Reportagem de Flora Quinhones

“Brasileiro faz festa pra tudo”. Esta é uma leitura muito frequente sobre nós mundo afora. Em aniversário, então, não podem faltar a bandeja de brigadeiro e os copinhos descartáveis para criançada tomar refri e uns balõezinhos na parede. Mas, se todos os dias vemos imagens de objetos plásticos entupindo bueiros e matando animais no mar, seria esse um consumo consciente? A questão é ainda pouco discutida quando o assunto é comemoração, seja de casamento, aniversário ou de qualquer outra situação. 

O gasto médio com uma festa de casamento é de R$ 40 mil reais- Foto concedida por Celebrar Eventos Especiais

A cultura das festas passou por diversas fases ao longo da história. De acordo com o livro The Lore of Birthdays – “A Sabedoria dos Aniversários” (sem tradução em português) – as comemorações dessa data se popularizaram no Egito Antigo por volta de 3000 a.C. Nesta época o costume era restrito a seres superiores, como faraós e deuses. Com o tempo, o hábito foi se estendendo aos “reles mortais” e inspirou também os romanos. Estes, por sua vez, também inicialmente permitiam o privilégio apenas ao imperador, à sua família e aos senadores. Nos primórdios do cristianismo, o costume foi abolido por causa das suas origens pagãs. Apenas no século 4 a Igreja começou a celebrar o nascimento de Cristo, o Natal. Deste momento em diante, ressurgiu o hábito de festejar aniversários e, pouco a pouco, foram surgindo as peças simbólicas como o bolo, as velinhas, o “Parabéns a Você”, até chegar às luxuosas festas de casamento e às tradicionais festinhas de aniversário com balões e muitos itens descartáveis e práticos de usar. 

O mercado de Festas

De acordo com dados da Associação Brasileira de Empresas de Eventos, o mercado desta área tem expectativa de crescimento de 14% a cada ano, tendo chegado a movimentar – para se ter uma ideia – R$ 16 bilhões de reais apenas no ano de 2018. Eis uma área que definitivamente não para, mesmo com a crise que se estende ao longo dos últimos anos no Brasil. Segundo estudo feito pela empresa Quem Casa Quer Site, com 500 noivos de várias regiões do Brasil, o gasto médio com uma festa de casamento de 80 a 120 convidados é de cerca 40 mil reais, podendo variar para menos ou até chegar a ultrapassar a casa dos 100 mil reais. Tanto dinheiro investido se distribui em muitos itens de decoração, presentes para convidados, comida, espaço para eventos, consumo de energia, produtos de limpeza dos mais variados possíveis, tecidos, entre tantas outras coisas que são utilizadas na produção de um evento desse porte.

Porcentagem de gastos sobre cada item de uma festa de casamento estimado pelo site zankyou.com.br

Até mesmo eventos pequenos como de uma festa infantil podem gerar um desperdício inimaginável com o acúmulo de lixo, que pode chegar até 5 sacos em uma comemoração que dura em média 5 horas. Tudo isso inclui balões, copos descartáveis, forminhas de doce, papel crepom e até aquele fio de náilon usado para amarrar a decoração. É comum encontrarmos pessoas que preferem comprar tudo descartável para não precisar lavar e reutilizar, mas a verdade é que essa cultura está ficando deselegante e acaba doendo nos ouvidos dos ambientalistas. 

O ambiente padece pela falta de consciência do ser humano

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A luta da natureza com a sociedade vem se delineando especialmente desde 1970, quando países industrializados começaram a perceber o impacto negativo das suas tecnologias ao Meio Ambiente: rios poluídos, florestas destruídas pela chuva ácida, poluição atmosférica nas grandes cidades são alguns dos piores resultados da ação humana sobre o meio. A partir daquele momento, questões relacionadas à preservação da Natureza começaram a ser discutidas efetivamente.

O processo de poluição não está só no fato de consumirmos algo e colocarmos os restos no lixo. Está também na produção daquele item e até na energia gasta para sua chegada ao mercado. Os balões por exemplo, foram inventados a partir de experiências com gases no século 19, e foram incorporados aos aniversários por serem considerados divertidos para as crianças. No entanto, o item é fabricado a partir de dois tipos de materiais, o látex ou o nylon. O primeiro é considerado mais adequado, porque é biodegradável, mesmo que um produto de látex demore de 6 meses a 4 anos pra se decompor, tempo suficiente para causar impactos irreversíveis. Já os balões de nylon não são biodegradáveis e, além do problema óbvio da poluição terrestre, no mar, os balões vazios são confundidos com alimentos pelos animais. As principais vítimas desse tipo de resíduo são as tartarugas marinhas que acham que os balões são águas-vivas (por causa do formato) e morrem de obstruções intestinais e inanição. 

Além disso, um dos itens mais utilizados para encher balões é o gás hélio. Trata-se de um recurso não renovável e insubstituível, cujas reservas vão acabar em menos de 30 anos. Como consequência, saem de atividade equipamentos de ressonância magnética, telescópios espaciais, reatores nucleares e tantos processos de pesquisas científicas.

