede da CBF e foi capa das principais publicações nacionais e internacionais. 

No país do futebol, também é o país do carnaval e em 2020 a atleta foi tema de uma escola de samba no Rio de Janeiro, a Inocentes de Belford Roxo, do grupo de acesso, levando a jogadora como tema do enredo na Sapucaí. 

Assim como muitas jovens espalhadas pelo Brasil inteiro, Marta também iniciou seus passos quando era uma simples criança e jogava futebol entre os meninos de Dois Riachos. Marta jogou em um time da cidade, até ser banida do campeonato por ser “boa demais”. A jogadora já relatou em diversas entrevistas ter ouvido o termo “aqui não é lugar para meninas”, vindas de um treinador que não quis a colocar o time no campeonato até ter certeza que Marta não jogaria na equipe. 

Com 14 anos, Marta realizou um teste no Vasco, jogou nas categorias de base e logo chegou à seleção, ainda na adolescência. A jovem enfrentou logo cedo as dificuldades do futebol feminino, quando o clube cruzmaltino encerrou as atividades do time feminino e ela por conta disso, se viu na necessidade de procurar outra equipe para seguir seu caminho. 

Marta foi para Minas Gerais, temporariamente, porém com o sucesso que fez na Copa do Mundo em 2013, a então jogadora recebeu a proposta de jogar em um time na Suécia. Diferente de Pelé, a jogadora não pode seguir os mesmos passos fazendo carreira e se tornando uma ídola absoluta de um único clube. A realidade do esporte feminino não permitiu isso na época e os clubes foram se formando e acabando, tudo por conta da falta de investimento. 

Foi assim que Marta fez parte de diversos clubes, jogando na Suécia, nos Estados Unidos, passou um tempo no Santos no “dream team” das Sereias da Vila, até retornar para a Suécia no Rosengard e depois voltar ao país do futebol feminino para no Orland Pride. Marta conquistou Champions League, Campeonato Sueco, Libertadores, Copa do Brasil, Liga America pelos clubes, além de dois ouros em Pan-Americanos, três em Copa América e duas medalhas de prata olímpicas.

A história da craque dos campos femininos é tão importante e notória para a cultura da sociedade brasileira, tendo em vista a existência de alguém tão gigantesca no esporte. Isso tudo gera ainda mais um apoio a todas aquelas meninas que sonham com uma carreira que ainda sofre tanto com o preconceito e com a desvalorização. 

Marta foi e ainda é um grande ícone a ser seguido, a jogadora mostrou que é possível de fato chegar tão longe em um esporte que ainda é visto pela maioria como apenas destinado aos homens. 

Novas perspectivas do futebol feminino no Brasil

O futebol feminino cresce a cada dia e busca pelo seu espaço. Foto: Lucas Uebel/Grêmio FBPA.

Apesar dos salários discrepantes comparados aos homens, as condições precárias e a pouca valorização, foi em 2019 que o futebol feminino ficou marcado como um ano de mudanças significativas para a modalidade. 

Mulheres do mundo todo lutam por melhores condições de trabalho dentro do futebol. Essa luta finalmente parece estar atingindo os efeitos que elas sempre mereceram. A visibilidade da categoria, enfim, começa a existir. 

Em 2019, a sétima edição consecutiva do Campeonato Brasileiro recebeu transmissão gratuita pela internet. Foram 52 participantes na competição, muito por conta da exigência dos clubes aderirem ao Programa Governamental de Refinanciamento de Dívidas do Futebol Brasileiro – Profut.

O calendário rentável da modalidade no país foi uma exigência que garante a sobrevivência desses clubes ao longo da temporada e facilita também o processo de criação de um público fiel.

No mesmo ano, o futebol feminino ficou marcado graças ao grande evento da temporada, a Copa do Mundo. A competição contou com 24 países participantes e chegou a sua oitava edição, acontecendo em Junho, na França. No início do ano, em carta, o presidente da Fifa, Gianni Infantino, afirmou que a competição mudaria a forma como o futebol feminino seria visto no planeta.

A primeira edição da competição, foi disputada em 1898 e desde então vem conseguindo superar as dificuldades que enfrenta, assim como os importantes progressos recentes na modalidade. A expectativa em 2019 é que a competição fosse um divisor de águas na modalidade, promovendo a igualdade das condições dos gramados.

O primeiro fator motivador na Copa do Mundo de 2019, foi a venda dos ingressos ser efetuada com sucesso, esgotando a abertura e as semifinais assim que abertas as vendas. A França adquiriu esse sucesso por conta dos preços, trabalhando valores atrativos com pacotes de três jogos a partir de 25 euros e partidas avulsas a partir de nove euros, além de usar o título da seleção masculina para atrair o público a reviver tal emoção.

No Brasil, a competição foi um marco histórico, tendo em vista a luta todos os anos pela seleção feminina em receber de fato a visibilidade que merecia. O evento recebeu, pela primeira vez, atenção da mídia nacional. Numa manobra inédita, a Rede Globo deu espaço na sua programação aberta para todos os jogos disputados pela Seleção Brasileira, enquanto o SporTV transmitiu o torneio na íntegra, em seus canais fechados.

Foi também o ano dos patrocinadores surgirem. A Nike, empresa de material esportivo, fechou contrato com 14 países participantes da Copa, incluindo a Seleção Brasileira, lançando pela primeira vez uniformes exclusivamente para as mulheres que disputaram o Mundial. Além disso, houve lançamentos em roupas da Adidas que publicou um manifesto a favor da equiparação de pagamentos entre homens e mulheres no esporte. 

A Copa do Mundo de 2019 e a atenção dada pela mídia nacional, foram fatores iniciantes para uma maior visibilidade no esporte. Visibilidade essa que gera apoio a novas jogadoras e mulheres que querem viver no meio desta modalidade, mostrando que sim elas podem e devem impor seu espaço. 

Como um exemplo disso, em 2020 foi possível presenciar no jogo entre Juventus e Dínamo de Kiev, a primeira partida da Champions League a ser controlada por uma árbitra mulher, a Stéphanie Frappart. 

No Brasil foi possível comemorar conquistas como essa, já em 2021 a FIFA anunciou um trio de arbitragem feminina para o Mundial de Clubes de 2020, que será realizado em fevereiro devido a pandemia do coronavírus. A árbitra Edina Alves é a única mulher entre outros seis homens compondo a lista de árbitros da competição. Com ela a brasileira, Neuza Back e a argentina, Mariana de Almeida vão ocupar o posto de bandeirinha no torneio ao lado de outros dez assistentes. 

Também honrando a camisa da seleção, só que no futsal – esporte próximo ao futebol só que realizado em uma quadra fechada, a atleta Amandinha, é indicada ao prêmio de melhor jogadora do mundo pelo “Futsal Planet” e pode ganhar o título pela sétima vez.

Embora sejam poucas vitórias comparadas a tudo que o futebol masculino possui atualmente, sem ter feito tanto esforço quanto o feminino, é importante ressaltar que tudo que vem sendo realizado para esse crescimento está tendo resultados. 

A visibilidade gera conhecimento, coloca a vista o rosto de cada jogadora e seu potencial, dando a ela oportunidades de crescer com apoio e assim ter uma maior estrutura em seu trabalho. É como se um fator fosse movido pelo outro e somente assim esse ramo funcionasse. 

Para as jovens que estão recém iniciando sua carreira como a atleta Cauane, almejam a melhor perspectiva possível, acreditando no crescimento e desenvolvimento do futebol feminino. Para ela, a transmissão em rede nacional da Copa do Mundo Feminina em 2019 foi um marco fundamental para esse objetivo, mostrando o quanto o esporte é importante para a sociedade. “ As atletas merecem reconhecimento, após tantos anos de luta e dedicação, onde precisaram enfrentar e vencer tantos tipos de preconceito”.

O país do futebol deveria focar seu olhar mais naqueles que fazem pela bandeira, pela nacionalidade e pela paixão, dando assim o mesmo valor independente de gênero, raça, etnia ou qualquer outro aspecto que possa ser usado para justificar um esporte que pode e é praticado por todos.

Foi por conta do cenário convicto, que mulheres como a jogadora, Elena Mueller, que decidiu voltar a jogar em 2017 e 2018. De maneira positiva e colocando fé nos seus sonhos que hoje a atleta trabalha esse sentimento de apoio e orientação em uma mentoria. Ela orienta várias meninas que querem se tornar profissionais na gestão de carreira, gestão de imagem e gestão de relacionamento. 

“Hoje em dia, por exemplo, a internet está aí, ao acesso de todo mundo, então tende a crescer muito mais a partir do momento que as gurias tiverem essa noção de usar as ferramentas. …, aproveitar as oportunidades que estão acontecendo e surgindo cada vez mais, desde competições, visibilidade, porque tudo isso vem com o tempo”, relata Elena.   

O que se espera pelas atletas, pelas torcedoras, pelas comunicadoras e por todos aqueles que admiram o trabalho realizado em campo pelas mulheres, um futuro mais igualitário, valorizando o seu potencial e promovendo as mesmas oportunidades entre todos em um esporte que é tão fascinante e une o mundo inteiro.

 *Reportagem produzida para a disciplina de Jornalismo Investigativo sob a orientação do professor Maurício Dias

Morte de homem negro em supermercado de Porto Alegre antes do Dia da Consciência Negra alerta que a sociedade precisa de mudança. Confira a repercussão, os desdobramentos e as perspectivas para acabar com a discriminação e a violência

Gianmarco de Vargas e Pablo Milani*

Desde a antiguidade, diversos problemas se alastraram em meio às camadas sociais brasileiras. Responsável por inúmeros atos de discriminação e por grande percentual de assassinatos no país, o racismo estrutural repete-se ano após ano, o qual mantém nítido um problema enraizado desde o período colonial.

Segundo estudo divulgado pelo portal Brasil de Fato, a taxa de homicídios contra pessoas negras cresceu 11,5%, entre os anos de 2008 e 2018. Por outro lado, a mesma situação reduz em 12%, quando se trata de pessoas brancas. O acréscimo no percentual retrata a soberania do racismo na atualidade, que desde o fim do período ditatorial em 1985, deixou registros históricos. 

Ademais, outras fontes, igualmente, operaram na coleta de dados sobre o mesmo levantamento. O Atlas da Violência, da Agência Brasil, utilizou as diretrizes do Sistema de Informação Sobre Mortalidade, para apurar um crescimento de 11,5% no número de mortes de pessoas negras nos últimos 10 anos. A pesquisa foi divulgada no dia 17 de agosto de 2020, pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP). Por fim, as estatísticas apontam que, para cada pessoa branca morta, em 2018, 2,7 negros foram assassinados, o que representa cerca de 75,7% das vítimas.

Os casos noticiados pela mídia geram impacto num todo, porém, estão longe de serem únicos em suas peculiaridades. Para cada descrição em diferentes abordagens de violência ou modos de assassinato divulgados, centenas repetem-se simultaneamente e não chegam aos olhos do público. Além desta, centenas de outras ocasiões abalam as raízes étnico-sociais brasileiras, mas a partir de uma análise, pode-se perceber o quão a fundo o racismo estrutural vai, e como é compreendido na atualidade.

O Caso

João Alberto Silveira Freitas, de 40 anos, estava no Supermercado Carrefour, no Bairro Passo D’Areia, em Porto Alegre, no dia 19 de novembro de 2020. Depois de algum tempo, o mesmo foi retirado violentamente do setor interno da loja, até o estacionamento, por dois seguranças locais. João Alberto foi vítima de espancamento e asfixia pelos mesmos, em frente a sua esposa.

João Alberto (Foto: Reprodução/Redes Sociais)

O caso aconteceu na noite da quinta-feira, por sinal, véspera do feriado da Consciência Negra, em várias cidades do país. Até algumas horas após o ocorrido, os funcionários teriam justificado que João supostamente discutiu e ameaçou fisicamente a caixa do estabelecimento. Durante a sua retirada do supermercado, pelos seguranças, ele foi acompanhado pela funcionária do Carrefour, Adriana Alves Dutra, a qual afirmou que o homem teria desferido um soco contra o policial militar que faz parte do caso.

A justificativa foi direcionada à polícia local, após identificação da funcionária, na gravação do assassinato. O vídeo mostrou o momento em que João foi agredido pelos dois homens, identificados como Magno Braz Borges (segurança do Carrefour) e Giovani Gaspar da Silva (policial militar temporário), que, de acordo com testemunhas, fazia compras quando participou do espancamento.

Na mesma gravação, realizada pela funcionária, João Alberto aparece sendo agarrado por um dos homens, enquanto o outro dá uma sequência de socos em sua cabeça. Durante a agressão, também é registrado o momento em que um dos homens coloca o joelho nas costas de Freitas, já rendido no chão, enquanto o outro continua batendo. 

O ato chocou o país e gerou dezenas de protestos e movimentos de resistência contra o racismo, em frente aos Supermercados Carrefour em todo Brasil. Em nota, a empresa afirmou que “se sensibilizou com os familiares da vítima e não toleraria nenhum tipo de violência” e que teria “iniciado os procedimentos para apuração interna”, ainda no mesmo dia.

