Reportagem de Laura Antunes

As temporadas de verão, outono, inverno e primavera não são marcadas apenas pelas mudanças nas condições do tempo e pelas oscilações de temperatura. As roupas também mudam de acordo com as estações. Essa é uma prática consolidada na indústria da moda, que, apesar de beneficiar-se das categorias definidas pelo meio ambiente, não preocupa-se com as consequências advindas dessas atividades. Aliado ao consumismo, o ramo não promove um equilíbrio entre produção e descarte, o que resulta em impactos ambientais e sociais. Thaianne Barboza e Paula Toaldo, da Brechados, destacam as complicações do fast fashion. “Criar roupas que costumam durar uma estação por preço acessível não colabora para o meio ambiente e ainda favorece o consumo desenfreado e nada consciente” – refletem.

A indústria da moda sofreu diversas transformações ao longo do tempo, e o  sistema linear vigente não se responsabiliza pelo que produz. A arquiteta e urbanista Maria Cecília Pereira resgata a expressão da engenheira ambiental, Aline Matulja, para descrever esse modelo: “Tudo que existe vem da terra e volta para terra em algum momento, algumas coisas vem da terra de um jeito bacana e outras não, e algumas coisas voltam para terra de um jeito bacana e outras não. Eu diria que, atualmente, as nossas roupas não vem da terra de um jeito bacana e também não voltam para terra de um jeito bacana”. 

Segundo o Massachusetts Institute of Technology (MIT), estima-se que cerca de 150 bilhões de roupas saiam das fábricas por ano em todo o mundo. O dado representa 20 novos itens por pessoa no planeta. “Produzir bilhões de peças por ano nunca será sustentável – economicamente, ambientalmente e humanamente falando – a longo prazo”, alerta Marina Colerato, idealizadora do Modefica. Assim como na lógica de produção, o descarte de roupas apresenta altos números. A fundação Ellen MacArthur divulgou em relatório, que a cada segundo, o equivalente a um caminhão de lixo cheio de sobras de tecido é queimado ou descartado em aterros sanitários. 

Os impactos da indústria perpassam por várias questões. Desde as consequências ambientais até os prejuízos para as e os trabalhadores que estão submetidos a condições de trabalho irregulares. A reconstrução do sistema é defendida por meio de alternativas que promovam a circularidade e a transformação da moda. 

 

As consequências do sistema linear da indústria da moda

Algodão, lã, seda, couro, viscose e poliéster. Essas são algumas das matérias primas mais utilizadas na fabricação das roupas, e, representam apenas uma etapa de um processo linear. As fibras podem ser naturais (vegetais, animais ou minerais) ou químicas (artificiais ou sintéticas). Após a extração, são transformadas em fios, que passam por processos técnicos para a formação dos tecidos. Os acabamentos e tingimentos oferecem características específicas para os tecidos, que, por fim, são direcionados para a confecção. Nesta etapa, os tecidos são cortados e costurados, transformando-se em vestuário.

Cerca de 60% da produção têxtil é destinada ao ramo da moda (Abit). O restante é utilizado na fabricação de outros produtos, como artigos de cama de mesa, banho e calçados. Também são enviados à outras indústrias que precisam de materiais têxteis em seus produtos, como o setor automobilístico e agrário. 

O processo produtivo é caracterizado como fragmentado pois cada etapa costuma realizar-se em um lugar diferente. Porém, no Brasil, a maior parte da cadeia produtiva é nacional. O vídeo do Modefica explica as particularidades da indústria da moda no país.

Luane Miguel, da Flowerade, acredita que as principais consequências ambientais na produção de roupas é a extração das fibras têxteis. A designer de moda explica que é necessário a extração do petróleo para a produção do poliéster, fibra mais utilizada no mundo, de acordo com a Fashion Revolution. A jornalista Marina Colerato sustenta que a fibra tem uma pegada enérgica importante, e, indica que 8% do petróleo utilizado no mundo é destinado à produção de têxteis. 

