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Santa Maria, RS, Brazil

Perfil

Onde as raízes me encontram

Escuto gargalhadas finas e sinceras. Chamam meu nome no portão. Rita Lee dizia: “Tem lugares que me lembram minha vida, por onde andei”.

Personagens da Feira do Livro: Richard Chagas

A Feira, que ocorre há 49 anos na cidade de Santa Maria, tem a colaboração de diversas pessoas para que seja realizada. Colaboradores com diversos perfis, contaremos as histórias de alguns participantes das Feira sobre seus

A face de Maria Eva

Ao se olhar no espelho, o que vê? Muitos reclamam de alguma imperfeição no nariz, uma ruga ou espinha indesejada. E se na verdade o que o que enxergasse no reflexo não fossem apenas problemas estéticos,

Foto: Reprodução

Escuto gargalhadas finas e sinceras. Chamam meu nome no portão. Rita Lee dizia: “Tem lugares que me lembram minha vida, por onde andei”. Sabe-se lá em que ela estava pensando naquele momento, mas das minhas raízes, eu sei. Talvez nem tão minhas, mas as adotei com o tempo. A palavra árvore, segundo o dicionário, significa planta lenhosa com tronco fixo no solo, raízes, despida na base e carregada de galhos e folhas na parte superior. Lembro-me assim, da minha infância.

O bairro Voluntários da Pátria, em Rosário do Sul, sempre foi um dos mais extensos da cidade, recheado de casas, pessoas, praças e lojas. Na verdade, quem percebia tudo isso eram os adultos. Para mim, o brilho nos olhos era outro. Bem no meio de todos aqueles arredores, entre os canteiros, permanecia o João. Quero dizer, o João Bolão.

Sei que, de cara, parece engraçado e simpático, mas explicarei melhor. Minha infância foi marcada pela inocência de uma gigante árvore que ficava em frente à casa de minha tia, a menos de uma quadra da minha. O tronco surgia com raízes fortes e firmes, de um marrom-escuro intenso, muito bem fixadas no chão gramado do canteiro. Contava-se, naquela época, que ela havia sido plantada com cola branca e, por isso, era tão resistente. Se você não acredita, eu e meus amigos, aos seis anos de idade, achávamos que era a mais pura verdade. Afinal, por que não seria?

Na música chamada “Minha vida”, canta-se também a parte: “As histórias, os caminhos, os destinos, que eu mudei”. Ela era exatamente assim. Essa planta tinha a maior sorte (ou azar) de presenciar as maiores brincadeiras já vistas na terra onde foi plantada. As folhas grandes, majestosas, no verde mais chamativo e escuro que já vi, balançavam de um lado para o outro como se acompanhassem o ritmo lento de uma dança. A título de curiosidade, a casa de minha tia também era verde, o que chegava a ser irônico. Eram tantas folhas que nos perdíamos olhando para cima. O bairro era, de fato, grandioso, mas o João (que agora vocês estão conhecendo) era mil vezes maior.

Assim como na canção, Rita Lee canta: “Cenas no meu filme branco e preto, que o vento levou e o tempo trás”. Esse arvoredo teria inúmeras histórias para contar enquanto o vento o enriquecia de vida. Mas, antes de contar tudo o que ele presenciava, preciso falar de mais uma característica que chamava atenção.

Roxo sempre foi uma das minhas cores favoritas na infância e, talvez agora, pensando bem, o João tenha culpa nisso. O nome “João”, que tantas vezes mencionei, vem do fruto que pesava entre suas folhagens. Pode-se até confundi-lo com uvas, de tão parecido. Quando maduros, os frutos ficam de um roxo quase preto e se enchem de uma polpa suculenta. Porém, não se enganem com a primeira impressão. Na época da safra, eles caem do pé e forram o chão, tingindo tudo o que tocam: mãos, roupas, calçadas e até os carros estacionados sob sua sombra no verão.