A notícia quebrou barreiras no que diz respeito ao seu alastramento. Veículos de comunicação nacionais e internacionais abordaram o ocorrido com exclusividade, a ponto de divergir em detalhes acerca das informações apresentadas. Foi constatado pelo portal UOL, que João teria chegado a pedir ajuda enquanto era agredido. Sua esposa, Milena Borges Alves, diz ter ouvido o marido gritar: “Me ajuda”. Ela relatou à polícia que estava longe dele, no momento em que houve o desentendimento no caixa.

O delegado Leandro Bodaia relatou que Freitas teria feito um sinal com a mão para a funcionária do caixa. Ato este que segundo o mesmo, teria acarretado no começo do conflito. Ele também afirmou que a vítima teria sido golpeada, mesmo após estar no chão: “A partir disso começou o tumulto, e os dois agrediram ele na tentativa de contê-lo. Eles (o PM e o segurança) chegaram a subir em cima do corpo dele, colocaram a perna no pescoço ou no tórax”. O Jornal Nacional afirmou que, segundo a polícia, foram cinco minutos e 20 segundos entre o início da agressão e o momento em que os seguranças soltaram João Alberto. A informação apontou também que os socorristas do Samu não conseguiram reanimar a vítima, que veio a falecer no local.

O portal Terra informou que a polícia tinha sido chamada após Freitas estar imóvel. Uma ambulância também foi acionada, mas a vítima já estava morta. Em um vídeo publicado nas redes sociais, o governador do estado do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite (PSDB), ao lado da chefe da Polícia Civil, delegada Nadine Anflor, e do comandante-geral da Brigada Militar, coronel Rodrigo Mohr, destacou que as imagens causam indignação e que “todas as circunstâncias estariam sendo apuradas para que os responsáveis fossem punidos”: “Todo o esforço do Estado estará na apuração para que os responsáveis por esse crime enfrentem a justiça, tendo a sua oportunidade de defesa. Mas as cenas são incontestes de que houve excessos que deverão ser apurados”.

Por fim, na ocasião, o Carrefour local afirmou logo após o assassinato, que iria fechar a unidade (temporariamente) em respeito ao ocorrido e entrar em contato com a família. A companhia também informou que iria cancelar o contrato com a empresa responsável pela segurança e que o funcionário responsável pela loja no momento do espancamento seria demitido.

Freitas era membro da torcida organizada de futebol do Clube São José, de Porto Alegre. Ele foi homenageado com posts com mensagens ligadas ao movimento “vidas negras importam” e a convocação de um protesto: “Amanhã estaremos no Carrefour Passo D’areia o dia todo, não vai ficar assim, queremos justiça, fizeram covardia com 1 irmão, agora segurem o Bonde Da Zona Norte!”.

Apurações acerca do nome da vítima constataram que João Alberto tinha antecedentes criminais. Uma condenação a um ano e 20 dias de detenção por ameaça relacionada à violência doméstica, uma execução de pena de três anos e um acórdão que o absolve de porte de arma. Dados estes que não justificam o assassinato, mas que ajudam a apurar informações sobre a vítima. O portal do Conjur esclarece que o juiz de Direito de plantão teria ressaltado que a ação dos seguranças não se justificava pela agressão anterior, o que veio a decretar a prisão de ambos responsáveis.

O site averigua os atos de violência por parte dos funcionários locais. A denúncia atribuiu o crime de homicídio qualificado, argumentado com dolo eventual (art. 121, § 2º, inciso III do Cód. Penal), com pena de 12 a 30 anos de reclusão. “A defesa sustentou a inexistência de dolo e, supletivamente, a possível existência do crime de lesão corporal seguida de morte, cuja pena é de 4 a 12 anos (artigo 129, § 3º, do Código Penal)”, segundo a fonte.

Já no Dia da Consciência Negra, 20 de novembro, o grupo Carrefour comunicou que iria reverter o resultado das vendas daquele dia para organizações ligadas à luta pela consciência negra. Logo, um fundo de R$ 25 milhões foi gerado a fim de promover a inclusão social e combater o racismo no país. A informação foi apurada pelo Poder360 e G1 Economia. As fontes divulgaram, igualmente, que no dia 4 de dezembro, o Grupo Carrefour anunciou que iria substituir, nos próximos dias, por uma equipe própria os serviços de segurança, até então, terceirizados. O processo tinha como objetivo começar por quatro hipermercados no Rio Grande do Sul, com foco nas unidades do Carrefour do bairro Passo d’Areia. Diante de todo ocorrido, o supermercado pronunciou-se em nota oficial (Instagram), ao repudiar o incidente.

Sobre os agressores

O portal UOL, bem como outros veículos de comunicação, confirmou que o PM temporário e o segurança haviam sido levados à delegacia. Ambos mantiveram-se em silêncio durante os depoimentos, acompanhados de uma advogada. A responsável pela condução do caso, delegada Roberta Bertoldo, teria comentado que o laudo não havia sido concluído, pois haveria dúvidas sobre a causa da morte. “Informações que foram colhidas com a equipe de peritos desse caso e que não tem ainda o laudo concluído, apontam suposições sobre a causa da morte de que ele possa ter tido um ataque do coração em função das agressões, e porque ele ficou custodiado com duas pessoas em cima. Talvez tenha sido essa a causa da morte”, disse a delegada. O laudo só foi concluído após a obtenção das imagens de câmera para esclarecimento do caso, por meio de uma busca com a 2ª DHPP (Delegacia de Homicídios e Proteção à Pessoa).

A RBS TV comunicou, no dia 20 de novembro, um esclarecimento por parte da chefe da Polícia Civil do Rio Grande do Sul, Nadine Anflor, frente à investigação da conduta dos agressores. Segundo a policial, não se tinha conhecimento do que de fato teria dado início a briga, embora a esposa da vítima tivesse relatado que o marido teria proferido um gesto para uma fiscal. “Todas as pessoas que estão ali, se há responsabilização da empresa, se capacitou [os funcionários] ou não, vamos investigar”, salientou Nadine. A delegada frisou que a punição mantivesse uma transparência, que desse resposta à sociedade, por se tratar de um caso “extremamente emblemático”.

Até o dia 20, a previsão era de que o inquérito fosse encerrado em 10 dias. O grupo RBS divulgou que ambos suspeitos, um de 24 anos e outro de 30 anos, foram presos em flagrante. O que era PM acabou sendo levado para um presídio militar, enquanto o segurança da loja foi mantido temporariamente em um prédio da Polícia Civil. A investigação tratou o crime como homicídio qualificado, também equiparado com o atentado que aconteceu com George Floyd, que morreu sufocado por policiais em Mineápolis, Estados Unidos.

O advogado de Magno Braz, William Vacari Freitas, optou por não se posicionar sobre o caso, em primeira mão. Por outro lado, o de Giovane da Silva, David Leal, afirmou que o cliente teria justificado ter levado um soco da vítima, e admitiu ter “se excedido”. Ambos eram contratados pela Vector Segurança. Segundo o portal IG, a empresa terceirizada lamentou o ocorrido e se sensibilizou com os familiares da vítima. O Grupo Vector reiterou que não seria responsável pela vigilância do Carrefour do bairro Passo D’Areia, mas sim do setor de prevenção e perdas. A companhia ofereceu auxílio à Polícia Civil, de modo a ajudar na apuração dos fatos, e comentou que “submeteu seus colaboradores a treinamento adequado inerente às suas atividades, especialmente quanto à prática do respeito às diversidades, dignidade humana, garantias legais, liberdade de pensamento, bem como à diversidade racial e étnica”. Consequentemente, os vigias Magno Braz Borges e Giovane da Silva foram demitidos por justa causa. O fato de o autor do ato ilícito ter sido um funcionário terceirizado não veio a eximir a rede de supermercados de culpa.

A Polícia Federal afirmou que a empresa de segurança responsável pelo supermercado teria cadastro regular, abaixo de fiscalizações em agosto de 2020. Em nota, a Brigada Militar (BM) certificou que o PM envolvido na agressão era “temporário” e estava fora do horário de trabalho. A BM também concluiu que a mulher que aparecia nas imagens filmando a agressão foi ouvida pela polícia durante a manhã do dia 20. A delegada comentou, até aquele momento, que não havia provas de que ela coordenava os seguranças ou funcionários do supermercado, ou tinha condições de impedir a agressão. “A polícia vai investigar se houve outros crimes, além do homicídio. O laudo, que confirmará a causa da morte de João, deve sair ainda nesta semana”, reforçou Nadine, após manter a previsão de evidências de laudo para a sexta-feira, dia 27 de novembro.

Em outra mão, a GazetaWeb reportou que um dos dois homens presos não tinha o registro para atuar como segurança. Segundo a PF, que emite o documento, é necessário ter a carteira nacional do vigilante para fazer “a abordagem ativa de contenção”. De acordo com o coronel Rodrigo Mohr Picon, comandante-geral da Brigada Militar, Giovane “não poderia tirar registro de segurança”. “Por lei, é vedado o exercício de qualquer outra atividade remunerada”, frisou Mohr.

Outras opiniões

O momento foi destacado, pela construção de uma opinião pública. Segundo apuração do El País, cerca de 52,7% dos brasileiros consideram que o assassinato de João Alberto foi motivado pelo racismo. Resultado este que é exibido em pesquisas elaboradas pelo Atlas Político, que ouviu 1.764 pessoas. O homicídio ocorreu em frente de ao menos 15 testemunhas. A mesma pesquisa alavanca 90% dos brasileiros (as), como cientes da existência do racismo no país.

 

A subjetividade na fala de diversas pessoas gerou bastante polêmica. Certas declarações apontaram tanto a despreocupação com o ocorrido, assim como a ‘descompreensão’ de atos racistas, não necessariamente ligados ao Caso Carrefour, mas em um modo geral. Exemplo disto, foi o vice-presidente, Hamilton Mourão, que declarou a inexistência do racismo no Brasil. Entrevista que está disponível no canal do SBT no Youtube. Por outro lado, o presidente Jair Bolsonaro, em sua conta oficial no Twitter, pronunciou-se sobre o fato e destacou o fato de o país ser miscigenado. 

Por fim, a Coalizão Negra por Direitos publicou uma nota oficial com repúdio às ações realizadas pelo Carrefour. Nela, foram constatadas em um histórico, outras recorrências polêmicas e desrespeitosas ligadas à rede. O portal Hypeness apresentou o material em primeira mão:

“A referida rede tem reiteradas denúncias de crime de racismo e discriminação racial em suas lojas, através de seu corpo de funcionários e do seu aparato de segurança privada. São diversos casos que não deixam dúvidas quanto ao conhecimento da direção da rede no Brasil sobre o papel ativo do Carrefour em práticas violentas fundadas no racismo. Ao longo do tempo, esses crimes têm sido denunciados, seja através da mídia, ou seja, através das organizações sociais negras, culminando agora neste bárbaro assassinato”. 

O documento enfatizou que o supermercado estaria apto a “escamotear sua responsabilidade” ante ao ocorrido. Frente ao conceito, foi realizada o seguinte pronunciamento: 

Nesse sentido, nos cabe reafirmar que não há saídas que não sejam construídas juntos com as organizações do movimento social negro e o irrestrito respeito à família da vítima e sua comunidade, bem como de outras famílias atingidas pelas práticas reiteradas de racismo na empresa. O enfrentamento ao racismo estrutural e as medidas de reparação cabíveis precisam ser feitos na arena pública com amplo debate social.

Com objetivo de combater o ódio racial, a articulação do Movimento Negro Brasileiro, que atua em Porto Alegre, assegurou que seria organizada uma discussão nacional e internacional sobre o episódio, a fim de abordar o boicote à rede de supermercados. A rede social transformou-se no principal esquematizador de combate por direitos. Parte dos trabalhos podem ser encontrados no Twitter do CoalizaoNegra e do Os Farrapos São José, considerados grandes feitores na luta por igualdade.

Protestos contra o racismo

Diante de toda mobilização de grupos protestantes e de resistência contra o racismo, o Movimento Negro Unificado e outras 33 entidades fizeram atos em frente à unidade. A informação foi estudada pela CNN, que notabilizou que a Coalizão Negra por Direitos, reuniu 150 organizações e entidades do movimento antirracista em todo país. Grupos estes que apresentaram ao Ministério Público Federal e ao Ministério Público do Rio Grande do Sul, um pedido para que uma investigação por racismo fosse aberta contra o supermercado Carrefour.

Os movimentos unificaram-se de forma presencial, mas também cresceram no ambiente digital, com o objetivo de gerar força a favor de um pedido de boicote à empresa. “O vídeo que circula nas redes sociais não deixa dúvidas sobre a covardia do ocorrido”, comentaram as organizações em nota. Protestos foram convocados em grandes unidades da rede, localizadas em São Paulo, Osasco, Belo Horizonte e Rio de Janeiro. 

No Rio Grande do Sul, os movimentos expuseram junto da indignação coletiva, a força do povo que luta pelos direitos iguais, principalmente na capital e em Santa Maria. O Ministério Público do estado afirmou que iria dar seguimento nas apuração de fatores relacionados à morte de Freitas, acrescentando, em nota, que “todas as medidas necessárias para o esclarecimento das circunstâncias serão tomadas na tarefa de prontamente levar o caso à Justiça para a responsabilização dos agressores”. No mesmo dia 20, o Departamento de Homicídios e de Proteção à Pessoa (DHPP) de Porto Alegre, reiterou que ambos seguranças do mercado já estariam presos e seriam indiciados por homicídio triplamente qualificado, por razões fúteis e por não terem dado chances de defesa à vítima.

