Reportagem de Kauan Costa e Milena Bittencourt  

Para entender como a palavra “pandemia” se fez presente ao longo de épocas da história humana, é preciso voltar à década de 1920, quando o mundo conhecia uma das primeiras causas virais de maior relevância na história, a Gripe Espanhola. O vírus da família influenza tomou conta de grande parte da população mundial, infectando cerca de 500 milhões de pessoas e causando mais de 50 milhões de óbitos, de acordo com a Organização Mundial da Saúde. Até então a humanidade só tinha vivido crise semelhante no Egito Antigo, com a varíola.
A alta disseminação, forte poder de contágio e uma mutação gradual ao longo das infecções torna característico classificar qualquer vírus como uma nova pandemia mundial. Os efeitos dentro de um organismo vivo, como no caso do novo COVID-19, têm mostrado que os principais sintomas são diretamente ligados aos sistemas nervoso e respiratório, com alteração e desativação das principais células de proteção.

As infecções respiratórias agudas (IRA) são causas importantes de morbidade e mortalidade em todo o mundo. Os vírus são considerados os agentes etiológicos predominantes em IRA, sejam como patógenos principais, ou predispondo indivíduos a infecções bacterianas secundárias. A atual pandemia global de COVID-19 está relacionada a uma doença respiratória aguda causada por um novo coronavírus (SARS-CoV-2), altamente contagioso e de evolução ainda pouco conhecida. 

Em meio às incertezas, o Sistema Único de Saúde (SUS) segue como um dos maiores e mais complexos sistemas de saúde o mundo inteiro e é de extrema relevância para o Brasil, não só nos dias de hoje, quando o país sofre dessa pandemia mas, também do dia a dia da população. Peça fundamental nesse sistema, com a chegada da pandemia, a(o) enfermeira(o) desenvolve um trabalho com base em conhecimento técnico e científico. Segundo dados da OMS (2020) com o crescimento da população e o aumento na parcela de idosos, o mundo enfrentará um apagão de quase 6 milhões de enfermeiros daqui a dez anos. Como a população cresce mais rapidamente nos países mais pobres, a tendência é que a carência se acentue caso não haja políticas públicas específicas. Países mais ricos, porém, podem ver agravada a falta de profissionais porque sua força de trabalho está envelhecendo.

Para a enfermeira e docente Dra. Cláudia Zamberlan, “a pandemia coloca-nos frente a incertezas; o que era certo e exato, hoje já não é mais, isso porque frente a algumas situações que expõem o ser humano ao risco de morte, dentre elas a vivenciada no contexto atual, torna-se inevitável repensar valores, prioridades, condutas e fundamentalmente nos reinventarmos”. 

A profissional afirma que sua rotina de trabalho tem passado por modificações, principalmente no contexto da docência. “Passamos de aulas presenciais para aulas remotas em ambiente virtual de aprendizagem e isso exigiu-me reinvenção, apreensão do conhecimento acerca de novas tecnologias de trabalho educacional, além de uma reflexão maior sobre o trabalho que realizo e da responsabilidade formativa em meio à situações complexas que estamos vivenciando. Na assistência como enfermeira, algumas condutas mudaram em decorrências de inúmeros protocolos e fluxos delineados, a fim de proteção individual e coletiva”, conta Dra. Cláudia Zamberlan. 

Além de profissionais de enfermagem, os fisioterapeutas também estão entre as principais referências para a melhora no tratamento e peças fundamentais na rotina dos profissionais da saúde que, dia a dia, enfrentam a atual pandemia de frente. A fisioterapia respiratória é essencial para o tratamento de pessoas que sofrem com complicações vindas das infecções respiratórias agudas. A manipulação do próprio sistema nervoso em exercícios pulmonares pode facilitar a recuperação dos pacientes em até 50%, de acordo com a fisioterapeuta Divânia de Fátima. Ela ainda enfatiza: “Apesar de não estar trabalhando em específico contra o combate ao novo vírus já tratei de pacientes com problemas respiratórios e crises de falta de ar vindas de outras situações adversas. A fisioterapia respiratória tem um papel fundamental na recuperação de pacientes com esse tipo de crise, ela ajuda a fazer com que o pulmão não enrijeça e que as fibras continuem mantendo a flexibilidade para que a troca de oxigênio continue constante”.