Essas frutas presenciavam tudo o que se pode imaginar. Mas era durante as tardes que pareciam mais felizes ao ver as crianças brincarem. O ponto de encontro era sempre ali. Talvez você me pergunte: “Mas e quando chovia?” E eu respondo: também. Afinal, ela protegia qualquer coisa que estivesse embaixo. A altura do João varia entre 13 e 22 metros, mas isso nunca nos assustou. Pelo contrário, nos encorajava. Acredito que, se hoje sou uma pessoa corajosa e forte, foi porque, aos seis anos, escalava todo aquele arvoredo até o topo. Ali, naquele lugar, eu realmente me sentia no topo do mundo.

“Tem pessoas, que a gente não esquece, nem se esquecer”, canta Rita. Muito provavelmente eu e meus amigos éramos assim para o João, e vou contar mais a fundo o porquê. Naquela época, dizia-se que a árvore seria cortada e levada embora. Eu chorava por não querer perder um dos meus melhores amigos. Já minha tia lamentava a possível perda da sombra para o chimarrão. O medo era tanto que, sempre que apareciam para podar a árvore, ficávamos de olho, como guarda-costas de alguém muito famoso (E para nós, ele realmente era).

Pior ainda era quando nós, baixinhos e com nossas bicicletas, chegávamos lá e ela já estava podada. Indignação era a palavra que descrevia aquele momento. Mas nem assim deixávamos o João se abalar. As milhares  (sem drama, eram milhares ) de folhas espalhadas pelo chão chegavam a nos encobrir de tão altas. Tudo bem, também não era tão difícil naquela época. Os galhos e folhas cortados formavam um monte que alcançava quase a metade do tronco da árvore. E essa era a parte mais divertida.

Já ouviram falar em piscina ecológica? Pois lhes apresento esse termo.

Quando as folhagens ficavam amontoadas junto ao tronco, escalávamos o João até o mais alto que conseguíamos e, de lá, com toda a coragem do mundo, nos atirávamos sobre elas. Era a nossa forma de não deixar a natureza triste por perder algumas folhas. Também elogiávamos o arvoredo e dizíamos que ele tinha ficado bonito de cabelo cortado. Realmente éramos “personagens do filme de memórias” do João.

“Desenhos que a vida vai fazendo, desbotam alguns, uns ficam iguais”. Sabe aquela frase que ouvimos quando crescemos: “Um dia você brincou pela última vez e não sabia”? Talvez essa parte tenha doído para o João. Ele foi envelhecendo e perdendo o brilho das folhas, assim como nós.

Em algum dia qualquer daquela rua, fizemos comida de mentira com aquelas frutinhas, nos escondemos atrás do arvoredo, sujamos as mãos de roxo, brincamos de casinha e gargalhamos ao subir no topo do mundo, pela última vez.

“Entre todos os amores e amigos, de você, me lembro mais”. Há mais uma coisa que quero contar sobre o João. Existiam outras duas árvores ao seu lado. Porém, com todo respeito a elas, João Bolão era o protagonista. Eram menores, tinham troncos mais finos, menos galhos e menos folhas. Ocupavam menos espaço e pareciam estar ali para lhe fazer companhia quando nós não aparecíamos — o que era raro. Ainda assim, achei importante incluí-las nesta escrita. Elas também têm suas histórias. Mas isso fica para outro dia.

Inclusive, escrevendo este perfil, descobri pela primeira vez que o nome correto é “Jambolão” ou “Jamelão” e que sua origem é indiana. Com todo respeito, João é muito mais criativo e bonito do que qualquer outro nome que poderíamos ter dado.

E, se isso também puder servir de inspiração, essa árvore foi plantada pelo meu pai, em 1991, um ano depois de conhecer minha mãe.