O atentado repercutiu internacionalmente, e chegou a ser associado com inúmeros outros casos repetentes no mundo inteiro. O Black Lives Matter, dos Estados Unidos, prestou forças contra o ocorrido, bem como o movimento Vidas Negras Importam, no Brasil. Pelas redes sociais, o representante da Coalizão Negra por Direitos, Douglas Belchior, correlacionou o caso de “crime bárbaro”, após exprimir que o Carrefour precisaria ser responsabilizado pela morte.

A finalidade dos movimentos foi mostrar a indignação pública, bem como exigir respeito e lutar contra o racismo injetado socialmente, porém, em algumas ocasiões, os movimentos de protesto colocaram em risco a vida de funcionários que, relativamente, não estavam ligados ao ocorrido. Um dos pontos vandalizados, foi o Supermercados Carrefour, localizado na Rua Pamplona, no bairro Jardins, em São Paulo.

Segundo o jornal Metrópoles, o protesto começou por volta das 16h no vão do Museu de Arte de São Paulo (Masp), na Paulista, e seguiu até o supermercado. Pedras e pedaços de pau foram arremessados na fachada do prédio de vidro do shopping, onde fica o estabelecimento. A parte interna da loja foi danificada, com vidros quebrados e derrubados. Os vídeos gravados mostram os manifestantes danificando o local, bem como furtando mercadorias, algo que não era o objetivo, segundo os líderes do movimento. Os mesmos foram divulgados no Youtube, pelo canal do Jornal Metrópoles.

As imagens foram disseminadas entre as mídias sociais, repercutindo em centenas de canais online. A destruição do Carrefour, em São Paulo, foi pauta no Twitter do Democratize e no Jornalistas Livres. Atos pacíficos foram presenciados em cidades como Brasília, Rio de Janeiro e Salvador. Nos perfis da rede social da Deputada Federal Erika Kokay (PT/DF) e de Rene Silva, integrante do movimento Voz das Comunidades, pode-se acompanhar vídeos dos atos na capital fluminense.

Em Porto Alegre, protestos foram organizados durante toda a semana em frente ao Carrefour, do Passo D’Areia. A cobertura foi realizada pelos Jornais Correio do Povo e GaúchaZH, os quais destacaram as ações de resistência do Movimento Negro. “Nossa luta é contra o racismo cuja estrutura tem dizimado a população negra”, declarou a professora de ensino Infantil, Vanessa Flores, ao Correio do Povo. Ativistas posicionaram faixas no prédio do mercado com dizeres “parem de nos matar” e “A carne barata do mercado é preta”.

Na quinta-feira, dia 19 de dezembro, um novo ato foi realizado para homenagear João Alberto, no Carrefour da Avenida Bento Gonçalves, no bairro Partenon. A manifestação seguiu pacífica até o pôr do sol, quando um grupo começou a arremessar rojões contra o estacionamento da loja, derrubando parte do gradil do supermercado. O Batalhão de Choque da polícia local agiu contra os manifestantes com uso de bombas de efeito moral. Outros grupos presentes queimaram pneus e fizeram uma fogueira no leito da Avenida Bento Gonçalves. Duas pessoas saíram do local com ferimentos leves. A Bento Gonçalves foi liberada às 21h30min do mesmo dia.

Nos dias subsequentes, uma série de cartazes e faixas escritas “o Carrefour é assassino” e “queremos Justiça para Beto” foram erguidas. Manifestantes partiram da rua Albion, ao lado do estabelecimento,  até a avenida Bento Gonçalves, para pedir igualdade racial, o fim do racismo e justiça.

 

Dia da Consciência Negra em Santa Maria

No Dia da Consciência Negra, em Santa Maria, a frase “vidas negras importam” ganhou destaque pela manifestação de cerca de uma hora realizada em frente ao Carrefour, na Avenida Rio Branco, no Centro da cidade. Os manifestantes também lembraram outras mortes relacionadas ao racismo, como a do engenheiro santa-mariense Gustavo dos Santos Amaral, durante uma barreira policial em Marau. Logo após o início do ato, o mercado fechou as portas. No final da manifestação, mãos com tinta vermelha foram pintadas na fachada do local e cartazes com pedidos de justiça foram fixados.

Questionado pela reportagem sobre o caso do assassinato, o Carrefour de Santa Maria, por meio do setor de comunicação, disse entender “que as manifestações que ocorreram por conta do caso João Alberto foram legítimas[…]”.

“[…] Além disso, criamos um comitê externo e independente de diversidade e inclusão, composto por especialistas, jornalistas, advogados, empreendedores sociais e líderes de movimentos sociais com reconhecida atuação nos temas, com o compromisso de orientar, e acompanhar ações de valorização da diversidade, inclusão e no combate à discriminação e ao racismo. Acreditamos que, com isso, poderemos evoluir e contribuir para a construção de uma sociedade mais inclusiva e tolerante. Nós compartilhamos do mesmo sentimento e estamos à disposição para criar um debate com a sociedade, buscando soluções para que casos como este não voltem a acontecer.”

O supermercado não respondeu a todos os questionamentos da reportagem e deixou lacunas em certas explicações frente à hierarquia entre funcionários e tratamento interno. 

Foto: Arquivo Pessoal (Gustavo Rocha)

Um dos representantes do movimento negro em Santa Maria, Gustavo Rocha comentou à reportagems sobre a importância do protesto. Segundo ele, o ato de protesto foi organizado rapidamente, por se tratar de um mês simbólico. Fator este que potencializou o movimento negro e as pessoas que apoiam a luta anti racista, para se engajarem na manifestação. “Nos últimos anos, tenho me posicionado bastante ao público, para tratar sobre estes assuntos. Consequentemente, isto trouxe à tona diversas pautas nacionais e internacionais com pedidos de respeito e luta pela resistência, o que nos marcou muito como referências neste âmbito”, retratou.

Rocha é acadêmico de Ciências Sociais na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) e integrante da Associação sobre Cultura Negra. “Muitos dos eventos promovidos por estes grupos foram cancelados devido à desestabilização emocional das pessoas, pois era véspera da consciência negra. O genocídio negro é algo que choca e abala profundamente. É triste ver que isto existe nos dias de hoje”, comentou. Segundo a fonte, os representantes do grupo receberam diversas mensagens com informações e incentivo para o protesto, que teve início por volta das 16h30, em frente ao mercado. “Tomamos a frente e coordenamos o pessoal com cartazes e gritos de ordem, e sempre alertando que era um ato pacífico. Por fim, a visibilidade da luta foi vista e respeitada, isso foi importante!”, ressaltou.

O ato reuniu várias pessoas no local, com máscaras e cuidados perante a aglomeração. As redes sociais se tornaram pilares na mobilização coletiva. “A morte dele revelou a desumanização em relação aos corpos negros, a falta de preparo dos seguranças e mais uma face do racismo estrutural no Brasil. As reações de revolta com a forma que o João Alberto foi tratado, foram imediatas, principalmente dos movimentos sociais, fazendo vídeos para as redes”, explicou Rocha.

O estudante também revelou que amigos dele pediam a manifestação de sua parte, já que, de acordo com o mesmo, “se deve colocar a cara a tapa para falar”, o que estreita um laço de conexão com o público: “Isso é importante, mas sempre alerto que todos devem combater e repudiar o racismo”. Diante de todo ocorrido, a Prefeitura de Santa Maria acabou por não se pronunciar. Para alguns manifestantes, é algo que acaba por ser negativo, deixando de prestar apoio à causa. “Já foi assim no assassinato do Gustavo Amaral, Santa Maria está deixando a desejar neste sentido. A Prefeitura não se manifestou. Gestores e representantes costumam não falar a respeito destas questões”, desabafou.

A gerente de mercearia do Carrefour Santa Maria, Natielen Souza, descreveu situações de racismo que sofreu no trabalho. A jovem revelou ter passado por situações constrangedoras e de desrespeito na empresa. Ela conta que a resistência de alguns clientes em contatar ela é aparente: “Um dia uma cliente foi entregar o currículo do filho para contratação de jovem aprendiz. Após minha colega atendê-la, a moça disse que queria falar com a responsável do setor. Ela perguntou se era eu, e eu disse que sim. Ela comentou que retornaria em outro momento. Passou uns dias e ela me questionava se realmente eu era a responsável. Eu disse que sim, e ela que não acreditava”. A jovem comentou que após a cliente se obrigar a entregar com uma expressão apavorada, tornou-se perceptível a não aceitação por parte da cliente, ao ver uma funcionária negra de alto cargo. 

A reportagem também questionou Natielen sobre o tratamento interno da empresa, bem como a hierarquia entre funcionários, porém, por meio de uma consulta com o setor de Recursos Humanos local, ela não foi autorizada a responder quaisquer informações ligadas ao Carrefour.

Relações e desdobramentos do caso

Segundo a Valor Investe, a provedora de índices de mercado S&P Dow Jones, optou por retirar o Carrefour Brasil de sua carteira do índice S&P/B3 Brazil ESG (“índice amplo que procura medir a performance de títulos que cumprem critérios de sustentabilidade e é ponderado pelas pontuações ESG da S&P DJI. O índice exclui ações com base na sua participação em certas atividades comerciais, no seu desempenho em comparação com o Pacto Global da ONU (UNGC em inglês) e também em empresas sem pontuação ESG da S&P DJI” fonte: Índice Brasil ESG). O referencial tende a alastrar o desempenho de empresas nacionais com foco particular nos critérios ambientais, sociais e de governança. 

O caso teve repercussão internacional, a ponto de chamar a atenção para o racismo no mundo. Fator que colocou em xeque a eficácia da adoção de práticas de ESG por grandes corporações. Reportagens circularam o mundo a fim de abordar o assassinato, entre elas, destacaram-se a CBC Canadá, BBC News e a BloomBerg, na América do Norte, enquanto a Reuters e a France24h tomaram as atenções na Europa. Ambos jornais interpelaram o caso de maneira respeitosa, mas não deixaram escapar o tom de desprezo pelo ocorrido. A BloomBerg foi um dos veículos norte-americanos que veio a comparar o caso com o assassinato de George Floyd.

De volta ao Brasil, especialistas da Exame certificam que o assassinato de João Alberto não foi uma tragédia pontual, já que “mostrou a falta de políticas adequadas para reprimir casos de violência e de discriminação racial”. Segundo os mesmos, palestras e workshops com normas de atuação deveriam ser obrigatoriamente fornecidos a todos os envolvidos com a empresa. “Terceirizado não é um mundo à parte. Em acontecimentos assim, vemos o nome da grande empresa, que é a marca que a gente deposita o dinheiro e a confiança”, diz Liliane Rocha, fundadora da consultoria de diversidade Gestão Kairós. Ela informa que é necessário que companhias cubram seus fornecedores e ajudem a construir um censo demográfico de educação aos funcionários, para ampliar o percentual de mulheres, negros e LGBTI+ na liderança.

A consultora sênior da Mais Diversidade, Amanda Aragão, pontuou o seguinte: “Poucas empresas fazem um trabalho preventivo com mapas de riscos. Essa é uma situação possível de prever ao fazer bons planos de ação para que isto não ocorra jamais, afinal atos que atentam contra a vida são os de maior impacto”.

Em sua matéria, a Exame ainda retoma que a formação de seguranças por firmas é falha, pois muitas redes de supermercado ou varejo têm câmeras de vigilância para apurar roubos ou outros crimes, o que impulsiona que o contato dos seguranças com suspeitos deveria ser pontual. A reflexão leva a concluir que no assassinato de João Alberto, nesse caso, a atuação dos seguranças deveria ser apenas de afastar a vítima do local.

Um dia após o anúncio de exclusão do índice de responsabilidade social da Bolsa de Valores, o Carrefour Brasil foi removido na quarta-feira, dia 9 de dezembro, do quadro de associados do Instituto Ethos, considerada uma das mais renomadas entidades de promoção de responsabilidade social no setor privado. Os dados foram divulgados pela Folha de São Paulo, o qual informou que a empresa comunicou que sua comissão interna de ética iria monitorar e reportar mensalmente os desdobramentos dos compromissos assumidos pelo Carrefour. A previsão é para que até seis meses após o atentado, a Ethos reavalie as cláusulas impostas.

Além destas fontes, diversas emissoras televisivas reportaram o caso em seus telejornais. O Grupo Globo decidiu manter alta periodicidade na abordagem do tema em seus programas. A GloboNews (1/2), G1 e o Jornal Hoje mantiveram padrão de detalhes e aprofundamento do ocorrido. Por outro lado, o noticiário do SBT, junto da Band, usaram de características mais impactantes ao proferir a informação. O UOL (1/2) e a Rede TV também noticiaram o ocorrido em suas mídias e emissora.

Brasil afora, a France24h, o GuardianNews e o AlJazeeraEnglish repercutiram o assasinato, assim como o associaram a outros casos de racismo noticiados no mundo. Ambas utilizaram de fontes locais para a construção das reportagens a serem divulgadas em seus respectivos países. O audiovisual nitidamente foi bem explorado, permitindo às imagens falarem por si só. Somente o AlJazeeraEnglish utilizou da narrativa em sua divulgação.