Outro problema do poliéster é a liberação de microplásticos na água. “É um tecido que vai se desgastando tanto no uso, quanto na lavagem, liberando microplásticos, que poluem o meio ambiente como um todo, principalmente a água”, relata Maria Cecília. A Organização Mundial da Saúde (OMS), diante de estudos que confirmam a presença de microplásticos na água, alertou que é necessário a redução da poluição, o tratamento da água e a ampliação das pesquisas sobre os riscos à saúde humana. 

O algodão também é uma fibra utilizada em larga escala pela indústria. Os agrotóxicos aplicados nas plantações liberam gases que potencializam o aquecimento global. Essa situação coloca a moda como uma das principais contribuintes para a crise climática, com a emissão de 1,2 bilhão de toneladas de CO2 somente no ano de 2015. “Se a moda (junto com outras indústrias) não limpar seus atos, é difícil imaginar um cenário onde não ultrapassaremos o teto de 1,5 graus celsius estimados no Acordo de Paris. Para se manter dentro desse limite, as emissões globais deveriam ser reduzidas em 45% até 2030 e zerar até 2050”, reforça Marina. Segundo a Oxfam, comprar uma camiseta nova de algodão produz a mesma emissão de carbono que dirigir um carro por 56 km de distância. 

A maioria das roupas em jeans são provenientes do algodão. Além dos impactos da fibra, Luane Miguel ressalta o grande consumo de água no tingimento e no tratamento da peça. No Brasil, 5.196 litros de água são empregados para a elaboração de uma calça jeans. O documentário Estou me guardando para quando o carnaval chegar (disponível na Netflix) aborda a realidade de Toritama, cidade do estado de Pernambuco, responsável por cerca de 20 milhões de jeans produzidos por ano no Brasil. 

“O uso demasiado da água é um dos principais motivos que sustenta a ideia da moda como uma vilã da sustentabilidade. Os processos químicos para tingir e fazer lavagens em tecidos reforçam essa imagem, pois as tintas e os produtos são tóxicos, ou seja, podem intoxicar operários, além de contaminar a água de rios e lagos”, apontam Thaianne e Paula. A World Wildlife Fund divulgou ser preciso 2.720 litros de água para fazer uma camiseta, o que corresponde a quantidade de água ingerida por uma pessoa em aproximadamente três anos. Além disso, a fase de acabamento e tingimento dos têxteis pode exigir até 200 toneladas de água, dado divulgado pela Yusuf

Os impactos ambientais não advém somente do processo produtivo. Em 2015 foram descartadas 92 milhões de toneladas têxteis no mundo. Nesse contexto, a doação de roupas para instituições de caridade, por vezes, representa uma prática problemática, como advertido no episódio A verdade sobre o fast fashion, do Patriot Act (disponível na Netflix). Essas instituições recebem tantas roupas que acabam sendo escoadas e vendidas para países em desenvolvimento. Porém, esses países não conseguem administrar a quantidade que recebem. Dessa forma, o destino é o mesmo caso fossem descartadas no lixo, pois são enviadas a aterros sanitários ou queimadas. 

Em Santa Maria, Zenaide Zamban, da Corrente do Bem, adverte para situação similar. A comunidade recebe uma quantidade grande de roupas, e, devido à falta de máquinas e mão de obra, não consegue fazer a reciclagem de todos os produtos. “Não existe o jogar fora pois estamos falando da nossa casa, da mãe terra. Comprar, consumir e descartar menos é fundamental”.

Consequências humanas colocam em debate a transparência da moda

A indústria têxtil brasileira é a quinta maior do mundo e emprega cerca de 1,5 milhão de pessoas. Esse número quadruplica quando incluídos os trabalhos informais (Abit). Diante de um processo fragmentado, torna-se difícil rastrear e acompanhar se as e os trabalhadores têm os direitos garantidos e trabalham em condições adequadas. 