Ou seja, quem me conhece e me vê, de alguma forma também convive com a natureza dessa árvore. Provavelmente, em algum momento, já me ouviu elogiar alguma árvore. E, se ainda não ouviu, há de se esperar. Talvez porque, toda vez que paro para admirar uma delas, eu enxergue um pouco do João. Ou talvez porque, sem perceber, eu tenha aprendido com ele a encontrar beleza até nas raízes e folhas que precisam cair. No fim das contas, quem conhece um pouco de mim, conhece um pouco dele também.

É, João… Rita Lee estava certa: “De você, não esqueço jamais”.

Texto produzido na disciplina de Narrativa Jornalística, no primeiro semestre de 2026, sob supervisão da professora Glaíse Bohrer Palma.

A imagem é meramente ilustrativa pois a árvore a que a autora se refere não existe mais.

Há ruas que apenas conduzem pessoas de um ponto ao outro, a Rua XV de Novembro faz muito mais do que isso, ela conduz histórias. É nela que São Pedro do Sul, no RS, parece respirar com mais intensidade. Cada passo revela um pedaço da identidade do município, como se o tempo tivesse escolhido aquele caminho para guardar as memórias de quem nasceu, cresceu ou simplesmente aprendeu a chamar esta cidade de lar.

A caminhada começa logo após a rotatória da avenida da cidade, ali que a Rua XV de Novembro se apresenta, discreta para quem chega pela primeira vez, mas grandiosa para quem conhece sua importância. Nos primeiros metros está um de seus símbolos mais curiosos e emblemáticos, a Ponte Seca. Hoje, sob ela, já não passa o trem que um dia ajudou a movimentar a região. Restou apenas a estrutura, firme e silenciosa. A velha ponte parece guardar lembranças que apenas ela e moradores antigos testemunharam.

O asfalto segue adiante carregando as marcas do tempo. Em alguns trechos, os buracos denunciam décadas de movimento, como se a própria rua exibisse, sem vergonha, as cicatrizes de quem nunca deixou de cumprir seu papel. Todos os dias, trabalhadores cruzam seu caminho antes mesmo do amanhecer, comerciantes levantam as portas de seus estabelecimentos, estudantes caminham em grupos para a escola e moradores seguem cumprimentando conhecidos, preservando um costume que ainda resiste nas cidades do interior.

Ao longo da caminhada, dois velhos conhecidos dos são-pedrenses dividem a paisagem: o  supermercado Spode e o supermercado Bom Preço, que fazem parte da rotina de praticamente toda a cidade. Mais adiante, a rua encontra outro de seus grandes marcos, a Escola Estadual de Educação Básica Tito Ferrari, a única instituição da cidade que oferece o Ensino Médio. Ali, gerações inteiras descobriram amizades, viveram  e construíram lembranças que atravessaram o tempo. Nos findares das aulas, as calçadas se enchem de risadas, conversas e Coca-Cola dividida entre colegas. E entre os estudantes, permanece viva a antiga lenda de que a escola teria sido construída sobre um cemitério. Verdade ou não, ela faz parte das histórias contadas de turma em turma e ajuda a manter viva a identidade daquele lugar.

Seguindo, o caminho leva naturalmente à Praça Crescêncio Pereira, um dos espaços que ajudam a explicar a importância da própria rua. Foi a partir da doação daquele terreno que o centro de São Pedro do Sul começou a ganhar forma. Hoje, a praça continua dando vida à rua. O riso das crianças nos brinquedos mistura-se às conversas de famílias reunidas em torno de uma cuia de chimarrão. Jovens passam de bicicleta, moradores caminham com seus cachorros e idosos observam o movimento com a tranquilidade de quem já viu muitas gerações passarem por ali. 

Ponto de encontro

F

Bem em frente está outro detalhe que, para quem mora em São Pedro do Sul, é quase um símbolo. A única sinaleira da cidade também está na Rua XV de Novembro. Para quem vem de fora, ela pode parecer apenas um semáforo. Para os moradores, tornou-se ponto de referência, local de encontros e parte da memória cotidiana. Basta combinar um horário “na sinaleira” para que todos saibam exatamente onde ir.

