Fonte: foto do portal FreePik

Reportagem de Allysson Marafiga, Nathália Arantes e Gabriela Flores

Do início da adolescência até a vida adulta, ele faz parte da trajetória da maioria das mulheres até cerca de 50 anos. Seu uso é mensal e, geralmente, acompanhado por desconfortos como dor, inquietação e mudanças físicas temporárias. 

Os absorventes são essenciais na rotina diária da maioria das mulheres, que são metade da população no mundo. Durante a idade fértil – que começa após a puberdade e se estende até a pré-menopausa – estima-se que as mulheres usem cerca de 10 absorventes descartáveis por ciclo menstrual, variando de 10 mil a 15 mil, da adolescência à menopausa. Como o Brasil não recicla esses resíduos, esses absorventes acabam indo parar em aterros e causando problemas ambientais.

 

História do absorvente 

O primeiro absorvente descartável chegou ao Brasil em 1930, mas tornou-se popular apenas a partir da década de 1950. Ao representar mais conforto e praticidade, a novidade é impressa em vários anúncios que vinculam mulheres a um conceito de modernidade. 

No Ocidente, desde a primeira revolução industrial, no final do século 18, até a década de 1960, as mulheres usavam pequenos pedaços de tecido dobrado para absorver a menstruação. As próprias usuárias costuravam as “toalhas higiênicas” e, após o uso, limpavam-nas e as reutilizavam. 

Hoje, as mulheres têm vários absorventes descartáveis industriais que atendem a diversas necessidades (diárias, noturnas, almofadas de proteção pós-parto etc) e preferências da consumidora. Este é o produto usado pela maioria do público em suas atividades diárias. 

Em alguns lugares do mundo, algumas mulheres não podem usar absorventes menstruais porque vivem em lugares remotos e longe das cidades, ou porque não podem arcar com as despesas. Elas chegam a parar de frequentar as escolas e até mesmo o trabalho durante o período menstrual.  A menstruação existe na vida de grande parte das mulheres, mas – apesar de ser tão comum e natural – ainda é tabu para a sociedade.

 

Os impactos ambientais na produção e pós-consumo dos absorventes

A tecnologia dos absorventes descartáveis é semelhante à das fraldas, tendo  árvores e petróleo como matéria-prima para a sua fabricação. O absorvente externo é composto de celulose, polietileno, propileno, ligante termoplástico, papel de silicone, polímero superabsorvente e agente de controle de odor.

Ao destacar esses elementos para a fabricação, um dos principais impactos desses produtos no meio ambiente começa com a extração e o processamento das matérias-primas. Como a produção de plásticos requer muita energia e produz resíduos persistentes, o produto acaba causando uma grande poluição ambiental. Não apenas a produção de absorventes descartáveis, mas de componentes adicionais, como embalagens e serviços, também afeta o ciclo de vida do produto.

Devido à grande quantidade de componentes de plástico utilizados, o absorvente externo tem um impacto maior no meio ambiente. Isso não quer dizer que os tampões não tenham um grande papel nisso também, uma vez que as fibras de algodão representam 80% do impacto total da produção desses itens, e já que o cultivo intensivo de algodão requer muita água, pesticidas e fertilizantes.

Um estudo realizado pelo Instituto Real da Tecnologia, na Suécia, concluiu que, apesar de os absorventes externos terem um grande impacto ambiental, os internos também contribuem para a poluição do ambiente.  Segundo o Instituto, a fibra de algodão contribui com 80% do impacto total da produção desses absorventes, pois o cultivo intensivo de algodão requer grandes quantidades de água, pesticidas e fertilizantes. 

Após o uso, descartados em aterros, os absorventes produzem uma grande quantidade de lixo composto de materiais sintéticos, que leva em média 100 anos para se decompor na natureza. O solo é poluído por aditivos químicos usados em seu processo de fabricação e também podem produzir dioxinas que persistem no ambiente.