Reincidências do Carrefour

O assassinado de João Alberto Silveira Freitas não foi o primeiro caso que colocou o Carrefour em xeque. E o acontecido mais recente fez com que veículos de imprensa e manifestantes trouxessem à tona outros episódios marcantes que a empresa já enfrentou (ou causou) ao longo de sua história.

Outros casos de racismo já haviam sido registrados. Exemplo disso é o de Januário Alves de Santana, na época com 39 anos, que aconteceu no dia 7 de agosto de 2009, em uma unidade do Carrefour em Osasco, em São Paulo. Santana aguardava do lado de fora de seu carro, no estacionamento, quando foi agredido por cinco seguranças que alegaram ser “impossível um neguinho ter um EcoSport”. Além disso, conforme a vítima, quando três policiais militares chegaram ele explicou que os documentos estavam no carro e, dando risadas, os policiais teriam dito “sua cara não nega, você deve ter pelo menos três passagens pela polícia”. Santana fraturou o crânio, perdeu um dente e teve de passar por cirurgia. Em março de 2010, o Carrefour o indenizou em um acordo extrajudicial sem valor divulgado e rompeu contrato com a Empresa Nacional de Segurança Ltda., empregadora dos acusados.

Mais recentemente, em outubro de 2018, funcionários do Carrefour de São Bernardo do Campo, no ABC Paulista, agrediram um homem negro e com deficiência física. A vítima, Luís Carlos Gomes, contou, na época, que começou a ser seguido por um gerente de prevenção após ter aberto uma lata de cerveja antes de passar pelo caixa, em virtude do calor que fazia naquele dia. Mesmo reiterando que pagaria pelo item, ele relatou ter sido chamado de “vagabundo” e “ladrão” pelo gerente e um segurança, após questionar o motivo da perseguição. Já no caixa, explica que deixou seu cartão e documentos com a atendente e se dirigiu ao banheiro, momento em que foi golpeado com socos e chutes. Após pagar as compras, Gomes afirmou que iria procurar a Polícia para relatar o caso, quando o segurança lhe aplicou um golpe “mata leão” e o arrastou até o estacionamento, onde foi jogado no chão e ofendido com xingamentos, inclusive de conotação racial. O Carrefour foi condenado a pagar R$ 26 mil para a vítima.

A morte ignorada de um promotor de vendas também repercutiu nacionalmente, em 14 de agosto de 2020. Por volta das 7h30 daquele dia, Moisés Santos, de 59 anos, sofreu um infarto e faleceu enquanto exibia seus produtos em uma loja do Carrefour localizada no bairro da Torre, em Recife. Ele chegou a receber os primeiros socorros, mas não resistiu. A repercussão negativa se deu pela forma que a empresa tratou a morte do promotor, cercando o corpo com alguns tapumes, caixas e garrafas de cerveja e cobrindo com três guarda-sóis, sem sequer julgar necessário fechar as portas em respeito à perda. O Instituto Médico Legal (IML) o levou por volta das 12h. Odeliva Cavalcante, mulher de Moisés, afirmou em entrevista ao G1 que “seria muita coisa se eles tivessem baixado as portas, mas, no momento, não pensaram no ser humano. Só pensaram no dinheiro”.

Racismo estrutural e suas raízes

Assim como o assassinato de João Alberto está associado ao racismo estrutural, centenas de outros casos dispersados em meio ao povo, exibem o mesmo infiltrado entre as pessoas, como um todo. Nichos educacionais, políticos e culturais são exemplos de áreas duramente afetadas pelo racismo, que desde o período colonial, afeta a sociedade com violência, discriminações, desrespeitos e desigualdade.

É o que reforça a pesquisadora e pedagoga, Maria Rita Py Dutra, quando argumenta que o assassinato reflete ao racismo estrutural existente na sociedade brasileira. “Ela [sociedade] está com suas bases referenciadas na escravidão, no regime escravagista. Este regime que vem desde a ocupação do colonizador, chega aos nossos tempos. Os antigos senhores de escravos permanecem com seus herdeiros nas estruturas de poder da nossa sociedade. Eles estão no STF, defendendo e definindo a legislação, no judiciário, no MP, representando seus segmentos no congresso e no Senado. Nós precisamos resistir, nos dando as mãos para vencer esta estrutura”, explica Maria Rita.

Ela também critica o a expressão “bandido bom é bandido morto”, fazendo uma relação com o fato de que negros são vistos como ameaças, passíveis de cometer qualquer ato violento: “por meio disto, reflete-se o estereótipo de que ‘todo negro é bandido’, e automaticamente as pessoas julgam ‘legal’, a morte deste ser. A morte não reflete a educação, e sim o racismo estrutural. Podemos dizer que reflete o racismo institucional. Se nós tivessemos uma educação que valorizasse o negro, que a sociedade conhecesse nossa história, valores, seriamos mais respeitados”, pondera. 

A frase ressaltada pela política, professora e filósofa brasileira, Lélia Gonzalez, diz que “enquanto a questão negra não for assumida pela sociedade brasileira como um todo: negros, brancos e nós todos juntos refletirmos, avaliarmos, desenvolvermos uma práxis de conscientização da questão da discriminação racial neste país, vai ser muito difícil no Brasil, chegar ao ponto de efetivamente ser uma democracia racial”. Frente a esta declaração, percebe-se que, diante da resistência de parte da população mundial que age de modo conivente com o racismo, as ações e discriminações seguem se repetindo mundo afora.

Em meio a pandemia de coronavírus, o ano de 2020 ainda foi um catalisador com os problemas sociais que o Brasil já tinha, incluindo o racismo, de acordo com o historiador João Heitor Macedo, diretor do Museu Comunitário Afro Treze de Maio em Santa Maria. Ele lembra a dificuldade que os negros enfrentam na sociedade mesmo após 132 anos da abolição da escravatura. “O racismo segue forte assim como no período colonial, principalmente por falta de atuação do Estado, algo histórico, que desde o início não tem nenhuma política social negra. Quando pensamos em igualdade, pressuposto de princípios e direitos iguais, isso não acontece na imediata constituição depois de 1888 a 1891, a igualdade jurídica prevista em 1891, não dava acesso à moradia, saúde, educação. Negros e negras que ficam livres nesta época, são libertos por uma sociedade que não os aceitava, onde o mal do século era a falta de acolhida e a ocupação das periferias, locais onde o Estado não chegava. Todas estas estruturas que não foram dadas no começo do período republicano, seguiram por mais de um século de história. Hoje temos a população negra negligenciada pelo Estado, ou seja, colocou-se a população negra em segundo plano, assim como o debate racial, como se fosse um assunto que não exista no Brasil”, relata Macedo.

Ademais, o diretor avalia contorna a história e importância etnico-racial do Museu Comunitário. Foi nesta perspectiva, da idealização do Museu, que originaram-se as pesquisas para contar as histórias da população negra, diferentemente do que é contado socialmente. A trajetória do Brasil negou a questão do racismo. “Quando tratamos o assunto na Educação Básica, muita coisa é omitida, há muitos dados a serem revelados. Nós podemos aprofundar mais essas histórias, temos estas espalhadas pelo país, assim como pelo RS, onde há sociedades remanescentes de quilombos. São mais de 100 registrados e mais de 190 em processos de estudos”, frisou Macedo.

Dentro do ambiente universitário, a tese de doutorado em História de Macedo é uma pesquisa na área de patrimônio histórico voltado à educação etnicorracial, com o objetivo de lutar por uma educação superior que combata o racismo. Ele conta que seria uma hipocrisia dizer que não há racismo nas universidades, já que “elas são as referências dos europeus na América e foram feitas para educar os mesmos”. E acrescenta: “Não é comum encontrarmos o racismo em massa nas universidades públicas, mas é comum nos depararmos com barreiras contra qualquer política de permanência da população negra e de combate ao racismo. Todas as vezes que nos pronunciamos dentro do ambiente educacional, encontramos pessoas que se identificam com a postura e também muitas dificuldades. Hoje, com o Prouni, o REUNI, as cotas, o perfil dos estudantes mudou bastante, e estes que hoje protagonizam grandes debates e fazem grandes pesquisas”.

Logo, as políticas públicas tomam forma nas governanças nacionais. Estas que em meio a democracia vivenciada hoje, permeiam entre diferentes grupos étnicos. Direcionado aos direitos para a população negra, estão dentre as propostas, a lei 10.639 que prevê a obrigatoriedade do ensino da história e da cultura africana e afro brasileira no ensino; a Lei 11.000/2003 e a 11.645/2008, que dizem não só o ensino da história e afro, mas também o da história indígena. As leis educacionais são destacadas, da mesma forma, por Maria Rita, que ressalta as referências à questão indígena, mas que por outro lado, mantinha uma lacuna no currículo oficial sobre a história africana (racismo estrutural). “Para manter este ensino de qualidade, deve-se cumprir as leis, que as escolas ao invés de reproduzirem um ensino racista que classifique as pessoas entre melhores e piores (valorização à cultura eurocêntrica), mas que valorize todas as culturas, que atenda o princípio da democratização do ensino”, destacou Maria Rita.

Sabe-se que a educação passou por diversas transformações no Brasil ao longo do tempo. Desde a didática até a inclusão social, que derivada da cultura eurocêntrica, retratou por anos, um ensino direcionado às pessoas de origem ou descendência europeia, por questões de influência colonizadora. As desigualdades econômicas e educacionais apontam resquícios das referidas características. “Até 2000 nós tínhamos universidades essencialmente brancas, com menos de 2% de estudantes negros. As pessoas se acostumaram a não conviver com negros. Onde estão os negros(as) nos bancos, universidades, lojas, supermercados? Precisamos encontrar estes negros em todos os lugares”, elucidou Maria Rita. A pedagoga enfatiza também a importância da representatividade negra na sociedade: “Se nós somos 56% da população brasileira, por que não estamos nas câmaras municipais, nas assembleias, no Senado ou na Câmara Federal? Por que não ocupamos lugares de poder político? Queremos que a comunidade branca esteja ao nosso lado e à nossa frente, para que nos auxiliem na busca pela igualdade.”

Dentre a inclusão social, para permitir uma representatividade mais justa nas universidades, ainda que não compreenda proporcionalmente em relação a população geral do país, o sistema de cotas garante que muitos negros e indígenas possam ter acesso ao ensino superior. O representante do movimento negro em Santa Maria, Gustavo Rocha, avalia: “Eu vejo que, no Brasil, começou a falar-se muito sobre raça e racismo como as cotas raciais. Na UFSM, quando elas foram implantadas, houve um grande movimento contrário, por parte de cursinhos empresariais e jovens de classe média branca. Assim, começaram a surgir movimentos de resistência, em meados de 2010, como uma nova década de movimentos em Santa Maria, com celebrações e lutas por direitos. A inserção de pessoas negras na UFSM forma novas discussões e coletivos negros, o que fortifica cada vez mais esta luta. Atualmente, vejo poucos coletivos atuantes na cidade. Hoje militamos em busca de trazer estes grupos de volta. É muito necessário que estes grupos se acendam de novo e engajem-se para fortalecer esta luta”. 

Toda a luta por meio de atos e movimentos de combate ao racismo proporcionaram, até certo ponto, uma evolução na sociedade. Mas ainda há muito para progredir. Natielen Souza, gerente de mercearia, relata outro caso discriminatório que sofreu por ser negra. “Ocorreu uma vez que fui a uma loja, bem conhecida em Santa Maria, procurar uma roupa, pois eu iria abrir meu salão. Expliquei para a moça, na ocasião, que seria a abertura de um salão de beleza, e ela trouxe algumas roupas e me perguntou se eu era convidada. Antes que eu pudesse responder, ela disse: ‘com certeza tu vai trabalhar lá, né? Já vai começar trabalhando, então é melhor ir com uma roupa mais simples.’ E eu disse que não iria, pois estaria inaugurando o salão de beleza. Ela ficou em choque e perguntou duas vezes se o salão era meu e era no centro”. Incomodada com a situação, Natielen chamou o gerente e explicou que se tratava de um ato racista, já que a atendente não acreditava que ela, mulher negra, seria a proprietária.

O sistema educacional é um dos principais artefatos na conscientização sobre o que é o racismo e suas raízes. Os movimentos e as denúncias estão por todo lugar, mas muitas vezes, ignorados pelos responsáveis. Deve-se haver o questionamento sobre estas abordagens: onde estão os negros? Que espaço eles estão ocupando no trabalho? Há de haver a problematização e a transparência ao noticiar os fatos, por se tratar de um cenário de negacionismo político. Assim, consideram-se o foco na educação geral, na abertura de debates e nas políticas públicas, fatores de resolução para todo e qualquer ato racista.

*Produzida para a disciplina de Jornalismo Investigativo sob a supervisão do professor Maurício Dias

Apesar de existirem desde 1994, os mandatos coletivos não são legalizados no país. Desde 2017, uma PEC que busca viabilizar os coletivos no Poder Legislativo está parada na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara de Deputados

Denzel Valiente, Laura Gomes e Vitória Gonçalves*

Coletivos Eleitos em 2020 para o Legislativo Municipal

As instituições políticas brasileiras são consideradas as menos confiáveis pela população. Na última pesquisa do Datafolha (07/2019) sobre o tema, 58% dos cidadãos afirmaram não confiar nos partidos políticos, e 45% informaram que não confiam no Congresso Nacional. Esse cenário coloca em debate novas formas de pensar e fazer política. Uma das alternativas para essa crise da democracia representativa são os mandatos coletivos. 