Mas é quando chegam as datas mais importantes do calendário que a Rua XV de Novembro revela toda a sua grandeza. Ao longo do ano, ela deixa de ser apenas uma via para transformar-se no principal palco da cidade. No desfile de Sete de Setembro, estudantes, escolas e instituições ocupam seu espaço celebrando o civismo. E no tradicional desfile do Dia do Gaúcho, o asfalto recebe prendas, peões, cavalarianos e entidades tradicionalistas. As calçadas ficam repletas de famílias. Os avós apontam para os netos, pais revivem lembranças da infância e crianças assistem encantadas, construindo memórias que um dia também farão parte da história da cidade.

Além dos desfiles, é na Rua XV de Novembro que acontecem muitas das principais solenidades e celebrações do município. Sempre que São Pedro do Sul precisa se reunir para comemorar, homenagear e celebrar um momento importante, é para essa rua que os olhares se voltam. Mais do que um espaço de passagem, ela transforma-se em um lugar de convivência, onde a cidade demonstra seu verdadeiro espírito comunitário.

Talvez seja justamente isso que torna a Rua XV de Novembro tão especial, ela não é a mais importante de São Pedro do Sul apenas porque concentra escolas, comércio, serviços e espaços públicos. Sua importância está nas pessoas que passam por ela todos os dias. Crianças dão ali os primeiros passos rumo à escola, jovens constroem amizades, adultos seguem sua rotina de trabalho e idosos encontram lembranças a cada caminhada.

No fim das contas, ela não é apenas a principal via de São Pedro do Sul, ela é o lugar onde diferentes gerações se cruzam diariamente. Entre a velha Ponte Seca, os mercados, a Escola Tito Ferrari, a Praça Crescente Pereira e a única sinaleira da cidade, ela reúne lembranças, encontros e histórias que ajudam a explicar o porquê, para tantos são-pedrenses, falar da XV de Novembro é, inevitavelmente, falar de casa.

Texto produzido na disciplina de Narrativa Jornalística, no primeiro semestre de 2026, sob supervisão da professora Glaíse Bohrer Palma.

Imagens: Cristhian Braga

Naiôn atua como repórter da Rádio Gaúcha. Imagem: Arquivo pessoal.

Dando continuidade à série de matérias do Celeiro de Talentos, trazemos o perfil do jornalista Naiôn Curcino. O egresso já estava ligado ao jornalismo desde a infância. Seu pai trabalhava com a comunicação desde muito cedo, tendo passado até mesmo por rádios e alguns jornais. Entretanto, foi apenas ao final do ensino médio que ele decidiu seguir este ramo, em parte devido ao esporte. “Acho que como 99% da gurizada, as mulheres tem crescido nessa área, mas principalmente os homens entram no curso de comunicação com o sonho de trabalhar com o jornalismo esportivo”, afirma.

Foi com cerca de 15 anos que ele começou a trabalhar com reportagens esportivas no jornal da família. Posteriormente, passou a assumir outras editorias como política, economia e saúde. Após um tempo, ele também começou a trabalhar com a diagramação. Naiôn alega que “isso foi muito importante para o meu crescimento como profissional e também me abriu muitas portas. Muito da grande mídia do estado quando tinha alguma pauta importante no município de Restinga Seca, me demandavam com informação, fontes e fotos”.

Ainda que morasse em Restinga Seca e se deslocasse diariamente até Santa Maria para acompanhar as aulas, sempre houve um aproveitamento do conhecimento adquirido. Mesmo que a distância não lhe tivesse permitido participar dos laboratórios do curso, suas faltas nas aulas eram muito raras.