Segundo a Walk Free Foundation, o vestuário representa a segunda categoria de produtos de maior risco para a escravidão moderna. Em 2017, auditores fiscais flagraram imigrantes bolivianos trabalhando doze horas por dia em oficinas da marca Animale, que ofereciam riscos de incêndio e estavam contaminadas por baratas. Além disso, utilizavam o mesmo espaço para dormir e recebiam cinco reais por peça. Outros casos foram divulgados pela Repórter Brasil. A Ong criou um aplicativo, o Moda Brasil, que monitora como as principais indústrias do setor atuam para evitar (ou não) a escravidão na rede de fornecedores. 

No índice de transparência da moda, a Fashion Revolution Brasil informa: “atualmente, a grande maioria das marcas e varejistas não possui fábricas próprias, o que dificulta o monitoramento ou controle das condições de trabalho ao longo de uma cadeia de fornecimento altamente globalizada. Isso, às vezes, pode ser usado como uma desculpa para que as marcas se esquivem da responsabilidade de como seus produtos são feitos”. 

A partir do índice, a Fashion Revolution Brasil analisou vinte grandes marcas que estão presentes no Brasil. O projeto existe globalmente desde 2016, e “revisa e classifica marcas e varejistas de acordo com a disponibilização de dados públicos em seus canais sobre suas políticas, práticas e impactos sociais e ambientais em toda a cadeia de valor”. O movimento acredita que a transparência é uma medida importante para uma transformação radical no ramo da moda. Na busca por essa mudança, a Fashion Revolution lançou a campanha #Quemfezminhasroupas, que instiga consumidores a questionar empresas sobre os processos produtivos e torná-los, assim, mais transparentes. 

Trabalhadores respondem à campanha #Quemfezminhasroupas da Fashion Revolution. Montagem: Laura Gomes. Fotos: Pinterest Fashion Revolution Brasil.

Moda Circular

A transformação na indústria da moda é possível por meio da economia circular. De acordo com a Ellen MacArthur Foundation, a circularidade acontece quando são estabelecidos e praticados três princípios: regenerar recursos naturais, reduzir poluição e resíduos, e prolongar o uso de materiais. A fundação ressalta que a mudança no sistema envolve governos, empresas e indivíduos, assim como, cidades, produtos e empregos. 

Luane Miguel entende que o primeiro passo da transição para um sistema circular é tornar a cadeia produtiva mais consciente e transparente. A designer afirma que as empresas precisam se responsabilizar pelo descarte da peça ou instruir o cliente sobre a forma correta. Também lembra que o consumidor precisa estar atento aos cuidados da peça. Segundo a Wrap, prolongar o uso de uma roupa por noves meses diminui cerca de 20% à 30% das pegadas de água e carbono

*Pegada de carbono: é o quanto uma pessoa emite de gases de efeito estufa em decorrência de suas atividades diárias. 
*Pegada de água: mede a quantidade de água usada para produzir cada um dos bens e serviços que usamos.

Porém, Marina Colerato argumenta que a economia circular não pode ser vista como uma solução pragmática e mágica para o caos ambiental. Repensar o modelo econômico e de consumo por meio da colaboração entre os atores da indústria da moda é fundamental, conforme explica a jornalista. “A economia circular precisa ser vista, entendida e proposta como parte de uma agenda ampla ou ela falhará miseravelmente em suas promessas”. 

Mais informações sobre moda circular na entrevista com Maria Cecília Pereira, para a Rádio Web UFN, disponibilizada abaixo. 

Alternativas em Santa Maria 

Diante dessa situação, repensar o consumo é um passo rumo à mudança. “Consumir consciente é o mínimo que podemos fazer quando pertencemos à restrita classe consumidora global”, ilustra Marina. Em Santa Maria, alternativas que subvertem o sistema encontram espaço. 