Exemplos que inspiram

Convites de papel semente da Festa da Isadora - Foto concedida por Isadora

Organizar uma festa não é tarefa fácil. Quando ela é pensada para não poluir o ambiente, então, a missão torna-se quase impossível! Seja uma festinha simples, em casa, ou uma grande comemoração, o importante é que as pessoas tenham consciência de que podem fazer alguma coisa para impactar o menos possível. De acordo com a cerimonialista Mauren Spessato, de Santa Maria-RS, não existe uma consciência sobre o assunto por parte da sociedade que faz eventos sociais na região. “Eu noto que em casamentos, formaturas e festas de pessoas mais maduras não há esse pensamento. Mas a geração nova que faz 15 anos e que é adolescente, vem com essa preocupação bem mais enraizada e percebemos que é uma coisa de berço e que é comum para elas”, explica a organizadora de eventos. 

Entre os adolescentes de que fala Mauren, está Isadora. Ela optou por uma festa de 15 anos com tema gauchesco, vegano e preocupado com o meio ambiente. A debutante escolheu convites e itens de papelaria da festa com  papel semente, um produto 100% ecológico, cuja elaboração não passa por nenhum processo químico. As sementes contidas nele permanecem vivas durante a fabricação e o uso do material, que pode ser plantado futuramente. A festa de Isadora teve papelaria com sementes de girassol, vela de madeira. As forminhas de acetato foram substituídas por bandejas com docinhos empilhados ou com forminhas de papel.

“No colégio a gente aprende sobre economizar energias e não jogar lixo no chão, mas a gente sabe que são coisas muito pequenas perto do que a gente realmente tem que fazer para ajudar e colaborar ainda mais com meio ambiente. Acho que falta muito conhecimento das pessoas, e força de vontade para querer mudar. Só eu já fazendo algo, já está fazendo uma grande diferença no desperdício de lixo”. 

O exemplo da menina – muito ativa em debates sobre a causa – comoveu a família, que também entrou na onda da conscientização. Inclusive a irmã mais nova, de 7 anos, quis uma festa ecológica. Valentina ganhou um lanche coletivo de aniversário e, para colaborar com o meio ambiente, trocou as forminhas de alumínio para doce por forminhas de papelão. As lembrancinhas também foram embaladas com papel pardo. A pequena inclusive já planeja seu próximo aniversário com uma lista maior de itens sustentáveis, como canudos de papel biodegradável, copos reutilizáveis e convites digitais para evitar o desperdício de papel.

Isadora e sua família- Foto concedida por Isabela

Foi orgulho e emoção quando vimos nossa filha de 15 anos, Isadora, idealizar toda sua festa pensando na sustentabilidade. Conseguimos desenvolver esta visão nela, que absorveu nossos ensinamentos de forma bem mais intensa e dinâmica do que nós, pais. Tanto que nossas duas filhas tomaram a decisão de se tornarem vegetarianas para proteger os animais e também cuidar do meio ambiente. As atitudes da Isadora passaram a ser referência para a irmã. E o que nos impressiona é a determinação delas. Super conscientes com a questão ambiental , não usam canudos, sacolas plásticas, só usam produtos que não sejam testados em animais, entre outras várias atitudes. Para nós é extremamente gratificante vê -las se posicionando perante as pessoas com firmeza e mostrando que podemos fazer a diferença mesmo nas pequenas coisas. A  nós, pais, só cabe incentivar ainda mais e praticar junto a sustentabilidade para um mundo melhor”, relata a mãe das meninas, Anelise Gubiani Machado.

O descartável que não é Descartável

Outro exemplo que inspira encontramos fora da região, é o da Daniela Guedes que fez sua festa de aniversário reutilizando itens considerados descartáveis. 

“Toda festa que fazíamos aqui em casa sempre gerou muito lixo, e olha que a gente aproveitava muita coisa, então resolvi tentar reduzir o máximo de lixo no meu último aniversário. A mesa de bolo ficou muito linda e sem gerar resíduo”, relata Daniela que é do Goiás e tem 32 anos. Não teve balão e, para diminuir o desperdício, ela ainda usou fitas de cetim que hoje utiliza em fantasias de carnaval e em decoração de casa. Os objetos da casa serviram de decoração também. As fôrmas de isopor usadas na festa de 15 anos da irmã são reutilizadas há mais de três anos em outras comemorações da família. As colheres foram do seu aniversário de 30 anos, então tudo era feito para descartar, mas acabou sendo reutilizado. Uma maneira simples e consciente de produzir uma festa em casa.

Para instigar outras pessoas com a atitude,  a Daniela fez uma galeria nos Destaques do seu instagram explicando como reutilizar materiais descartáveis. 

Daiana ainda deixa uma mensagem: “É muito importante que a gente passe a entender o tamanho do nosso impacto. Reduzir o lixo de uma festa pode parecer complicado e estranho, mas é algo que não tira em nada o encanto da comemoração

Decoração

A decoração de festas está entre um dos itens que mais poluem na organização de um evento. A Decoradora Ali Druzian de Santa Maria-RS, garante que em uma decoração quase tudo é reaproveitável, exceto as flores, que, aliás, não causam nenhum tipo de problema. A maioria dos clientes as leva para casa ou as distribui entre os convidados. Plantas e flores mantidas em vasos são reutilizadas sempre. O problema maior é a espuma floral, local onde as flores são espetadas para formar os arranjos. As mais ecológicas são muito caras e os clientes normalmente não querem pagar. Mas existem opções que ajudam a economizar e a reutilizar uma coisa que geraria lixo orgânico dentro de sacos plásticos normalmente. 

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