Ao fim do curso, surgiu a chance de participar do projeto da RBS chamado Visita à Redação. Era feito uma prova onde, dependendo do desempenho, era possível ingressar em um estágio não remunerado de três meses em um dos veículos de comunicação disponíveis em Santa Maria. “Eu nunca tive muita experiência na TV. Quando eu tive a oportunidade de escolher, minha primeira opção foi a TV”, segundo o jornalista. Durante este período, Naiôn visitava semanalmente a RBS TV para acompanhar a rotina produtiva e fazer gravações testes de reportagens. Após esta experiência, houve um convite para estágio no Diário de Santa Maria: “a partir disso, em 2014, eu vim embora para Santa Maria para conseguir conciliar o estágio com a reta final da faculdade e os dois últimos semestres”.

Com estas portas abertas, Naiôn foi chamado para continuar no Diário logo após se formar. Tendo atuado profissionalmente pela empresa desde o início de 2015 até 2019, ele naturalmente passou por diversas editorias, tendo até assumido o cargo de editor do esporte. Ao final de 2019, ele migrou para a Rádio Gaúcha, onde trabalha até o momento.

“As pessoas costumam entrar no curso com uma ideia de editoria em mente. No mercado de trabalho, principalmente nos primeiros meses após o ingresso, é necessário ter a capacidade de passar por todos os assuntos. Hoje todas as editorias são muito interligadas. Futebol conversa com segurança, que conversa com política…”, afirma o jornalista. Entre outras características importantes atualmente para atuar no campo, ele ressalta que “é necessário ser multimídia. Ainda que se tenha mais conforto com um veículo de comunicação, tu vai ser frequentemente chamado para fazer trabalhos tanto na TV, quanto na rádio e no impresso”.

A dona da Livraria Space Gospel, Andreia Batista, participa desde 2019 divulgando o trabalho evangélico: “é muito pouco divulgado, eu vim pra Feira com esse intuito de mostrar que ainda existe uma livraria evangélica na cidade e o público tem buscado”. Ela nos conta que o livro que mais sai em sua banca é a Bíblia, mas que outros livros também de cunho religioso têm sido muito vendidos. “A Feira é importante, tem várias livrarias que dizem ser da cidade e eu não conheço, na Feira temos a oportunidade de ver quantas livrarias tem na nossa cidade e não sabemos. Aqui as pessoas têm a oportunidade de escolher uma variedade de livros”, argumentou ela. A comerciante fala que adquiriu o hábito da leitura há 16 anos: “Gosto da parte evangélica, não só da Bíblia mas também dos autores, as outras leituras também, cada um acaba encontrando o seu lugar e respeita seu lugar. Acho importante saber respeitar”. 

Andreia Batista é proprietária da Livraria Space Gospel. Imagem: Luiza Silveira

Já Lorenzo Brezolin participa da Feira desde 2015. Ele trabalha na banca da Cesma, onde vende livros dos mais variados tipos, desde literatura estrangeira a botânica. Para ele é muito importante o incentivo à leitura em uma era digital. Ele também ressalta que: “ é importante para a cidade, ainda mais que trás alguns autores de fora, ter  a oportunidade de ver eles pessoalmente“. Brezolin conta que lê muitos livros desde pequeno pois “meus pais são professores, eu cresci no meio dos livros”.

Lorenzo Brizolin é vendedor da Cesma. Imagem: Luiza Silveira

Colaboração: Luiza Silveira

A Feira, que ocorre há 49 anos na cidade de Santa Maria, tem a colaboração de diversas pessoas para que seja realizada. Colaboradores com diversos perfis, contaremos as histórias de alguns participantes das Feira sobre seus gostos por leitura e que tipo de obras suas bancas oferecem. 

Richard Chagas é vendedor do Instituto Quindim. Imagem: Luiza Silveira

Richard Chagas, estudante de Artes Visuais da UFSM, atende na banca do Instituto Quindim e, na percepção dele, o livro é o primeiro museu da criança: “Adquiri o hábito da leitura pois trabalho com o Projeto Mala de Leitura onde vamos às escolas e levamos a leitura até a comunidade. Não fazemos uma hora do conto, para contar histórias não precisamos de livros, incentivamos  as crianças a lerem. Na banca eu leio em média 10  livros por dia, pois são livros rápidos de serem lidos”. 