 

As alternativas e a saúde da mulher

Muitas mulheres usam absorventes ostensivamente em suas vidas, o que levou ao surgimento de reflexões sobre os possíveis efeitos deles na saúde das usuárias. Problemas como alergias e infecções, podem estar relacionados ao uso de absorventes, principalmente em mulheres cuja pele é mais sensível a fragrâncias, corantes e materiais sintéticos nos ingredientes de determinados produtos. Por exemplo, absorventes com uma camada de plástico podem prejudicar a ventilação da área, facilitando assim o aparecimento de infecções. 

Em tempos em que a chave é achar alternativas ecológicas a esses produtos, já há algumas opções para substituir o absorvente industrializado. O absorventes de pano são uma alternativa para aquelas que preferem produtos de uso externo. Eles exigem consumo de energia e água na lavagem, mas economizam o uso geral de matérias-primas na fabricação, por serem reutilizáveis. 

Este tipo de produto possui o mesmo formato de uma pequena almofada, sendo de 100% de algodão, com vida útil de até 5 anos. A ideia é que ele seja limpo e reutilizado, igual ao processo anterior aos absorventes descartáveis. 

Na região Central do Rio Grande do Sul, a Lua em Flor, negócio criado pela artista visual, Patricia Oliveira Moreira, dedica-se à produção de ecoabsorventes. Mãe de duas filhas, Patricia começou a desenvolver o produto após ter reações alérgicas, aos absorventes tradicionais no período de pós-parto.  Com atelier em casa, Patricia realiza todas as produções que rodeiam a marca Lua e Flor. Desde a confecção, com seleção de tecidos, até a produção de imagens para a divulgação, tudo é realizado pela empreendedora. 

Os absorventes têm como matéria-prima o resíduo têxtil, e depois de testes e adaptações, a criadora passou a utilizar tecidos impermeáveis de poliuretano na customização das peças. Aplicando esse produto nos ecoabsorventes, eles ficam livres de vazamentos e seguros para o uso, segurando o fluxo menstrual como se fosse um absorvente descartável.

Para a empreendedora, umas das preocupações é que em algumas realidades os absorventes de pano não são viáveis, devido a diversas questões sensíveis de cada usuária. “Quando as mulheres começam a usar os ecoabsorventes, elas mudam essa percepção do que nós é ensinado, que vem antes da nossa menarca, de que o sangue menstrual é algo sujo, de que ele fede.  Ao usá-lo você percebe ele não tem um cheiro, não tem um odor, é só sangue. A características daquele sangue são as mesmas do que está correndo nas veias”, enfatiza. 

Mudando essa relação, outros fatores são desencadeados. O sangue deixa de ser algo impuro ou sujo, tornando-se algo que corresponde ao corpo da mulher, ou seja, é algo orgânico. “Ele flui e se conecta a outras questões, como as cólicas ou a aceitação dessa natureza cíclica da mulher, que sangra todo mês. Muitas mulheres também param com a pílula, depois que elas começam a se conectar com esse sangue”, destaca Patrícia.

Para a Jornalista Luiza Rorato, essas novas alternativas sustentáveis de absorventes são revolucionárias. “Acredito que sair da zona de conforto, abrir discussões sobre como as mulheres podem contribuir para o meio ambiente e, da mesma maneira, quebrar tabus impregnados na sociedade é incrível, possibilita um novo olhar, mais saudável e natural”, afirma.

Outra alternativa é o coletor menstrual que é um copo de silicone hipoalergênico usado para coletar sangue menstrual. Ele é reutilizável, não contendo substâncias alérgicas ao corpo da mulher. Essa alternativa é a mais ecológica, pois evita a geração de resíduos sólidos e é mais econômica, pois o produto pode ser usado por muitos anos. 