O Precious Plastic é uma comunidade global que busca encontrar soluções criativas para o descarte plástico. Dave Hakkens é o idealizador do movimento, que surgiu por meio de ideias e técnicas compartilhadas na internet sobre como oferecer nova utilidade ao plástico que vira lixo. “Em agosto de 2018, Mariana Pinheiro estava pesquisando sobre derretimento plástico e conectou o Precious Plastic a Santa Maria. A motivação era a mesma de Dave, trazer soluções, pensar de que forma podemos desviar o nosso plástico do lixão ou do oceano”, explica Bibiana Pozzebon, empreendedora e costureira da comunidade na cidade. Diversos materiais foram produzidos pela Precious Plastic, como por exemplo, pochetes, carteiras, capas de chuva e de celular. A comunidade também oferece workshops, palestras e oficinas. 

A Corrente do Bem é um movimento global que visa a espalhar práticas cotidianas que geram impactos sociais. Zenaide Zamban, da Corrente do Bem de Santa Maria, confecciona bolsas a partir de jeans reaproveitado. Em parceria com catadores e recicladores, as voluntárias seguem a lógica dos 4Rs: reutilizar, reciclar, reaproveitar e recriar. “Começamos a aplicação de bolsas sustentáveis para que pudéssemos reaproveitar o jeans, já que existe um excesso de consumo”, comenta Zenaide. Além das bolsas, o grupo confecciona roupas com retalhos da indústria para crianças. 

Algumas dificuldades apontadas são a falta de voluntários para as confecções e a baixa comercialização. “Temos muitos materiais. Não adianta levar o lixo no galpão se não tem máquina e mão de obra. O material acaba virando lixo novamente. As pessoas não se interessam, preferem comprar uma bolsa chique e usar plástico”, denuncia Zenaide. 

Outra alternativa para quem busca consumir de forma consciente são os brechós. Em Santa Maria existe um mercado de segunda mão que abrange diversos estilos. 

Arte: Modificação Canva.

Thaianne Barboza é formada em Design Gráfico e em conjunto com a prima, a designer de moda Paula Toaldo, criaram a Brechados em 2017. Pensar de forma ecológica e reduzir impactos no meio ambiente sempre esteve presente na vida das sócias. “Acompanhando brechós fora da cidade, percebemos que não existia nada semelhante ao estilo e curadoria que gostamos de consumir. Queríamos algo mais nossa cara, que fugisse do comum e tivesse uma pegada mais exclusiva”, relatam. 

Contudo, o preconceito é recorrente. “As pessoas têm receio de comprar uma roupa que já foi usada. Às vezes têm vergonha, pois adquirir roupas ainda é visto como status”. Dessa forma, utilizam as redes sociais para informar e conscientizar sobre o consumo de forma ecológica. 

Apesar de os brechós serem uma alternativa sustentável, Maria Cecília alerta sobre os cuidados com o consumismo nesse mercado. “É importante que a gente não caia em outro nicho de consumo desenfreado, ou seja, comprar uma quantidade enorme de peças de segunda mão pelo simples fato de terem um custo muito pequeno, e, dessa forma, não terem um impacto financeiro significativo. É fundamental comprar peças de roupa que realmente vamos usar e que possamos nos responsabilizar”. 

É possível um futuro ecológico para a indústria da moda? 

A capilaridade dos processos de produção da indústria da moda requerem alternativas que estão além do nível de consumo. Para Luane Miguel, o principal desafio para a construção de uma moda sustentável é conseguir rastrear todas as etapas da cadeia produtiva que envolvem diversas pessoas e processos. 

Maria Cecília destaca a conscientização. Segundo ela, “existe uma falsa projeção do problema como uma coisa do futuro. Só isso já deveria ser motivo para mudança hoje, mas como não é, precisamos entender de verdade que o problema já bateu na porta de todo mundo, como a questão do plástico na água encanada”. 

A solução sistêmica é defendia por Marina Colerato. “Não importa quantas iniciativas bacanas nós avaliarmos – tecidos incríveis, fibras ‘revolucionárias’, tecnologias mil -, se não repensarmos demanda e produção e criarmos legislações melhores, é difícil acreditar numa mudança real”. 

Deixe uma resposta

Fechar Menu