Quando questionado sobre a importância da Feira, ele nos conta que “é importante na cultura da cidade, aqui estamos no foco das crianças para desenvolvimento delas quanto a leitura. Na Feira tem livros variados, somos o estado que mais lê, mas ao mesmo tempo não tem muitos leitores, quem lê, lê muito”, concluiu ele.

Colaboração: Luiza Silveira

Ao se olhar no espelho, o que vê? Muitos reclamam de alguma imperfeição no nariz, uma ruga ou espinha indesejada. E se na verdade o que o que enxergasse no reflexo não fossem apenas problemas estéticos, mas, na verdade, algo diferente daquilo que você é? Muitas pessoas não se identificam com o sexo que nasce. Maria Eva Bevilaqua Rizzatti, aluna de Design de Moda é uma delas.

Ela é a definição completa da frase de Simone Du Beauvoir: não se nasce mulher, torna-se mulher. Seu desenvolvimento não foi apenas de uma personalidade, como é o caso da maior parte das mulheres. Teve que moldar seu corpo de nascença. Todos passamos por fases em diferentes momentos da vida. Sua transformação ocorreu aos poucos, naturalmente. Aos 12 anos começou a tomar hormônios escondido da família, aos 18, usar roupas femininas. “Passei por várias situações que as mulheres cis também passam”. Teve vergonha quando os seios começaram a crescer e marcar a camiseta. Para ela, o plot de virada do filme que é sua vida não se resume apenas à transformação. “Hoje também está sendo uma fase para mim”.

Após atingir a maioridade, para alcançar seus objetivos, seguiu um caminho maior: decidiu sair de casa e realizar as cirurgias plásticas que completariam sua metamorfose. Adotou o nome composto Maria Eduarda. Depois de um tempo, trocou o segundo por Eva, de origem hebraica e que significa viver. Levou dois anos para conseguir obter os documentos com o nome definitivo. “Já consegui trocar quase tudo. Só falta a carteira de motorista”.

A família sempre a apoiou. Pai, mãe e irmão. Ela conta que sempre se identificou como mulher. “Passei por mudanças, mutilei o meu corpo, para me tornar uma mulher. Mas, desde criança, sempre tive pensamentos de mulher”. O genitor é de quem mais é próxima. Falam-se todos os dias, nem que seja por telefone. Ele afirma que na infância não identificava o lado feminino da filha. “Na adolescência, percebi que ela gostava de usar cabelos longos e roupas femininas. Foi a partir daí que comecei a aceitá-la como uma mulher”. Os parentes próximos sempre a incentivaram a estudar.

Sendo a única acadêmica trans no curso de Design de Moda, uma das poucas na instituição, expressa tristeza ao saber que não são todas que dispõem do mesmo privilégio. “Procuro aproveitar ao máximo. Sempre tento me enfiar onde os outros não imaginam encontrar uma trans. Aos poucos vamos indo. Quero mostrar que não somos o estereótipo marginalizado, que o senso comum tem”. Passou por situações de preconceito no mundo acadêmico. Teve que falar com os Direitos Humanos sobre uma professora que se recusava a tratá-la pelo feminino. “No final, deu tudo certo. Isso aconteceu no primeiro semestre”. Querida pelos colegas, está sempre rodeada de amigos, num clima de alegria e descontração.

Sobre o futuro? Explica que pensa em seguir os estudos, especializar-se e abrir a própria marca. Contudo, não planeja um futuro distante, prefere viver uma fase de cada vez, aproveitar os momentos da vida pois, no ar que respira, sente o prazer de ser o que é, de estar onde está. Agora, só falta o diploma.

Texto produzido no primeiro semestre de 2018, para a disciplina de Jornalismo II, sob a orientação do professor Carlos Alberto Badke.