Já a calcinha absorvente possui uma camada que absorve o fluxo de sangue menstrual. A função dessa peça é reter líquidos, evitar vazamentos, matar bactérias e garantir a pele seca. Uma das vantagens é que ela pode ser utilizada como roupa íntima comum, podendo ser lavada e reutilizada. 

O absorvente reutilizável também tornou-se tema do Trabalho Final de Graduação da acadêmica de Publicidade e Propaganda Ludmila Almeida, que abordou a imagem do ciclo menstrual na mídia.  Em seu trabalho, intitulado “A Ressignificação do ciclo menstrual pela publicidade de calcinhas absorventes: a direção de arte da campanha ‘As quatro fases do ciclo’ da marca Pantys”, a estudante salienta que abordar assuntos do mundo feminino com foco na direção de arte utilizada pela marca, instigou-a a analisar os porquês de tais escolhas de elementos no objeto de estudo.  

A estudante destaca a importância da discussão sobre a menstruação, ainda vista como um tabu. “Foi ensinado pela sociedade que a menstruação, é algo ‘sujo’, assunto que deve ser evitado, por exemplo, em grupo, em voz alta ou até mesmo com os homens. Esta visão faz com que a mulher veja seu corpo de maneira negativa, dificultando sua vivência e autoaceitação. A menstruação é algo natural da mulher, é saudável menstruar”, explica.

 

A menstruação no audiovisual 

A ideia da cineasta Rayka Zehtabchi de abordar o tema da menstruação pelas vivências das mulheres indianas no filme “Absorvendo o tabu” – em sua língua original, “Period. End of sentence” – rendeu a ela o Oscar de melhor documentário no mesmo ano. A obra foi lançada em fevereiro de 2018, na plataforma da Netflix.

A produção revela a história de uma população, constituída pela maioria de homens, que não sabem nada a respeito da menstruação. Neste cenário, as mulheres sofrem preconceitos, além de desemprego, abandono da escola e proibição de entrar em templos porque são consideradas “sujas”, por diversas situações delicadas. 

Muitas mulheres indianas não usam absorventes higiênicos. E engana-se quem pensa que essa é uma tendência sustentável, na qual as mulheres escolhem o coletor menstrual, os absorventes de pano, ou até, roupas íntimas para esse período. De acordo com o documentário, apenas 10% das mulheres na Índia tem acesso a absorventes e a falta de acesso é um dos problemas no local. Isso faz que as mulheres usem qualquer pano, mesmo sem qualquer higienização, e até deixam de ir a locais públicos

Fonte: Netflix/Divulgação

Para a crítica de cinema Bianca Zasso, um filme falar sobre a menstruação – que ainda é um assunto tabu, inclusive entre as mulheres – é um sinal que estamos abrindo uma porta para acabar com esse preconceito. “Se pararmos para pensar, a menstruação é algo comum, para todas as mulheres cisgênero. Em alguns casos, há mulheres que optam por não menstruar, por questões de qualidade de vida. A menstruação faz parte da vida de praticamente todas as mulheres e deveria ser um assunto normal como a gente fala de outras situações na nossa vida”, destaca.

 

O uso dos absorventes na atualidade

Em tempos de mudanças climáticas e de pandemia, devido ao COVID-19, buscar opções sustentáveis num cenário de incertezas é fundamental. Criar espaços de debates com olhar sensível a assuntos que são considerados tabus pela sociedade, tornou-se algo mais necessário do que nunca. Em um mundo onde a tecnologia avança diariamente, o descarte desenfreado de lixo não é mais tolerável. 

Repensar é a premissa inicial para reutilizar. Além de permitir um olhar diferenciado para o que nos cerca, o repensar permite um olhar interno de respeito e de autoconhecimento. Saber reconhecer as diferentes vivências para uma mesma realidade, como a menstruação, permite-nos reconhecer as necessidades de cada pessoa.  Desta forma, quando percebemos a nossa natureza, sem tabu, podemos avançar nos debates sobre a natureza como um todo.

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