Essas iniciativas aparecem no Brasil a partir de 1994. Desde então, foram 351 candidaturas coletivas nas eleições federais, estaduais e municipais, de acordo com os dados da Rede de Ação Política para Sustentabilidade (RAPS). Esse tipo de mandato é caracterizado pela atuação de um(a) parlamentar em conjunto com coparlamentares que debatem e deliberam coletivamente acerca das decisões políticas tomadas nas casas legislativas. 

Apesar do crescimento das candidaturas coletivas nos últimos anos, ainda não existe uma regulamentação na área. Em 2017, a deputada Renata Abreu (PODE-SP) ingressou com uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC 379/17) para inserir, no art.14 da Constituição Federal, a possibilidade dos mandatos coletivos no âmbito do poder Legislativo. A PEC, porém, está parada na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) desde o ano que foi proposta.

O pós-doutorando em Direito na Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões (URI), doutor em Educação nas Ciências pela Unijuí e professor do curso de Direito da Universidade de Cruz Alta (Unicruz), Domingos Benedetti Rodrigues, aponta uma razão para esse cenário. Segundo ele, a regulamentação ainda não ocorreu pois os mandatos coletivos não surtiram um efeito abrangente na sociedade capaz de efetivar uma pressão nos parlamentares brasileiros para regulamentar a questão. No entanto, o professor acredita que o cenário está mudando. “A repercussão dos mandatos coletivos e a experiência positiva que eles vão mostrar servirá de pressão para que o parlamento o regulamente”, afirma Domingos.

O professor ainda acredita que esse tipo de representação política fortalece o exercício da democracia representativa, pois, ao contrário do parlamentar que após a eleição rompe o contato com as suas bases eleitorais, as candidaturas de grupos pressupõem um estreitamento das relações de diálogo com a população. “Penso que a proposta do mandato coletivo é incipiente e está nascendo. Mas, eu diria que com o debate e o amadurecimento, a evolução do projeto vai se concretizar. A democracia não é estática, a democracia é evolutiva, e progride de acordo com as necessidades da sociedade”, reitera Domingos.

O crescimento dos mandatos coletivos pode ser observado nas eleições municipais de 2020: foram 257 candidaturas e 16 coletivos eleitos no Brasil.

Utilize a barra lateral para visualizar todos os coletivos.

*O primeiro nome corresponde à pessoa que representa o coletivo na Câmara Municipal.

Eleitos mas não regulamentados. Como será a atuação?

Na prática, apenas o titular dos mandatos coletivos atuará na Câmara Municipal. Os (as) covereadores serão nomeados (as) nos gabinetes parlamentares como auxiliares, assistentes ou assessores. Desse modo, os coletivos adotaram diferentes formas de organização com relação à gestão e à distribuição de funções e tarefas.

 A Coletiva de Mulheres (PT – SP), por exemplo, possui 18 integrantes. Na Câmara Legislativa do município de Ribeirão Preto é possível designar apenas duas pessoas para o gabinete. O coletivo nomeará, assim, duas covereadoras como assessoras. Os coletivos Nossa Cara (PSOL – CE), Candidatura Coletiva (PCdoB – RS), Nossa Voz (PT – MG) e Pretas por Salvador (PSOL – BA) também pretendem nomear os (as) covereadores (as) como assessores (as) de acordo com as cotas de cada município.

Algumas cidades permitem um número maior de pessoas no gabinete. Assim, além da representação política, os coletivos Representa Taubaté (Cidadania – SP), Nossa Cara (PSOL – CE), Bancada Feminista (PSOL – SP), e Coletivo Nós (PT – MA) planejam compor o gabinete com pessoas que não estão, necessariamente, dentro do coletivo. 

O processo de tomada de decisão também é diversificado nos mandatos coletivos. Na Coletiva de Mulheres (PT – SP), devido ao número elevado de covereadoras (18), a deliberação das decisões políticas ocorrerá por meio de votações. Já a Candidatura Coletiva (PCdoB – RS) defende uma construção ampla e plural. “Cada uma tem 1/5 da decisão nos temas que se apresentarem para votação – mas não só isso, também queremos trazer um sexto elemento para essas decisões: a opinião popular sobre cada tema”, comentam as covereadoras.

O coletivo Todas as Vozes (PSOL – SP) possui um regimento interno que estabelece o funcionamento do mandato e as tarefas desempenhadas por cada covereador (a). Segundo o coletivo, os princípios que orientam a atuação do grupo são a governança compartilhada, a participação popular e o estímulo a decisões dentro da coletividade. Na prática, os temas são discutidos e deliberados por todos (as). Além disso, pretendem debater assuntos polêmicos com a população por meio de audiências públicas, reuniões de bairro e conselhos de moradores. 

O Coletivo Nós (PT – MA) estabeleceu no estatuto do regimento do mandato um processo de tomada de decisão em três etapas. “A primeira instância de decisão são os próprios covereadores e vereadoras, que também incidirão sobre as pautas prioritárias do mandato; a segunda é a coordenação geral do Coletivo Nós, que atua para além do mandato; e um terceiro espaço são as plenárias populares nos polos, que vão ouvir as demandas das comunidades. Será apresentado na tribuna as demandas que o povo definir como prioridade”, explica o coletivo.

Além disso, o coletivo planeja propor alterações no regimento da casa legislativa para que todos (as) os (as) covereadores (as) tenham direito de falar na tribuna e participar das comissões especializadas. Outro coletivo que já relata intenções de indicar mudanças na Câmara Municipal é o Nossa Voz (PT – MG). Para o coletivo, os discursos da pauta do dia podem ser escritos por qualquer um dos quatro covereadores, assim como, durante as votações podem ser utilizados termos como “após deliberação do Coletivo, entendemos que sim/não”, ou “eu co-vereadora Andressa, voto junto aos covereadores Bruno, Hernane e Priscila que sim/não”.

O professor Domingos entende que a regulamentação dos mandatos poderia auxiliar nessas questões reivindicadas pelos coletivos. Contudo, a Lei nº 9.504/97, que estabelece as normas para as eleições, ainda não incorporou essas novas demandas. “Para que a candidatura seja aceita, deve ser uma candidatura única, de apenas uma pessoa. O mandato coletivo é um grupo de pessoas que escolhem e candidatam um membro do grupo, registram ele em um partido e realizam a candidatura. Mas, legalmente apenas um candidato participa”, sinaliza Domingos.

Outra questão presente no debate é referente aos salários. Alguns grupos eleitos este ano propõem a divisão do salário do parlamentar entre os (as) membros (as) do mandato coletivo. A Coletiva das Mulheres (PT – SP) lembra que a divisão de salário é considerada crime, dessa forma, apenas a vereadora titular vai receber o salário integralmente. O coletivo Nossa Cara (PSOL – CE)  relata que apenas a representante Adriana Gerônimo receberá o salário como vereadora, e o restante como assessoras parlamentares. Além dos coletivos que não definiram qual será a remuneração de cada representante (3), outros afirmaram que o salário não será compartilhado (3).

Uma solução que busca contemplar todos (as) foi adotada pelo coletivo Todas as Vozes (PSOL – SP), composto por nove pessoas. Cinco covereadores (as) serão nomeados (as)  para o gabinete do vereador. “Equiparamos ao máximo o salário das pessoas que atuam dentro da Câmara, que originalmente não são iguais, e ainda remuneramos mais três pessoas. Vale ressaltar que no nosso caso serão seis pessoas na Câmara (trabalhando 40hs semanais) e três pessoas alocadas nos bairros (trabalhando 20hs semanais), portanto elas receberão um salário menor”, explica o coletivo.

O Representa Taubaté (CIDADANIA – SP) afirmou que não haverá divisão de salário da vereadora, cada um (a) terá sua função e serão contratados (as) como funcionários do gabinete. O mandato também verifica possibilidades, dentro da legalidade, para tornar essa questão mais igualitária possível. O coletivo Pretas por Salvador (PSOL – BA) pretende usar a verba para fazer o pagamento dos funcionários, enquanto as duas principais representantes receberão o salário igualitário. 

A Coletiva Bem Viver (PSOL – SC) relatou que o salário da parlamentar será dividido entre as cinco covereadoras da mesma maneira. O grupo Fany das Manas (PT – PE) pretende dividir o salário igualmente entre a representante e as assessoras. Embora a intenção da divisão dos ganhos seja manter os parâmetros igualitários dos coletivos, a partilha salarial é considerada um esquema de rachadinha, na qual ocorre uma transferência de parte ou de todo salário do servidor para o parlamentar ou secretários a partir de um acordo anteriormente estabelecido. 

Segundo o professor Domingos Benedetti, a lei proíbe que o parlamentar eleito pela teoria do mandato coletivo divida o seu salário entre correligionários. “Ele vai ter o número de assessores que é permitido por lei, que irão receber o salário do parlamento”, relata o professor. Ele também reforça que o papel dos assessores é desenvolver funções de assessoramento ao desenvolvimento do mandato parlamentar. Mas apenas um candidato vai subir na tribuna, para defender e apresentar o projeto de lei. 

Por questões legais, a partilha de salário deve ser analisada juridicamente visto que há diversos casos ilegais em relação a divisão salarial. Assim, a questão pode causar confusão entre o que é ou não legal por parte dos tribunais eleitorais. Por outro lado, os custos de campanha eleitoral são regulados pela legislação eleitoral, sem grandes complicações do ponto de vista da estratégia de compartilhamento dos gastos. 

Embora os mandatos coletivos não sejam regulamentados juridicamente no Brasil, o método tem pretensões de alcançar outros níveis institucionais e se fortalecer no legislativo. Para o professor Domingos Benedetti, a proposta oferece um grande exercício de democracia participativa e contribui com a reaproximação dos desejos da população aos espaços institucionais.

Espaço das mulheres

O crescimento dos mandatos coletivos nas eleições acompanhou a luta pelo espaço das mulheres na política, que, nas últimas eleições foram eleitas nas Câmaras Municipais de todas as capitais do país. Apesar disso, a maior parcela da população feminina permaneceu ausente no Legislativo municipal de 17% dos municípios brasileiros, segundo o levantamento do Instituto Update

Por outro lado, os mandatos coletivos avançam na questão da representatividade. Ao todo, 93 pessoas compõem os 16 grupos eleitos. Destes, 71 são mulheres e 22 são homens. Apenas um coletivo não possui mulheres na composição. As mulheres ainda estão à frente da representação parlamentar em 13 coletivos. 

Disposição geográfica

A região sudeste concentra a maioria dos mandatos coletivos (oito). Em seguida, vem a região nordeste com eleição de quatro coletivos. No sul, três Câmaras Municipais serão ocupadas por coletivos. Na região centro-oeste, apenas um coletivo foi eleito. No nordeste, a reportagem não encontrou coletivos eleitos.

O que defendem?

Quando o assunto são as bandeiras defendidas pelos coletivos, todos possuem diversas frentes de atuação. Entre as pautas mais frequentes estão a defesa dos direitos das mulheres, da educação, da cultura, da população negra e periférica e LGBTQIA+. 

No nordeste, que em 2017 era a região com maior número de homicídios no Brasil segundo o Atlas da Violência – levantamento de homicídios relatados pelo Sistema Único de Saúde (SUS), pautas com o enfrentamento a violência contra a mulher e ao extermínio da juventude negra se destacam em comparação às outras regiões. Os coletivos Pretas por Salvador (PSOL – BA), Fany das Manas (PT – PE) e Nós (PT – MA), possuem entre suas bandeiras de luta o combate a violência e a defesa dos direitos das populações, o que evidencia uma realidade enfrentada na região.

Além disso, pautas relacionadas à gestão das cidades, meio ambiente e agricultura familiar estão presentes tanto nos coletivos da região nordeste como nas regiões sudeste e sul.

A reportagem entrou em contato com todos os coletivos eleitos. 12 retornaram e quatro não haviam respondido até o encerramento da matéria: Teremos Vez (RS), Mandato Popular Coletivo (SP), Quilombo Periférico (SP) e Mandato Coletivo de Machado (MG). 

*Reportagem produzida para a disciplina de Jornalismo Investigativo sob a orientação do professor Mauricio Dias

 

A fábrica que reabriu no ano da pandemia já enfrentou problemas sérios, inclusive uso de insumos baratos que alteraram o sabor 

Joedison e Matheus Avello*

A Cyrilla foi inaugurada em 20 de setembro de 1910 em Santa Maria, Rio Grande do Sul, e fica localizada na rua Marechal Deodoro, número 50, bairro Itararé. Foi fundada pelo alemão Frederico Adolfo Diefenthaler em sociedade com o químico Ernest Geys, e teve a finalidade de produzir águas minerais, refrigerantes, licores e outras bebidas alcóolicas.

Ao longo dos seus 110 anos a indústria viveu vários altos e baixos. Teve sucesso em vendas, mas também momentos difíceis. A empresa pecou em más administrações, que não souberam lidar com problemas fiscais, com a concorrência, que provocaram a falência em 2008. Mesmo com tudo isso a fábrica conseguiu dar a volta por cima e reabrir em 2020.   

