Reportagem de Denzel Valiente

O Rio Grande do Sul é o maior produtor de arroz do Brasil. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), entre os anos de 2018 e 2019 o estado produziu mais de 8 milhões de toneladas do grão. No estado, a fronteira oeste é a que mais cultiva o produto. A safra de 2020 resultou em 2.640.904 toneladas, segundo dados do Instituto Riograndense do Arroz (Irga). Mas essa grande produção demanda o uso de diversos agrotóxicos, muitas vezes prejudiciais à saúde e ao meio ambiente.

Uso dos agrotóxicos

No Brasil, foram liberados 479 novos agrotóxicos só em 2019, de acordo com o Ministério da Agricultura e da Pecuária.  Mesmo que o uso incorreto dos químicos possa causar danos irreversíveis à saúde das pessoas, dos animais, dos solos e dos rios, sua aplicação é ampla e visa a auxiliar nas produções de larga escala, como explica a agrônoma e professora da Unipampa – Universidade Federal do Pampa de Itaqui, Thais de Freitas: “[os agrotóxicos] são, via de regra, as ferramentas mais rápidas e eficazes no controle dos principais problemas da agricultura – insetos, doenças e plantas daninhas.”

Segundo a agrônoma, embora haja alternativas biológicas e culturais para o controle dos organismos que possam aparecer nas plantações, nenhum apresenta o efeito de choque dos produtos químicos, possibilitando a pulverização de centenas de hectares em uma única safra. Outro ponto ressaltado por Thais é a valorização dada a qualidade do grão de arroz destinado à alimentação humana: “A presença de insetos e doenças deprecia o valor e a qualidade do produto”, completa.

 

Fiscalização, contrabando e uso irregular de agrotóxicos

Conforme explica a professora Thais de Freitas, os produtos liberados para uso no Brasil precisam passar por testes no Ministério do Meio Ambiente, que, por meio do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Renováveis), avalia os impactos do químico na natureza. Já o Ministério da Saúde, avalia o impacto dos produtos e de seus resíduos sobre a saúde humana e o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento regulamenta como os produtos devem ser utilizados, distinguindo as culturas, alvos e doses que devem ser aplicadas.

Além disso, cabe à Secretaria da Agricultura, Pecuária e Desenvolvimento Rural fiscalizar o comércio e o uso dos agrotóxicos. “Os técnicos da Secretaria vão a campo, fiscalizando revendas e propriedades privadas, com o poder de aplicar multas quando houver infrações à legislação”, esclarece Thais de Freitas. 

Mas mesmo que haja fiscalização por parte dos órgãos governamentais, o contrabando e o uso de venenos ilegais é uma realidade nacional que no Rio Grande do Sul se evidencia ainda mais nos municípios de fronteira com Argentina, Uruguai e Paraguai. De acordo com a 13ª Delegacia da Polícia Rodoviária Federal (PRF), entre 2018 e 2019, o contrabando de agrotóxicos cresceu 38% na fronteira oeste. A multa para quem é autuado contrabandeando ou utilizando agrotóxicos ilegais varia de R$500 à R$ 2 milhões.

Entretanto, com uma rápida pesquisa na internet, é possível constatar o grande número de crimes ambientais na região. Em 2017 a PF instaurou um inquérito após a apreensão de 97 quilos de agrotóxicos ilegais em Uruguaiana. No mesmo ano, foram apreendidas toneladas de agrotóxicos ilegais em Quaraí. Já em 2019, a Secretaria da Agricultura, Pecuária e Desenvolvimento Rural constatou o uso irregular de herbicidas em 52 propriedades no RS. Nesse caso, houve “deriva”, quando o pesticida atinge outras áreas pela aplicação errada. A partir daí, pode acarretar em prejuízos às áreas atingidas.

Contaminação da água na fronteira oeste

Segundo a professora de agronomia da Unipampa, Thais de Freitas, os agrotóxicos quando utilizados de forma equivocada podem causar a eliminação de algumas espécies da natureza. A contaminação indesejada dos recursos naturais e a contaminação por resíduos para os consumidores ocorre quando os produtos são utilizados em doses e épocas fora da recomendação técnica.

Na natureza, os agrotóxicos contaminam o solo e os mananciais hídricos, como rios e lagos. Na fronteira oeste, foram encontrados resíduos de agrotóxicos em 6 dos 13 municípios. Em São Gabriel, os níveis de 23 dos 27 químicos encontrados estavam acima do que é considerado seguro pela União Europeia, em Alegrete 1 agrotóxico apresentou concentração superior ao considerado seguro. Esses dados são do Portal Por Trás dos Alimentos que reúne um levantamento do Ministério da Saúde sobre qualidade da água em território nacional.

Dos produtos encontrados em São Gabriel, 11 possuem ligação com doenças crônicas como cânceres, defeitos congênitos e distúrbios endócrinos.  Em Itaqui, o número é um pouco menor, mas ainda alarmante: dos 14 agrotóxicos encontrados, quatro são associados a doenças crônicas. Em seguida, aparecem Alegrete, Rosário do Sul e São Borja, com 13 agrotóxicos encontrados na água de cada município.

O gráfico a seguir mostra o número de agrotóxicos encontrados por cidade da fronteira oeste:

Em Barra do Quaraí, Maçambará, Quaraí, Santa Margarida e Uruguaiana não foram detectados agrotóxicos na água. Já Itacurubi e Manoel Viana não possuem dados.

Danos causados à saúde

Como consta no Portal Por Trás dos Alimentos, muitos agrotóxicos estão relacionados ao aparecimento de doenças crônicas. Conforme a nutricionista Lizahélen Morais da Silva (CRN2:13221), os danos podem ser causados por intoxicação aguda, quando ocorre num período de até 24 horas ou intoxicação crônica, quando ocorre por meio de exposição prolongada. Entre as principais doenças associadas à contaminação pelos químicos estão cânceres,  más-formações congênitas, distúrbios endócrinos, neurológicos e mentais, completa a profissional.

Veja a seguir as principais doenças relacionadas à contaminação por agrotóxicos segundo a nutricionista Lizahélen Morais:

Alimentação livre de agrotóxicos como alternativa

Segundo a nutricionista, o consumo de arroz orgânico, assim como de outros produtos orgânicos, é indicado para prevenir o surgimento de doenças e também como forma de evitar a contaminação do meio ambiente. Entre as vantagens do consumo de alimentos sazonais livres de agrotóxicos estão a qualidade nutricional, a concentração de nutrientes que chega a ser 20 vezes maior do que em alimentos comuns, o sabor mais acentuados e o respeito a natureza, finaliza Lizahélen. 

Porém, mesmo que o consumo de uma alimentação livre de venenos seja benéfica para o meio ambiente e para os consumidores, o número de plantações de arroz orgânico ainda é muito pequena. Segundo a agrônoma Thais de Freitas “na fronteira oeste existem poucos produtores, mas em outras regiões do estado há mais produtores e até cooperativas que seguem este sistema de cultivo.”

Mas esta realidade começa a mudar graças a um assentamento da reforma agrária de Manoel Viana, foi lá que surgiu a primeira e maior plantação de arroz orgânico da fronteira oeste, iniciativa da Associação de Produtores de Arroz Orgânico. Segundo o Irga, o Movimento dos Sem Terra  (MST) é o maior produtor de arroz agroecológico da América Latina. A produção envolve oito cooperativas e abrange 14 assentamentos no Rio Grande do Sul, incluindo o de Manoel Viana na fronteira oeste.

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