A importância da interdisciplinaridade fica evidente na reflexão da Dra. Cláudia Zamberlan, quando ela afirma: “Apesar de, no momento, estar atuando em uma UTI que não recebe diretamente pacientes com Covid-19 sabemos que o trabalho intensivo é dinâmico inter relacional, e devemos estar preparados em caso de suspeitos e/ou contaminados, mas, muito além do conhecimento, o que a pandemia mais tem me ensinado é a resiliência, a empatia, a reflexão e a necessidade contínua de renovação das minhas práticas e condutas, tendo em vista a dinamicidade as situações se apresentam”.

Entender os efeitos que a Covid-19 provoca em nível de saúde pública demonstra que a humanidade tem uma potencial taxa de vulnerabilidade a novos organismos. As mudanças do mundo em questão de meses provaram que os conceitos de saúde – principalmente sanitária e pessoal – vinham tomando um rumo inapropriado, e assim tornou-se essencial o uso de medidas de segurança pessoal para a contenção da nova doença.P

Fonte: G1 Globo e Secretaria Estadual da Saúde do Rio Grande do Sul

Quando conheceu a real potencialidade do vírus em meados do mês de fevereiro, a cidade de Santa Maria-RS mostrou-se inicialmente efetiva no combate ao vírus, com ações epidemiológicas. Projetos de mobilização em massa e de quarentena obrigatória foram pequenas engrenagens em todo um mecanismo, em que especialistas da área da saúde – principalmente médicos infectologistas de referência – assumiram a face das orientações de contenção e prevenção na cidade.

Fonte: Observatório de Informações em Saúde UFSM

O médico infectologista do Hospital Universitário de Santa Maria, Unimed, e com consultório médico privado no Icardio e também professor da UFSM, Fabio Lopes Pedro, conta que sua rotina de trabalho no serviço público foi bastante modificada. A passar a ser médico plantonista, auxiliar na área do covid-19, as aulas na UFSM foram interrompidas, mas ele continuou com os alunos dos semestres finais do curso de Medicina, no atendimento de pacientes. 

No âmbito privado, o médico viu uma mudança bastante importante, quando ocorreu um esvaziamento dos consultórios médicos, com as pessoas manifestando um pouco de receio de ir às consultas de rotina, que foram retornando vagarosamente. No setor privado também começaram a ser exercidas outras funções administrativas e epidemiológicas, que não eram exercidas anteriormente, resultando em atribuições severamente modificadas.

Foto: Kauan Costa - Hospital da Unimed de Santa Maria para receber casos que não sejam do COVID-19

“O meu sentimento frente ao combate do Covid-19 é dúbio, ao mesmo tempo que temos que ter uma posição forte e nortear as condutas de enfrentamento da pandemia, a gente também sente pelas coisas que fazíamos antes, as quais eram essenciais aos pacientes crônicos, que estão mais distantes do serviço de saúde. Participando do atendimento ao Covid-19, tive que deixar um pouco de lado os pacientes que atendia antes, e isto é preocupante”, desabafa Fábio Lopes.

O médico finaliza: “Na verdade todos buscam uma receita de bolo mágico, que contemple todas as nações do mundo, todas as províncias, federações do país e municípios do estado, mas não há essa receita […] Por mais que tentemos fazer coisas que fizeram em outros países, talvez esses dados de outros países não sejam válidos para a situação brasileira. 

Por mais que eu entenda que Santa Maria e região têm atuado de uma forma organizada e consistente, nós não temos conhecimento do que nos espera no futuro e isso causa aflição. As coisas têm que ser vistas com clareza sobre um olhar humano e também calculista para achar o ponto de equilíbrio ideal para a retomada da vida, mas de fato eu sou contra ao confinamento excessivo, deixar as pessoas trancadas em casa sem uma perspectiva de saída, eu também sou contra ao abuso das pessoas em sair de casa e fazer aglomerações, os extremos não caem bem em ambos os casos, é necessário ter equilíbrio.

A ideia de uma nova vida está sendo rabiscada na folha de cada pessoa, não se sabe ao certo o que a população pode esperar de quando a pandemia se der por finalizada, quando sair a rua ou se juntar com familiares e amigos se torne normal, as projeções mais positivas apontam que em 2021 o mundo veja uma possível solução para o controle epidemiológico dessa doença, mas este ano deixou uma certeza, a população se tornou muito mais vulnerável do que era antes”.

Foto: Kauan Costa - Ala do Hospital de Caridade do somente do COVID-19
Foto: Kauan Costa - Hospital de Caridade, número 1 em casos de internação por COVID-19 em Santa Maria

Deixe uma resposta

Fechar Menu