As dificuldades ao longo da existência e a falência em 2008

A fábrica encerrou as atividades, em 2008, por problemas diversos, como endividamentos relativos a impostos, dificuldade financeira, problemas de mercado e má administração. “O último proprietário foi meu pai, Antonio Gilberto Correa que começou a trabalhar na Cyrilla como funcionário no ano de 1971”, afirma Tiago Correa.

Tiago conta que o auge das vendas da marca foi na década de 1970 e que ao longo dos anos a empresa passou por vários problemas. “A família Diefenthaler administrou a fábrica até início dos anos 1980, passando por três gerações familiares. Nos anos 1980, a Cyrilla passou por problemas familiares. Não sabiam se iam vender a empresa ou simplesmente fechar as suas portas”, conta. “Foi aí que ofereceram para meu pai um percentual para ele administrar a empresa e ele tentar virar o jogo”, complementa Correa.

Entre os anos 1980 e 1990, a empresa conseguiu alavancar suas vendas. Aos poucos Antônio Gilberto Correa comprou a parte dos outros sócios. Correa ficou à frente da empresa até 2008, quando fechou. Os problemas  começaram a aparecer em 1994, quando surgiu a garrafa PET. A fábrica parou de produzir o vidro e já não conseguia mais fazer o guaraná Cyrillinha como era antigamente. A partir daquela década surgiram problemas fiscais e concorrência com outras marcas mais baratas.

Nos anos de 2002 e 2003, a fábrica vendia seus produtos para todo o Estado, tinha produção 24h por dia, porém, havia um contratempo de problemas fiscais somado à má administração. Tiago informa que naquela época aumentaram as dificuldades por conta de 49 fábricas de refrigerantes existentes no país que não mantinham um padrão e produziam os produtos de má qualidade, bem mais baratos que a Cyrilla. “Como a Cyrilla tinha um custo mais caro, não podia competir. Não conseguia vender. Logo não possuía mais capital. Com isso, ela foi se descapitalizando junto com interferências fiscais que fizeram a fábrica fechar suas portas de vez no ano de 2008”, admite Tiago Correa.

 

O relato de um ex-funcionário

A empresa vendia muita mercadoria para os supermercados do Estado. Porém, às vezes as lojas não vendiam tanto, e os produtos acabavam voltando para as trocas, o que acarretava em perda de receita. “Seu Gilberto era um bom patrão e uma excelente pessoa com seus funcionários e clientes. Seu único defeito era não saber administrar, já que, gastava muitas vezes mais do que realmente ganhava de vendas e obtinha lucro”, assegura Onofre Lopes de Almeida ex-funcionário da empresa.

“Trabalhei na fábrica entre os anos de 1997 e 2008. Durante este período, a Cyrilla passou por fases difíceis”, comenta. O ex-funcionário revela que nos últimos anos houve troca de insumos, que alteraram o sabor dos refrigerantes. “A empresa, na época, trocou algumas coisas de sua composição química que estavam muito caras por outras mais baratas, o que ocasionou em um refrigerante mais aguado, com menos gosto e pouco gás. Isso na época deu um baita problema, pois a empresa recebeu várias ligações de reclamações, o que gerou várias trocas de refrigerantes”, lembra.

Os consumidores não aceitaram as bebidas mais aguadas e com menos gás. “No fim, a empresa tentou economizar na produção, mas acabou gastando ainda mais, já que, o refrigerante mais barata gerou trocas. Foi um período em que a fábrica teve mais prejuízo. Salários atrasados de funcionários e problemas trabalhistas começaram a aparecer entre 2007 e 2008, o que logo levou seu Gilberto Correa fechar as portas da empresa”, declara o ex-funcionário.

Segundo o ex-funcionário, a Cyrilla entregava refrigerantes em todas as cidades do Rio Grande do Sul. Os supermercados que mais vendiam Cyrilla aqui em Santa Maria eram o Beltrame da rua Euclides da Cunha, Big da Fernando Ferrari, Nacional do centro e Avenida Medianeira e a Rede Vivo. Em 2008 Onofre teve que sair da empresa, devido a um acidente de moto no bairro Itararé, no trevo onde fica a igreja Santa Catarina. “Estava a trabalho no momento do acidente, mas não consigo me lembrar do exato momento do acidente, apenas sei por laudos e dados levantados pela polícia”. “Após o acidente fiquei um bom tempo internado, pois tive traumatismo craniano e também fiquei com sequelas, passei a ficar com a memória curta, assim como lembro das coisas, logo esqueço”, informa Lopes. 

O amor e carinho por quem é fã da marca

 

Morador desde que nasceu no bairro Itararé, Jorge Ademir Rosa Pereira, 56 anos, conta que nos anos 80 e 90 vendia-se bastante refrigerante na empresa. Os moradores do bairro todo consumiam apenas Cyrilla. “Temos que valorizar a marca, porque é um produto nosso produzido aqui na cidade, os refrigerantes Cyrilla são produtos bons, suave e que devem ser mais valorizados por todos daqui, ao invés das população da cidade dar lucro a empresas de fora como a Coca-Cola, por exemplo”, comenta. “Não podemos deixar a indústria fechar suas portas novamente”.

“A Cyrilla faz lembrar-me da minha infância que sempre tinha refrigerantes Cyrilla nas festas aqui em casa, ou nos encontros com a família. Bebíamos Cyrilla também em bares que ficavam próximos a Gare, além de encontros com amigos, vizinhos e familiares que sempre tinham algum sabor de refri da marca”, menciona Pereira. Recordo bastante da Cyrillinha que era feita da casca da laranja e era o sabor que a gente mais tomava aqui em casa”.

Amancio D’Jalmo Aires Rodrigues, aposentado, 71 anos conta que quando bebe os refrigerantes da cyrilla relembra da sua infância e juventude, em especial um momento em que vivenciou quando tinha em torno de 10 ou 12 anos. “Nunca vou me esquecer daquela cena, estava assistindo uma corrida de cavalo (corrida de apostas) na minha cidade, Formigueiro e estava um calor insuportável e eu estava sem dinheiro para comprar o meu refrigerante favorito a gasosa limão da Cyrilla”. “Então um senhor que havia postado em um cavalo na carreira me viu e disse que daria uma gasosa limão para mim, caso o cavalo dele vencesse a carreira, e foi o que aconteceu. Após o final da corrida aconteceu uma tremenda briga, entre aqueles que perderam suas apostas, era gente correndo para todos os lados, queria sair dali, mas, não queria perder a chance de ganhar o meu refrigerante preferido. Peguei e me escondi em um cantinho e logo que acabou a briga, o senhor que me prometeu a gasosa cumpriu sua palavra e eu pulei de alegria”, declara Rodrigues.

A volta por cima

No momento, a Cyrilla pertence a três empresários, Lairton Pedro Padoin, dono dos postos Padoin, José Antônio Saccol, proprietário da Minami (Honda) e Luiz Antônio Marquezan Bagolin. “No início, só existia o sabor guaraná, mas com o passar do tempo foram produzidos novos gostos, como por exemplo: a gasosa limão e a cyrillinha. Uma bebida na cor alaranjada transparente, produzida a partir do óleo da casca de laranja, afirma Luiz Marquezan Bagolin, hoje sócio administrativo da fábrica.”

Com intuito de não deixar uma marca centenária morrer, Bagolin conta que ele e os demais sócios trabalharam duro ao longo dos últimos anos para reabrirem a empresa novamente no ano de 2020. Com o apoio da prefeitura, o prédio e a marca, que estava em leilão com a Justiça Federal, foram adquiridos. Todos os equipamentos foram adquiridos novos com a mais moderna tecnologia do mercado atual. Além disso, foi realizada uma reforma de obra civil na sede da empresa. Foi planejado aproveitar toda a estrutura imobiliária, porém o prédio era muito antigo, o que levou a ser reaproveitado apenas a fachada com o design clássico. Foram feitos dois andares e dois pavilhões novos. Para a parte elétrica teve que fazer subestações, todas em inox. Diferente de antes, os pisos foram feitos sem degraus, o que facilita o trabalho dos funcionários que utilizam empilhadeiras e paleteiras. 

A empresa possui duas fontes de água ainda originais da antiga fábrica. Águas com ph 7.1, mineral utilizada para o consumo industrial e uma fonte gaseificada é a água diamantina, vendida em vários supermercados da cidade e também utilizada na produção de todos os refrigerantes. A fábrica trabalha apenas com produtos que na época eram de maior demanda, mas o objetivo da companhia é logo apresentar novos sabores de refrigerantes.

 

O futuro da Cyrilla

 

O atual sócio proprietário da Cyrilla, Luiz Marquesan Bagolin relata que o sabor uva já está sendo desenvolvido na empresa e daqui uns dias já estará à venda e que refrigerantes para o público infantil também vêm sendo planejados para desenvolvimento, além da produção da opção zero açúcar. A ideia de fabricar águas saborizadas para o futuro, já que é considerado um produto que está em alta no mercado, bem como a produção de bebidas alcoólicas, como vodkas, gins e licores, estão sendo pensados, afirma o sócio administrativo.

 

Porque uma empresa centenária e uma marca tão querida pelos santa-marienses não consegue manter as portas abertas. Será que agora é a vez da empresa emplacar?

 

O que todos queremos saber é se a Cyrilla conseguirá daqui para frente seguir firme, fazer uma boa administração ao contrário das anteriores. A empresa terá dinheiro suficiente para aumentar sua gama de produtos e capital para alcançar várias cidades e regiões do Estado e quem sabe País?

 

São muitas incertezas que ainda perduram sobre a fábrica, a questão também do seu preço que é bem elevado, quase o valor de refrigerantes da Coca-cola e da Pepsi, que são produtos de alta qualidade. Será que a empresa não deve baixar um pouco o valor de seus produtos para assim ficar na concorrência com outras marcas menores, como Fruki e Sarandi? 

O que vai ser da empresa nos próximos anos ninguém sabe, mas espera-se que consiga manter-se e assim valorizar o nome da cidade de Santa Maria e o Estado do Rio Grande do Sul, além de que pode ser no futuro uma enorme fonte de novos empregos e de várias áreas de atuação dentro da empresa.

 

Um pouco da história da fábrica 

A Cyrilla foi inaugurada em 20 de setembro de 1910 em Santa Maria, Rio Grande do Sul e é uma das indústrias de refrigerantes mais antigas do País. Foi fundada pelo alemão Frederico Adolfo Diefenthaler em sociedade com o químico Ernest Geys, e teve a finalidade de produzir águas minerais, refrigerantes, licores e outras bebidas alcóolicas.

A marca foi uma das pioneiras no envase do guaraná, sendo um dos primeiros refrigerantes desse sabor no Brasil. Sua fórmula foi produzida no ano de 1905 pelo médico Luiz Pereira Barreto, na cidade de Resende, no Rio de Janeiro. Porém, ela  só passou a ser utilizada em 1910 em Santa Maria, após ser adquirida e registrada por Diefenthaler e Geys.

A indústria foi instalada no bairro Itararé, próximo ao centro da cidade, ficando também a poucos quilômetros dos trilhos da Viação Férrea, onde passavam muitos viajantes e turistas de vários lugares do País. Fator que foi importante para o destaque da empresa, que pode divulgar e vender o guaraná. Com popularidade elevada, Cyrilla foi a pioneira na cidade se tratando da industrialização de bebidas, e uma das mais importantes e representatividade na região central do Rio Grande do Sul.

O Livro de Cirilo Costa Beber, “Santa Maria 200 anos: história da economia do município”, fala que o desenvolvimento do bairro Itararé se deu em virtude da ferrovia instalada na cidade e também da Fábrica da Cyrilla. A empresa apresentou muita influência ferroviária já que, na época era muito utilizada por viajantes, turistas, militares e imigrantes alemães e italianos, além de meio de transporte de produtos plantados aqui que eram comercializados para várias cidades do País. 

Santa Maria tinha a maior parte de seu capital econômico vindo da agropecuária e do setor de serviços, com destaque para o comércio, o que ajudava muito aos habitantes a consumirem os produtos locais. A cidade foi um dos principais centros da Viação Férrea do Rio Grande do Sul (VFRGS). Possuía na época e, ainda possui um grande contingente militar, segunda cidade com maior contingente de militares do Brasil, além de estar posicionada geograficamente no centro do estado do extremo sul do Brasil e, assim, próximo da Argentina e do Uruguai.

Foto: Adri Junges

“Ela gritava atrás de mim como um general enquanto eu atendia os clientes no caixa ‘Vamos! Vamos! Agilidade! Agilidade! Tu é muito lerda!’ e eu tremia de nervosa, pois era meu primeiro dia de trabalho e ainda estava aprendendo o sistema da loja. Quanto mais ela gritava, aumentava meu nervosismo e eu me travava, as filas aumentavam e a loja virava um verdadeiro caos. Sentia-me pressionada e com medo de tirar dúvidas, pois sabia que ao perguntar ia ser repreendida por isso. Porém, tinha medo de cometer erros e ser repreendida também, cena que acontecia na maioria das vezes frente aos clientes me deixando constrangida. Fui proibida de ir ao banheiro e até de me alimentar no intervalo por implicância. Se dava algum erro no caixa no final do dia, ouvia insinuações de roubo, sendo que tinha câmeras por todos os lados. Não podíamos nem atender o celular em situações de emergência, e éramos punidos até mesmo se ele vibrasse no armário. Eu chegava em casa após o trabalho e só sabia chorar. Ter que ir para o serviço no dia seguinte era uma verdadeira tortura.’’(Ex-funcionária de loja em São Pedro do Sul)

Trabalhar, para muitos, pode ser considerado um momento de prazer e bem-estar. Para outros, é apenas uma maneira de suprir as necessidades financeiras. De todo modo, há um consenso: trabalhar não deve ser uma tortura. O momento de trabalhar, mesmo que não seja na tão sonhada vaga, deve estar baseado na boa convivência e em condições adequadas de trabalho, tanto físicas, quanto psicológicas. Em uma relação profissional existe uma hierarquia entre empregados e empregadores. No entanto, o poder dos cargos de chefia no ambiente de trabalho não deve ultrapassar os limites do respeito, da moral e da ética.

Conscientes da necessidade financeira dos funcionários, muitos empregadores submetem a equipe a situações que caracterizam dano moral, o que engloba a lesão direta à dignidade da pessoa humana: ofensas ou violação dos bens de ordem moral que se referem à liberdade, à honra, à saúde – mental ou física – e a imagem, resultando em modificações profundas no estado psicofísico e espiritual do trabalhador. O Ministério Público do Trabalho (MPT) aponta que dentre os principais motivos para a prática do assédio, está a competição exagerada, unida à necessidade de aumentar a produtividade, a tentativa de forçar pedido de demissão, o desejo sexual não correspondido e a necessidade de autoafirmação do chefe. O rebaixamento moral está refletido em atitudes de humilhação, ofensas, pressão psicológica, cobrança excessiva e, até mesmo, assédio sexual/físico, fazendo com que aconteça o famoso “não aguenta, pede para sair!”.

De acordo com a Justiça do Trabalho de Santa Maria, no período de 2017 a 2019, os números de processos registrados no Foro Trabalhista da cidade se aproximam de 530 casos: 326 em 2017, 107 em 2018 e 96 até julho de 2019. Os dados foram fornecidos pelo Tribunal Regional da 4° Região (TRT4) e, independente da sentença, os processos referem-se a pedidos – principais ou não – de indenização por dano moral, o que engloba qualquer tipo de ato discriminatório, assédio moral e assédio sexual no ambiente de trabalho. Além de São Pedro do Sul, a Justiça do Trabalho de Santa Maria atende mais 19 municípios da região.  É de responsabilidade do Órgão processar e julgar ações de indenização por dano moral ou patrimonial, decorrentes da relação de trabalho e ações relativas às penalidades administrativas impostas aos empregadores pelos órgãos de fiscalização das relações de trabalho.

Em São Pedro do Sul, o assédio moral tem feito parte da rotina de muitos funcionários, principalmente para os que prestam serviços no comércio, alocados em um cargo de baixo grau hierárquico na empresa. A ex-funcionária de uma loja de rede em São Pedro do Sul, que atuava como auxiliar de vendas, relata ter sofrido assédio sexual vindo do próprio gerente durante os poucos meses em que permaneceu no emprego. Ela percebia que o tratamento que recebia se diferenciava do das demais colegas. Mas a situação só chegou ao extremo quando ele, de fato, a tocou. “Eu subi numa escada para pegar a mercadoria, quando menos espero ele me abraça por trás. Outro momento foi quando eu estava andando e ele puxou o cós da minha calça para olhar minha calcinha. Senti repugna, mas na hora não consegui reagir’’. Após um desabafo com as colegas, a história se espalhou pelo ambiente de trabalho fazendo com que o gerente ficasse sabendo dos comentários. “Ele me chamou para uma conversa na qual me acusou de mentirosa e quando, na sequência, precisei sair atender um cliente, ele veio até mim me repreender na frente das pessoas, deixando todos a par do acontecido, causando constrangimento’’, relata a ex-funcionária, que prefere não ser identificada.

O assédio sexual no ambiente de trabalho pode resultar em penalidade de um a dois anos de detenção, visto que lei fixada no art. 216 A do código penal caracteriza como assédio o fato de: “Constranger alguém com o intuito de obter vantagem ou favorecimento sexual, prevalecendo-se o agente da sua condição de superior hierárquico ou ascendência inerentes ao exercício de emprego, cargo ou função.’’

Outro estabelecimento, também localizado no centro da cidade, é conhecido por fazer “rodízio’’ de funcionários. A fama é de que poucos empregados permanecem por mais de 6 meses, e outros já são demitidos assim que acaba o período de experiência, que não deve exceder 90 dias. Os relatos denunciam a má conduta da gerente com a equipe: ofensa e humilhação frente aos clientes, desvio de função e cobrança excessiva. “Quando acabou o contrato de experiência fui descartada sem um motivo real, alegando que eu questionava demais as regras da loja’’, conta a ex-funcionária, que diz ter conhecimento da legislação trabalhista e que sempre questionava quando algo não estava certo.

A reportagem entrou em contato com cinco ex-funcionárias do comércio local que sofreram abuso moral e sexual. Apenas três delas aceitaram falar a respeito e nenhuma efetivou uma denúncia por medo de não conseguir outro emprego na cidade.

Abuso moral e os danos à integridade psíquica

Imagem de mohamed Hassan por Pixabay

“Pisar naquela loja me causava pânico. Fiquei tão traumatizada que após eu sair de lá não me encorajava de procurar outro emprego. A situação me prejudicou nas minhas relações pessoais e profissionais”, desabafa a trabalhadora. A conduta abusiva do empregador com a equipe contribui para a retração de diálogo, a má convivência e a formação de um ambiente hostil de trabalho, o que atrapalha o andamento da empresa e adoece psicologicamente os funcionários. Desânimo, transtornos de ansiedade, baixa autoestima, dificuldades nos relacionamentos, esgotamento, bloqueios e sofrimento psíquico podem ser algumas das consequências do abuso.

A psicóloga Lisiane Cassales – que atua clinicamente com avaliação e orientação profissional-, explica que as atitudes abusivas se manifestam em gestos, palavras e comportamentos que geram um desgaste da dignidade física e psicológica do trabalhador, o que acaba por afetá-lo não apenas profissionalmente, mas também nas relações e desenvolvimento pessoal, colocando em risco a própria integridade. “Talvez seja o momento de identificar o quão saudável é permanecer nesse contexto. O dinheiro é importante uma vez que vivemos num mundo capitalista, mas quanto vale a sua saúde?’’, ressalta a psicóloga.

Um líder negativo e, provavelmente autoritário, a ponto de agir de tal forma pode acabar sendo intimidador, e um bom diálogo nem sempre resolve. Quando as tentativas de melhorar a relação forem inúteis, a alternativa é romper o vínculo e buscar ajuda fora do ambiente de trabalho. Para Lisiane, o tratamento depende do quanto se afetou no íntimo do sujeito. Em alguns casos poderá ser importante um tratamento combinado entre psicoterapia e psicólogo, juntamente com um acompanhamento psiquiátrico para o uso de medicação. ‘’O mais importante é trabalhar essas questões para que o sujeito se reconheça, se valorize e não permita que algo semelhante volte a lhe acontecer’’, finaliza Lisiane.

Medo e insegurança: quem defende o trabalhador?

Por trás do funcionário moralmente ferido, existe uma casa, uma família e filhos que dependem daquele salário, o que força – na maioria das vezes – o trabalhador a permanecer no emprego e a não denunciar. Dentre os direitos fundamentais estabelecidos pela Constituição Federal, estão o respeito à dignidade da pessoa humana e a sua intimidade, expressos no Art. 5º, incisos, III, V e X: “Ninguém será submetido à tortura nem a tratamento desumano ou degradante; É assegurado o direito de resposta, proporcional ao agravo, além da indenização por dano material, moral ou à imagem; São invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas, assegurado o direito à indenização pelo dano material ou moral decorrente de sua violação.” Porém, na prática, a legislação é desrespeitada com frequência, principalmente dentro das grandes empresas, em que os funcionários são facilmente substituídos, consequência da alta demanda de desempregados à procura de uma oportunidade. O fator agravante, principalmente em municípios de pequeno porte como São Pedro do Sul, é o receio do empregado em efetivar a denúncia por medo de denegrir sua reputação como trabalhador na cidade.

Conforme a advogada Márcia Moraes, que atua com casos trabalhistas na cidade, a opção mais viável de denúncia é por meio de uma reclamatória trabalhista, – ação judicial movida pelo empregado contra a empresa, que visa resgatar direitos decorrentes da relação de emprego, que se inicia através da Justiça do Trabalho, mediado por um advogado. Mesmo que protegido por leis trabalhistas, o funcionário ainda está em desvantagem quando o assunto é recuperar os danos causados em forma de indenização. Para além da exigência de provas e testemunhas que comprovam o fato, a não-denúncia é motivada também pelos baixos valores da indenização que, dependendo da gravidade do caso, não ultrapassam 2.000 reais.

Para Márcia, os pedidos de acusação por dano moral em sua grande maioria são negados devido à dificuldade na produção de provas, que podem ser as imagens das câmeras de segurança da empresa, – que dificilmente os proprietários irão fornecer -, ou imagens feitas do celular de alguém. Testemunha é uma boa ferramenta, se não fosse a dificuldade de encontrar alguém que queira falar. “Existe a chance de algum cliente que presenciou o fato aceitar testemunhar, porque raramente os colegas vão se comprometer e possivelmente se prejudicar no atual ou nos próximos empregos”, conclui a advogada.

Em função da falta de recursos financeiros, muitos funcionários feridos moralmente acabam procurando o Ministério do Trabalho de Santa Maria para denunciar. Porém, o órgão do Governo Federal atua apenas com flagrante no momento da fiscalização e o funcionário que denunciar precisa ainda estar veiculado a empresa. Conforme Cezar, auditor fiscal do Ministério do Trabalho de Santa Maria, são vários os tipos de abuso moral possíveis no ambiente de trabalho. Contudo, cabe ao órgão apenas identificar o ato ilícito a partir de uma constatação física no momento da fiscalização. “Por exemplo, é cabível de providências se no momento da fiscalização for flagrado um funcionário sem condições físicas de trabalho, como sem luz, sem computador ou sentado no chão. Humilhações e ofensas não se enquadram, pois obviamente o empregador não cometerá o ato na frente do auditor”, explica o fiscal. Provas documentais ou testemunhais servem apenas para fins judiciais, em que o empregado inicia uma ação contra empresa.

O assédio moral prejudica a saúde mental de mais de 20% dos trabalhadores. No entanto, este cenário pode melhorar visto que em março deste ano a nova lei aprovada pela Câmara dos Deputados configura como crime ato de ofender reiteradamente a dignidade de alguém, causando-lhe dano ou sofrimento físico ou mental no exercício de emprego, cargo ou função. A lei, que ainda aguarda a apreciação do Senado Federal, prevê detenção de um a dois anos, em que pode ser aumentada em um terço se a vítima tiver menos de 18 anos. Para denúncias ao Ministério do Trabalho de Santa Maria, o atendimento é realizado de segunda a sexta-feira, na parte da manhã e por ordem de chegada. Diga “não” ao assédio moral. Não se cale. Denuncie!

Texto produzido por Andriele Hoffmann, na disciplina de Jornalismo Investigativo do Curso de Jornalismo da Universidade Franciscana, durante o 1º semestre de 2019. Orientação: professora Carla Torres.

Há uma semana, publiquei aqui uma hipótese improvável. Os vazamentos da Lava Jato, no site The Intercept Brasil, poderiam ser obra de alguém que esteve presente nas conversas ou teve acesso a elas, mas estava insatisfeito.

Agora, um grupo fechado no WhatsApp revela um nome. Diogo Castor de Mattos, paranaense de 32 anos, seria o ex-procurador da República descontente, homem que teria (até onde se sabe) a confiança de Deltan Dallagnol, acesso às importantes informações e aos chats.

Diogo Castor de Mattos ao lado de Deltan Dallagnol em foto publicada no dia 6 de março no Facebook do, então, procurador da Lava Jato. A saída seria por estafa física e mental. Foto: Reprodução/Facebook.

Seus irmãos, os advogados Analice e Rodrigo Castor de Mattos, donos de um escritório, estariam sendo investigados por extorsão, em casos de delações premiadas. Só um dos clientes de seu irmão Rodrigo teria pago 30 milhões de reais à banca. Diogo, por tabela, também estaria sob a lupa.

Em abril, o Conselho Nacional do Ministério Público aceitou pedido do ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal, para instaurar reclamação disciplinar contra ele. Mas não consta, até agora, algo ilegal que tenha sido comprovado contra o procurador.

“Trata-se de fake news o conteúdo que vem sendo compartilhado por meio de grupos de WhatsApp e publicados em alguns blogs que mencionam a atuação do procurador da República Diogo Castor de Matos como suposto autor de hackeamento de mensagens atribuídas à força-tarefa Lava Jato em Curitiba”, afirma nota da Lava Jato divulgada hoje.

O assunto Diogo Castor Mattos foi tratado de forma isolada em pelo menos nove reportagens e artigos de diversas fontes diferentes, como o ConjurO Estado de S.PauloO GloboFolha de S. PauloDiário do Centro do Mundo, entre outros. Mas o quebra-cabeça tem muitas peças soltas ou que não se encaixam totalmente.

O esquema, que chegaria ao TRF-4, envolveria ainda Maurício Gotardo Gerum, subprocurador e primo dos advogados. Diogo teria pedido afastamento da operação, também em abril deste ano, por “estafa física e mental“. Em nota, a força-tarefa “agradece a Diogo Castor pelos cinco anos em que se dedicou, com excepcional esforço, às investigações da Lava Jato.”

No dia 11 de abril de 2018, no plenário do STF, o ministro Gilmar Mendes chegou a falar em corrupção na Lava Jato, o que fez a força tarefa emitir nota, defendendo o procurador da República.

Ricardo Mendes é jornalista investigativo e consultor internacional. Autorizou que a ACS reproduzisse seus textos publicados originalmente na sua página na plataforma Medium.

Não vou escrever um texto de muitos parágrafos, porque o que há para ser dito pode ser resumido em algumas poucas palavras. Haverá muito que ler hoje e surgirá muito mais nos próximos dias, como nos revela o jornalista Glenn Greenwald, um dos fundadores do The Intercept Brasil.

O pacote que ele publica das conversas entre procuradores da Lava Jato e Moro saiu de um aplicativo chamado Telegram, inventado por Nikolai e Pavel Durov. Ele é uma espécie de WhatsApp menos popular aqui no Brasil, embora muito mais potente. Um dos destaques da ferramenta russa é a sua capacidade de autodestruir mensagens em chats secretos.

Pavel Durov, inventor do Telegram, em evento de tecnologia em Berlim, 2013. Foto: CC BY 2.0, Wikipedia.

O autor das mensagens pode, por exemplo, programar quantos segundos o texto ficará ativo antes de virar “pó” na internet. As mensagens também são encriptadas. O foco do Telegram é privacidade e segurança e isto já gerou problemas legais na Rússia, no Irã e em outros lugares do mundo. Mas não há relatos de que o aplicativo, ou algum hacker, tenha vazado informações de conversas.

Uma possibilidade bastante concreta, é que um dos participantes dos grupos tenha documentado os chats por algum motivo e os entregou ao The Intercept. Outra, menos provável, é que os usuários não tenham conversado em um chat secreto nem destruído as mensagens. Mas, ainda assim, restaria a dificuldade de extraí-las do app.

Pergunta: quem entregou as mensagens para o The Intercept? Resposta provável: uma pessoa que estava em todos os chats.

Moro, Dallagnol e D’artagnan

O Ministro da Justiça e ex-juiz Sérgio Moro, assim como Deltan Dallagnol, procurador da Lava Jato, transformaram um sistema jurídico que deveria investigar e julgar (separadamente) em um rito sumário de condenação. A questão é que um precedente assim, tão explícito, coloca todos os brasileiros em risco de ir para a guilhotina. Quem serão os próximos?

Se não há verdade possível, sobra a mentira com todas as suas variáveis e dissimulações. Os chats vazados, pela riqueza de detalhes, colocam a Justiça no lugar que não deveria estar, sob uma desconfortável lupa. As conversas entre procuradores não só são imorais como também demonstram a falta de ética e, pior, a esculhambação generalizada.

As autoridades e organizações da sociedade civil têm um desafio enorme pela frente. Cobrar dos envolvidos explicações e a exemplar punição, tanto quanto possível. Ministros do Supremo Tribunal Federal já acreditam na anulação de sentenças de Moro. Seria o mínimo necessário para restabelecer algum fiapo de credibilidade.

Celebrado como o quarto mosqueteiro da obra de Alexandre Dumas, D’Artangn não deve ser confundido com o homem de carne osso Charles de Batz-Castelmore. Capitão da guarda de Luís XIV, ele que cuidou do cárcere de Nicolas Fouquet, espécie de ministro das finanças do rei — nos castelos de Angers, de Vincennes, na Bastilha e em Pignerol. Moro e Dallagnol , definitivamente, não são heróis.

Ricardo Mendes é jornalista investigativo e consultor internacional. Autorizou que a ACS reproduzisse seus textos publicados originalmente na sua página na plataforma Medium.

Os torcedores que acompanham o futebol do interior sabem que as dificuldades financeiras assolam os clubes. Em Santa Maria, a situação não é diferente, o sofrimento para manter as contas e salários em dia é uma batalha todo o ano.
O Internacional de Santa Maria é a equipe mais conhecida da região, pois disputa a divisão de acesso, que dá vaga para a primeira divisão. Para termos uma noção, em 2017, a equipe Alvirrubra teve uma das melhores campanhas na divisão de acesso, chegando até as semifinais sem perder nenhum jogo dentro de casa, porém acabou desclassificada. Em 2018, a história se repetiu, a equipe do Presidente Vargas acabou parando na semifinal novamente. A verba utilizada para todo elenco era de 26 mil reais em 2017, dividido entre 30 pessoas jogadores, incluindo jogadores, comissão técnica e funcionários. Na divisão de acesso de 2018, a renda acabou aumentando para 38 mil.
Ainda este ano, o Inter-SM acabou disputando a copa Wianey Carlet, e dando sequência para o segundo semestre da temporada, porém, com uma renda de apenas 18 mil reais, muito abaixo do que era previsto. A diferença da equipe para os demais times da competição era evidente, mas mesmo assim a o time conseguiu chegar até a fase de mata-mata da competição.

Torcida presente no PV na divisão de acesso 2018. Foto: Leonardo Machado

Para quem trabalha nos bastidores do futebol gaúcho, os baixos valores no segundo semestre não são novidades, mas alguns acabam assustando os torcedores. Maria Angélica Varaschini, radialista esportiva da rádio Imembuí que acompanha o dia a dia do Inter-SM, falou sobre a situação salarial do colorado santa-mariense: “O Inter-SM, nas duas gestões passadas, tinha um objetivo muito bem traçado, que era não fazer mais trabalhistas e ir quitando as que tinha, com isso, pagava praticamente duas folhas: A do futebol, e das trabalhistas, por isso que, não tinha muita grana para investir no futebol”.
O dia a dia dos jogadores é bem diferente de um atleta de clube de série A nacional, não tendo tantas obrigações como nutricionista e academia. Todos moram no alojamento, apenas alguns tem casa em Santa Maria. Tomam café, almoço, lanche da tarde, janta e lanche da noite no clube. Têm horário para entrar no alojamento à noite, logo depois o portão fecha e ninguém mais pode entrar.
Thiago Rizzatti, 22 anos, jogador que já teve passagem pelo profissional do Riograndense e disputou a copa Wianey Carlet, pondera que “a cidade de Santa Maria nunca foi um centro do futebol. Há pessoas muito boas por trás do clube, mas precisa de um investimento mais forte”.

O clube

A gestão dentro de um clube de futebol passa por muitas pessoas, mas a principal figura por trás do time é o seu presidente, no caso do colorado santa-mariense é Luiz Cláudio Mello, que foi reeleito presidente no dia 5 de novembro deste ano. Segundo ele, o time acabou sofrendo resquícios de administrações anteriores, o que afetou a folha salarial do clube, mesmo vindo de uma ascensão desde 2013. “Nós trabalhamos muito para colocar o Internacional de Santa Maria no seu devido lugar, que é a série A do Campeonato Gaúcho, creio que daqui para frente o clube tem tudo para conseguir realizar os seus objetivos”, desabafa.
De nove jogos disputados dentro do estádio Presidente Vargas, foram seis vitórias, um empate e duas derrotas, tornando o seu mando de campo uma verdadeira fortaleza. Com um total de sete jogos invictos na baixada, o Clube obteve 63% de aproveitamento em casa.

Jogadores comemorando a classificação do mata-mata. Foto: Leonardo Machado

Quando perguntado sobre como funciona o contrato dos jogadores, o atual presidente é pontual: “Os nossos contratos são todos executados de maneira legal, há uma reunião com os jogadores e seus empresários onde entramos em acordo sobre o que é melhor para o jogador e o clube”.
Alguns jogadores do clube contam com a ajuda de empresários, com um incentivo financeiro, pois, para a maioria, sustentar uma família apenas com o salário pago pelo Clube é muito difícil. O jogador que mais ganha dentro do Inter é o camisa dez, Chiquinho, que está no clube desde 2017.

A base

O ano de 2018 serviu para o futebol santa-mariense firmar-se dentro do cenário gaúcho de base, o colorado não tinha uma categoria sub 17 desde 2013, e já no seu retorno acabou sendo campeão Gaúcho B na sua categoria, dando fim a um jejum de 27 anos sem títulos do clube.
Quando perguntado sobre a categoria de base, o presidente Mello afirma que “o clube teve um sucesso meteórico, esses meninos merecem uma atenção maior do clube, sabemos da dificuldade que foi para conquistar esse título”.

Jogadores do sub 17 comemorando o título com o ídolo Chiquinho. Foto: Arquivo pessoal Cadinho Maciel

Os jogadores da base colorada não são vinculados por meio de nenhum tipo de contrato. Alguns jogadores terão contratos profissionais já para o próximo ano, como é o caso do meio campista Cadinho, que foi o principal jogador da equipe dentro da competição e demonstrou bom futebol em meio aos profissionais nos treinos.
O atual técnico da equipe profissional, Guilherme Tocchetto, esclarece sobre a categoria de base. Conforme ele, “é muito importante que os meninos tenham um tipo de proteção contratual, pois como eles não ganham nada para jogar, apenas custos da viagem, fica fácil empresários ou qualquer outro clube tirar esses garotos daqui, creio que alguns deles, apesar de jovens, possam já somar no grupo profissional do próximo ano”.
Segundo o lateral direito do sub 17, Christian Moreira, a ajuda que o Clube podia dar era muito boa, tudo foi muito bem planejado. “Nós tínhamos as roupas tudo certinho, tanto pós jogo como pré-jogo, claro que não recebemos nada para estar ali representando o Inter, mas jogamos por amor e o Inter nunca nos deixou faltar nada”, detalha.

Confira a entrevista do técnico Guilherme Tocchetto na integra: https://www.youtube.com/watch?v=S7atg6B-GU0

Riograndense

Até mesmo moradores que não acompanham o futebol da cidade sabem da rivalidade que existe entre Inter-SM e Riograndense que acabou em 2017 e poderá retornar em 2019.
Em 2017, o clube esmeraldino recebeu uma rigorosa punição do Tribunal de Justiça Desportiva (TJD) por ter desistido no meio da competição. A punição foi de dois anos sem disputar qualquer campeonato oficial da Federação Gaúcha de Futebol (FGF).
Tudo isso acabou ocorrendo devido à folha salarial extremamente cara do clube. Na época, o presidente chegou a afirmar que o time dos eucaliptos teria que fechar as portas por conta de não ter como pagar os jogadores, que acabaram sendo dispensados.
O clube pretende voltar para o futebol profissional em 2019, Francisco Novelletto, presidente da FGF, já deu o aval para o clube voltar e antecipar o fim da punição. O periquito voltara para jogar a terceira divisão do campeonato gaúcho.

As dificuldades de fazer a bola rolar

Fazer futebol no interior é bem complicado, e o Inter-SM vem nesse processo de estruturação e planejamento nos últimos anos. Na busca por sócios e conselheiros, o apoio de empresas e empresários de Santa Maria é muito fraco, por isso, o clube só se sustenta pela mensalidade dos conselheiros, e claro, do pouco patrocínio que consegue. Desta forma, fazer o segundo semestre foi bem difícil, ainda mais que o público não comparece em grande número no estádio. A divisão de acesso só dá uma quantia em prêmio a quem sobe para a série A; o restante, só tem a ajuda da FGF em relação a arbitragem, e algumas bolas, o resto, é tudo custeado pelo clube, e não é só a folha de jogadores. Tem o gasto de viagem, alimentação e fardamento, fora os gastos do dia a dia, que com ou sem futebol se tem no clube, como água, luz, telefone e internet.

Jogadores do Inter-SM reunidos antes do jogo da semifinal da divisão de acesso. Foto: Leonardo Machado

Elevar uma situação financeira que não vinha boa demanda tempo, e para que isso melhore, precisa ter resultado dentro de campo, uma coisa leva a outra. Bateu duas vezes na trave, mas não entrou, não tem visibilidade de TV, e isso também prejudica. Em 2016 o Inter SM perdeu patrocínios, pois muitos jogos não puderam ser realizados no Presidente Vargas devido a toda situação dos PPCIs (Planos de Prevenção e Combate a Incêndios) dos estádios, o Inter só jogou em casa no returno da competição.
Tudo isso influencia para uma ascensão financeira, mas a falta de apoio, tanto do público quanto de patrocinadores é um fator bem importante, e os empresários entenderem que ter um clube na série A ou até mesmo em alguma competição do Brasileiro é muito importante. Resultado e apoio devem andar juntos, para que as coisas funcionem.

 

Texto produzido por Leonardo Machado e João Martins, na disciplina de Jornalismo Investigativo, do Curso de Jornalismo da UFN, ministrada pela professora Carla Torres durante o 2º semestre de 2018.